Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

paulo pedroso junta-se à discussão (bem-vindo, paulo).

 

apenas um reparo: eu nunca disse nem insinuei que ter mulher a dias (prefiro usar a expressão contrato de serviço doméstico) é saloiice. não é por comparar a realidade nacional, no que a esse factor respeita, com a da noruega e dinamarca que tenho de concluir que ter mulheres a dias é saloio. nunca foi esse o intuito do texto nem me passou pela cabeça que alguém o pudesse ali encontrar.

 

de resto, de acordo. e relevo isto, porque me parece essencial para decompor as estranhas noções que surgem quando este assunto é discutido: 'porque não hão-de as mulheres-a-dias fazer parte da classe média, com as mesmas expectativas e o mesmo modo de vida dos seus patrões? Se eu compro um serviço que consigo pagar (as tais horas) em que é que o facto de quem mo presta fazer ao fim do mês um salário próximo do meu (que não sou eu que pago) me afecta?'


17 comentários:
De Marcelo do Souto Alves a 9 de Dezembro de 2009 às 12:02
A resposta talvez esteja no facto, empiricamente perceptível, de que o "mercado" das mulheres-a-dias se encontra praticamente dominado por estrangeiras, que praticam preços muito mais acessíveis e, por vezes, são ainda mais competentes do que as "senhoras" portuguesas, geralmente "urbanas provincianas".


              O que significa que entre patrões e "mulheres-a-dias" tenderá sempre a haver uma "diferenciação de classe" inevitável, e por razões não apenas económicas, mas igualmente sociais.


  Ou seja, é pouco provável que uma patroa esteja a contar as suas férias na Quarteira à sua empregada e a ouvir esta contar-lhe as suas férias em Praga, ou Sampetersburgo.



                           Admito assim que, por esta lógica, as empregadas da Quinta da Marinha possam ter um nível de vida igual ou superior ao meu, que só posso ter acesso a brasileiras, romenas ou ucranianas (para além da pobre e simpática velhota suburana que nos limpa a escada uma vez por semana...).


               Que por sua vez estará incluída na "classe" dos que não podem ter mulher-a-dias, ou seja, estará incluída não na classe média, seja lá o que isso for, mas na dita "classe trabalhadora", que afinal será apenas definida por estar abaixo da classe média...



                    Que faltam estudos sociológicos sobre isto, lá isso faltam. E quando digo sociológicos, quero mesmo dizer sociológicos, não apenas "sociográficos", que é tudo o que a chamada Sociologia portuguesa (eu chamar-lhe-ia antes "Sociografia") consegue produzir...


De Luna a 9 de Dezembro de 2009 às 12:22
Curiosamente acabo de passar o fim de semana na dinamarca, em casa de uns amigos portugueses que vivem lá, e que finalmente, passados 6 anos, arranjaram  empregada: uma brasileira que faz 2 horas de 15 em 15 dias. Ou seja, quase nada.
Contava-me a minha amiga que é muito difícil arranjar alguém, e muito menos a preços acessíveis, porque além das horas de trabalho tem ainda de se pagar o transporte, etc. Praticamente só estrangeiras trabalham a dias, e muitas vezes apenas enquanto estudam ou não arranjam trabalho a full time.
Ah... e confirmo que se tiram sempre os sapatos à entrada das casas para não sujar.


De aorta a 9 de Dezembro de 2009 às 12:58
os nórdicos estão a começar  perder a cabeça. deve ser da crise.

(esta conversa é mesmo coisa de provincianos com tiques de novo riquismo. não têm mulher a dias mas gastam 600€ numas botas feitas na china por criancinhas)

 


De aorta a 9 de Dezembro de 2009 às 12:21
"Se eu compro um serviço que consigo pagar (as tais horas) em que é que o facto de quem mo presta fazer ao fim do mês um salário próximo do meu (que não sou eu que pago) me afecta?'"

e será que estas mulheres a dias (com salários próximos dos "meu") também têm mulher a dias?


De Sejeiro Velho a 11 de Dezembro de 2009 às 10:45

Não terão mulher a dias, mas conheço muitas que têm ama para os filhos. O saldo entre o que ganham e o que pagam é positivo.


De aquasky a 9 de Dezembro de 2009 às 12:41

Diz P. Pedroso: "Mas a seguir faça um inquérito às classes médias e veremos quem tem razão. "

Mas se ainda não se acertou quem faz parte da classe média como é que se pode fazer esse inquérito?


De Anónimo a 9 de Dezembro de 2009 às 12:55
(Tenho seguido mais ou menos o que se tem dito sobre este assunto). No entanto muitas conjecturas e conclusões a que têm chegado partem de (pelo menos) uma premissa errada: não é por questões  de economia doméstica que nos países nórdicos não seja frequente haver empregados domésticos. Terá mais a ver com outros factores, entre os quais e com muito peso, a privacidade. Porque, se por um lado as tarefas domésticas semanais ou diárias são feitas pela família, também é verdade que  duas vezes por ano são contratadas empresas de limpeza de 4 ou 5 elementos para dar uma "geral" a fundo. Ora em Portugal, aí por razões económicas, quem é que pode fazer isso?


