Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009


A primeira bateria solar da Bell em Americus, Geórgia.

 

O efeito fotovoltaico, a produção de electricidade por incidência de luz, foi observado em 1839 pelo físico francês que observou pela primeira vez o paramagnetismo do oxigénio líquido, Alexandre Edmond Becquerel. Becquerel conduzia experiências electroquímicas quando, por acaso, verificou que a exposição à luz de eléctrodos de platina ou de prata dava origem ao efeito fotovoltaico.

 

Apesar do nascimento precoce da ciência subjacente, a primeira célula solar foi formalmente apresentada na reunião anual da National Academy of Sciences no dia 25 de Abril de 1954. No ano seguinte, há 54 anos, a célula de silício viu a sua primeira aplicação como fonte de alimentação de uma rede telefónica em Americus, na Geórgia.

 

As primeiras utilizações de energia fotovoltaica resumiam-se a situações em que não estava disponível energia da rede, nomeadamente em locais remotos e, especialmente, fora da Terra, quer em satélites quer em sondas espaciais. De facto, embora inicialmente a NASA não estivesse muito convencida das vantagens da utilização de painéis solares aceitou, com alguma relutância, dotar o Vanguard I de um pequeno painel, seis células solares com uma área de apenas 1 dm2, para alimentar um transmissor back-up de outro alimentado por uma pilha de mercúrio. O transmissor do satélite, lançado em Março de 1958 e ainda em órbita, funcionou durante cerca de oito anos ... mas aquele alimentado pelas células solares, a pilha «convencional» falhou ao fim de vinte dias.

Depois do fiasco salvo pelas baterias solares, que tiveram aqui a sua prova de fogo, o programa espacial norte-americano passou a usar células solares nos seus satélites, solução igualmente adoptada pelo programa espacial soviético: o Sputnik-3, lançado cerca de dois meses depois do Vanguard I, estava igualmente dotado de um pequeno painel solar.

Na década de sessenta, a investigação em células solares surge quasi como um efeito colateral da guerra fria entre as duas grandes superpotências da época. Ou seja, foi a guerra ao espaço que promoveu um grande desenvolvimento das células solares, desenvolvimento que foi essencialmente dirigido a um aumento de eficiência e tinha poucas ou nenhumas preocupações económicas.

 

A situação alterou-se no início da década de setenta, quando Joseph Lindmeyer, que trabalhava para a Communications Satellite Corporation, inventou uma célula de silício cerca de 50% mais eficiente que qualquer outra. Embora a Comsat fosse a dona da patente, o sucesso desta célula convenceu Lindmeyer de que a energia solar estava pronta para o público em geral. Lindmeyer saiu da Comsat e com Peter Varadi fundou a Solarex em 1973.

Aquela que foi uma das primeiras empresas a tentar vender aplicações «civis» da energia solar começou por produzir painéis fotovoltaicos para sistemas de telecomunicações remotos e bóias de navegação, o único tipo de aplicações terrestres que se pensava serem economicamente interessantes. Mas cerca de dois meses depois de fundada a Solarex, a conjuntura alterou-se drasticamente com o primeiro choque petrolífero e, subitamente, o mercado da energia solar conheceu uma expansão inesperada. Em 1980, a Solarex detinha metade de um pequeno mas crescente mercado de células solares.

A crise petrolífera de 1973 levou a outra corrida a programas de investigação em células solares, agora mais dirigidos para a redução dos custos de produção. Até aí os painéis solares eram baseados exclusivamente em células de silício monocristalino. Mas a fabricação das células solares tradicionais - as células de 1ª geração que, com excepção das células de arsenieto de gálio, são ainda as mais eficientes disponíveis no mercado - exige salas limpas e tecnologia muito sofisticada, o que as torna demasiado caras.

A investigação intensiva nesta área despoletada pela primeira crise petrolífera conduziu à descoberta de novos materiais, em particular o silício multicristalino ou mesmo silício amorfo, muito menos exigentes em termos de processo de fabrico, ou de métodos de produção de silício directamente em fita o que permite eliminar os desperdícios (e esfarelamento) no corte de um grande cristal em bolachas. Também o processo de produção de filmes ultra-finos de silício permite uma economia de até 90% da energia utilizado nos processos de produção convencionais*. A utilização de revestimentos antirreflexivos permite por outro lado aumentar a eficiência das células solares enquanto a deposição dos contactos eléctricos por serigrafia, em vez das técnicas tradicionais de fotolitografia e deposição por evaporação de metais em vácuo, permitiu baixar ainda mais os preços de fabricação.

