Domingo, 6 de Dezembro de 2009
Rogério da Costa Pereira

No dia 23 de Novembro fui renovar o meu caduco bilhete de identidade. Rectius, fui trocá-lo – a ele e a mais uma carrada de documentos – pelo cartão do cidadão. Por distracção e estupidez, enganei-me (ligeiramente) na morada que indiquei. Em vez do direito, afiancei (assim mesmo) que era no esquerdo que morava – a minha mnemónica política deixou-me mal. Segundos depois de a senhora que me atendeu ter carregado no “enter” definitivo – e ela, quando me pediu para conferir os dados, avisou-me do carácter apocalíptico da coisa –, veio-me à memória (por mnemónica alternativa) que o meu lar-doce-lar era à direita e não à esquerda. A medo, disse-o (disse-lho). Ela olhou para mim como eu merecia ser olhado, pois se tinha tido o cuidado de me avisar. Mas tudo bem – não seria morte de homem –, haveria de receber uma carta em casa a avisar que o cartão estava pronto e, nessa altura, poderia emendar o erro. Quatro ou cinco dias, disse ela.

Chegado a casa, lembrei-me do óbvio: a carta iria parar à casa da minha vizinha. Nada de preocupante, bastava-me pedir-lhe para me fazer o favor de, assim que recebesse a carta, a depositar na caixa do correio ao lado. Por escolha do destino, nessa semana não a apanhei uma única vez. Passados cerca de dez dias, liguei para a conservatória e expliquei o caso. Que não havia nada a fazer, sem papel não iria ter direito ao cartão que me prova cidadão. Aproveitando a oportunidade, a senhora verificou se o tal do cartão já tinha chegado. Que não, estranhamente. Que não.

"– Só um bocadinho…"

(bocadinho)

"– Olhe, temos aqui um problema, o seu pedido está, desde o dia 23, bloqueado nas finanças, é melhor ligar para lá. Isto está tudo cruzado, sabe?"

Assim fiz, ciente que me deitava na cama que tinha feito. Ali, explicaram-me que “o sistema” havia instituído aquele bloqueio para obrigar o contribuinte a ir às finanças actualizar a morada (normalmente desactualizada nas finanças) e não havia previsto o caso de contribuintes [burros, digo eu] que se enganavam na morada que indicam na conservatória. Ou seja, como a morada das finanças é a correcta e a da conservatória é a errada, havia que corrigir o erro na fonte. Sucede que, como já disse atrás, depois do fatídico “enter”, ali (na conservatória) não havia nada a fazer. A única possibilidade seria esperar pela carta que iria para a caixa de correio da minha vizinha para, dela munido (da carta), emendar a mão.

O problema é que a carta não virá (olhó rabo na boca da pescadinha), pois se o processo só será desbloqueado nas finanças caso eu lá vá actualizar a morada – a tal que nestes serviços não está errada. Ou seja, para resolver o problema, teria de declarar nas finanças que moro no esquerdo e não no direito (o que é falso), ao contrário do que lá consta. O desbloqueador activa-se, eu recebo a carta, vou à conservatória alterar a morada – do esquerdo para o direito – e regresso às finanças para voltar a alterar a morada – da errada (que eu declararia – erro sobre erro para emendar o erro) para a certa. O problema é que isto bule com outras questões fiscais, que não vale a pena detalhar, mas que não são difíceis de adivinhar quais sejam – isenções de IMI e quejandos, pois se eu vivo no direito.

O problema vai resolver-se, depois de alguns taratatis e taratatás, algumas voltas e revoltas; mas tudo seria bem mais fácil se o tal “enter” inicial não tivesse aquele carácter teimoso e inflexível – coisa própria da natureza humana, mas que devia estar alheado dos sistemas informáticos, que nada têm de humano e nos deviam dever obediência. Tudo seria bem mais fácil se o homem que inventou a máquina a conseguisse convencer que ela está para nos servir e não ao contrário. A ordem natural das coisas não seria alterada e os escravos não seríamos nós…


9 comentários:
De JMG a 6 de Dezembro de 2009 às 02:20
Suponho que seja impossível trocar de apartamento com a vizinha. Ou ir viver com ela. Em qualquer caso boa sorte, diabo de alhada. 


De SALADINO a 6 de Dezembro de 2009 às 02:46
Faltam por ai são escravos,basta ver o que se passa com os leitores do correio da manhã.Até dá pena.....


De Marco a 6 de Dezembro de 2009 às 03:13
Está aí algo mal contado...

Neste verão mudei para cartão do cidadão, com mudança de morada (de lado, de andar, de prédio, de rua, de cidade, até de distrito). Tinha tudo ainda na morada antiga, carta de condução, NIF, tudinho.

Fui apenas a um sítio (mini-imitação-loja do cidadão, que essa grande inovação da loja do cidadão ainda não chegou ao nordeste transmontano), onde tratei de tudo - nada de bloqueios, e em cinco dias tinha efectivamente o meu novo cartão do cidadão nas mãos...

Noutra vertente, e como programador, posso afiançar-lhe que, se o programa funciona assim, é porque foi uma requisição do contratante. Nada é irreversível em informática. Olhando ao caso em concreto, espero bem que depois do tal "Enter", a informação seja mesmo irreversível; se o não o fosse, nada impediria uma alegada malévola senhora do balcão de nos mudar a morada ou estado civil mal virássemos costas...


De Joo a 6 de Dezembro de 2009 às 04:02
Cada vez mais verificamos os papéis invertidos da relação criador vs criado, somos todos vítimas do que criamos a ainda mais do que precisamos...

www.retrocenas.blogspot.com (http://www.retrocenas.blogspot.com)


De Sejeiro Velho a 6 de Dezembro de 2009 às 09:24
Em Faro o sistema está muito mais avançado. Quando fui tratar do meu cartão, a senhora que me atendeu, perante as minhas atabalhoadas informações (sou muito velho), fartou-se de enter tar e des enter tar e ao fim dos 5 dias eu já era cidadão.


De trucatruca a 6 de Dezembro de 2009 às 11:14
mais um proc kafkiano


De congeminações a 6 de Dezembro de 2009 às 13:40
Pelos vistos os contratempos decorrentes do enter com a morada errada estão bem explicados pelo comentador Marco programador informático. O azar do autor do post foi ter recorrido a um local em que tal como afirma o programador, depois do enter o sistema não permitir correcções nem alterações porque foi assim previamente definido. Estranho é o programa não permitir anular o registo como recurso para o voltar a efectuar em caso de erro ou omissão de elementos.


De Zé Carioca a 6 de Dezembro de 2009 às 13:54
...distracção...


Palavra nova esta.


Não será antes distração ?


De Anónimo a 6 de Dezembro de 2009 às 22:34
(http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/distra%C3%A7%C3%A3o)Não. Arrogância é que leva só um "c" e não é de cedilha. (http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/distra%C3%A7%C3%A3o)


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