A ignorância afirma ou nega veementemente, a ciência duvida (Voltaire)
O episódio 4 da série Cosmos, Céu e Inferno, é certamente um dos mais marcantes. Com todo o carisma que o caracterizava, neste episódio Carl Sagan conta-nos como os monges de Cantuária foram testemunhas em 18 de Junho de 1178 de um impacto lunar que alguns cientistas pensam ser o responsável pela cratera Giordano Bruno. Uns séculos mais tarde, em 30 de Junho de 1908, uma explosão abalou a Sibéria, projectando árvores a milhares de quilómetros de distância e produzindo um estrondo que se ouviu em todo o mundo. Sagan parte destas catástrofes naturais para Vénus, cuja atmosfera «infernal», com temperaturas dantescas devido ao efeito de estufa, utiliza para alertar que o nosso pode ser o destino de Vénus. Sagan lança assim, em 1980, um aviso para a necessidade de medidas de protecção do nosso frágil planeta azul.
As alterações climáticas devidas a efeito antropogénico, que, contrariamente ao que alguns pensam, não se reduzem ao efeito de estufa, estão certamente na ordem do dia mas as «paixões» que geram são por vezes contraproducentes para a consciencialização de um problema muito complexo.
Ainda na série Cosmos, no último episódio, Sagan adverte-nos para algo que aborda com mais detalhe n'«O Mundo Infestado de Demónios», algo também subjacente ao meu «Pensamento mágico e sono da razão»: «as consequências do analfabetismo científico são muito mais perigosas na nossa época do que em qualquer outro período anterior, devido aos perigos potenciais dos avanços tecnológicos na vida quotidiana, quando mal utilizados».
No capítulo 19 do livro, Sagan transcreve um artigo que publicou na revista Parade, em meados da década de 90. O artigo analisava as competências científicas dos alunos norte-americanos e as razões subjacentes à fraca prestação dos alunos do seu país,. Sagan termina o capítulo explicando por que considera importantes os investimentos continuados em ciência e em educação de ciência. E estes motivos são tão diversos como uma escolha mais fundamentada dos candidatos nas próximas eleições ou das melhores opções para proteger o planeta.
Numa altura em que o mundo tem os olhos pregados em Copenhaga, esperemos que os governantes mundiais que se reunem para decidir o sucessor do tratado de Quioto façam as suas escolhas de forma informada e não de ouvido ou com as certezas da ignorância.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