 

Todos estes desenvolvimentos científicos e tecnológicos permitem prever que dentro em muito pouco tempo a energia solar consiga bater o preço da energia produzida em centrais a carvão. A confirmá-lo, um estudo muito recente da New Energy Finance que indica que no final de 2009 a energia solar custará menos 50% que no final de 2008 (custos reais, sem subsídios). 

 

Mas as boas notícias não terminam aí: a empresa indica que o preço de todos os equipamentos para produção de energias renováveis tem descido sustentavelmente ao longo do ano e espera-se que continuem a descer não obstante o mau momento financeiro que se vive. Como refere a Scientific American, as energias renováveis parecem estar bem encaminhadas precisando apenas de um pequeno empurrão estatal para se imporem (e para os preços descerem ainda mais). Em Portugal esse empurrão já aconteceu mas pode ser que agora venha o reconhecimento do mérito da forte e presciente aposta governamental nestas energias.

 

* As células de filme fino, embora com uma eficiência em laboratório inferior às células de primeira geração, frequentemente permitem melhores resultados em comparação com as células clássicas nas aplicações reais do dia-a-dia, devido a perdas inferiores às temperaturas elevadas de funcionamento e a uma melhor eficiência em condições de baixa intensidade de luz.


6 comentários:
De Jorge a 1 de Dezembro de 2009 às 14:14
Cara Palmira, parece-me que falta um dado essencial no seu texto. É que, actualmente, a eficiência de um colector fotovoltaico é de (apenas) cerca de 30 porcento. Há ainda muito a desenvolver neste campo que é, quanto a  mim, a melhor aposto de entre as renováveis.

Jorge


De Palmira F. Silva a 1 de Dezembro de 2009 às 14:34
As eficiências de conversão da energia solar, PCE, da maioria  PVS referidas na literatura são muito baixas que os 30% que refere (que descreve as eficiências das células de arsenieto de gálio e não das de silício).

Mas o que interessa não é tanto a PCE (que basicamente mede a eficiência de produção de fotoelectrões a partir de luz branca) mas a quantidade de electricidade produzida. Embora se tente melhorar a PCE, o que se faz essencialmente é melhorar a «utilização» da luz. Ou seja, desenvolvendo sistema ópticos de concentração da luz e materiais que absorvam uma gama maior (ou diferente) de radiação.

As novas células solares de altíssima eficiência utilizam um novo sistema de concentração óptica lateral, que divide a luz solar em três diferentes gamas de comprimentos de onda  e dirige os feixes para células solares feitas com materiais que absorvem essa luz.


De Jorge a 1 de Dezembro de 2009 às 17:04
Sim, 30 por cento é um valor máximo e, não estou certo, mas julgo que já há painéis de silício que chegam perto destes valores. De qualquer das maneiras a eficiência varia também com a altura do ano (sendo que no inverno é maior). Eu apenas referi o reduzido valor para dizer que se conseguirmos aumentar esta eficiência, nem que seja em 10 %, imaginem a revolução que não seria nos CSF! Para além dos CSF não podemos esquecer os colectores térmicos, nomeadamente a nível doméstico, que são relativamente baratos e apresentam valores de eficiência bastante mais elevados.

Jorge


De João André a 1 de Dezembro de 2009 às 16:07
Cara Palmira, falta ainda referir a energia solar mas com painéis térmicos, que muitos prevêm ser uma solução melhor para casos específicos, nomeadamente para a produção de energia em larga escala (usando também espelhos para concentração dos raios solares).


Quanto à eficiência energética, é escusado estar a falar nisso. Não me lembro onde foi que o li, mas acho que toda e qualquer fonte de energia é altamente ineficiente, sendo que o carvão era a fonte de energia mais eficiente e, mesmo assim, andaria abaixo dos 50%. Talvez seja engano meu, mas isso não impede que o que conte nestes assuntos seja o custo de uma unidade de energia, mais do que a eficiência que lhe está subjacente. Até porque o sol e o vento não desaparecerão antes da humanidade.


De Rei Sol a 1 de Dezembro de 2009 às 16:59
Bom post


De VG a 28 de Março de 2010 às 20:44
Segundo vários autores e teorias, existe ainda a possibilidade de aproveitar energia dos ventos solares no espaço e "reencaminhá-la" para a Terra. Há quem defenda igualmente, que o solo lunar será rico em fontes de energia que poderiam ser uma alternativa às energias não renováveis que actualmente utilizamos.

VG
(http://astropolitica.blogs.sapo.pt )


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