De aquasky a 9 de Dezembro de 2009 às 13:05

Uma coisa é certa: o critério de definição de classe não pode ser reduzido à relação directa (física) com os meios de produção, expressa na contraposição entre trabalho manual e intelectual.


  


Por isso,  os trabalhadores no comércio, nos bancos, engenheiros, técnicos e profissionais de nível médio ou universitário, compõem a classe operária moderna porque além de não serem proprietários, são assalariados.


 


Eu defendo a proletarização da classe média e a incorporação do conjunto dos assalariados urbanos nas fileiras da classe operária.



De Luna a 9 de Dezembro de 2009 às 15:27
Voltando ao assunto, depois de ler uma parte dos comentários ao primeiro post - god, cheguei à conclusão de que é um assunto extremamente polémico! - há mais um factor que me esqueci de mencionar:
Nos países nórdicos, além da maior igualdade salarial yada yada, há um detalhe que faz toda a diferença quanto à necessidade de se contratar empregadas domésticas: o horário de trabalho. Nestes países o horário é das 9 às 5, ou das 8 às 4, e as pessoas vão de facto para casa a essas horas, sobrando-lhes muito mais tempo para tarefas domésticas. Além disso, depois de ter filhos muitas mulheres deixam de trabalhar full time, fazendo apenas manhãs, por exemplo, e ainda mais comum é que passem a trabalhar apenas 4 dias por semana, tal como os maridos. Tudo isso ajuda a que se tenha menor necessidade de contratar alguém para limpar, porque se precisa muito menos.
Quem é que em portugal se pode dar ao luxo de ir sempre para casa às 4 ou 5 da tarde, ou trabalha part time ou apenas 4 dias por semana? 


De PGFV a 9 de Dezembro de 2009 às 17:53
Extremamente bem visto


De margarete a 9 de Dezembro de 2009 às 15:29
Não li todos os comentários do post anterior e o mais provável é que não acrescente nada à discussão, mas aqui vai a minha posta de pescada:

Tenho empregada doméstica. O meu objectivo inicial era de 8 horas semanais concentradas num só dia, a moça propôs-me que dividíssemos por 2x 4h e a solução saiu-me bem melhor. Por um lado, não tenho de lhe pagar almoço (só para ser picuinhas, pq não seria por aí que o “gato iria às filhoses”) e por outro lado, sendo que faz 2 visitas a casa na semana, e embora 1 dos dias seja destinado a engomar, ela dá-me sp “um jeito” ao quarto, cozinha e a qq coisa fora de sítio.
Ela não se queixa da sua qualidade de vida que me parece bem simpática. Foi empregada de uma ourivesaria durante 26 anos que fechou, diz que gostava muito do local/ambiente de trabalho mas que prefere a vida que tem actualmente. Trabalha só as manhãs, sobram-lhe as tardes para cuidar da sua casa e tem tempo para o quintal (que diz ter sido sp a sua fantasia). Tem sempre tempo para ir ao médico ou a repartições e está cedo em casa sem ter de fazer as tarefas domésticas à noite ficando livre para a família. Compensando-lhe quanto à anterior relação ordenado-horário.

Nasci num país onde se tiram os sapatos à porta porque… neva! O hábito de tirar os sapatos à porta não surge por puro asseio. A neve é suja e lamacenta, seria - no mínimo - ridículo entrar numa casa com calçado vindo da neve. Nós abrimos janelas, os nórdicos fecham-se mais (alguns podem não ter cortinas a “encerrar” a casa mas não arejam). Prefiro as nossas casas com mais pó do que uma casa nórdica de ar artificial. Don’t get me wrong, o meu comentário não surge de preconceito, até porque sei que adoram o sol e etc, mas vivem à base de ar condicionado. E repare-se na quantidade de máquinas que têm ao seu dispor (nós tb já temos eu sei, mas é ainda diferente), não se vê um estendal, por ex. A situação do engomar é um facto, e eu acho mm que exageramos. Mas quanto ao resto, nós sujamos mais a cozinha por ex, (ainda) não compramos os legumes todos cortados/descascados/lavados nem cozinhamos maioritariamente alimento pré-preparados, sujamos menos o fogão, fazemos mais vapor gordurento (soa mal, eu sei, mas é a verdade).


De margarete a 9 de Dezembro de 2009 às 15:30
Se eu poderia fazer o meu trabalho doméstico? Sim, e bem feito. Mas não me apetece sacrificar o tempo que uso para, por ex, estar na net. E se formos a falar mais (mesmo) a sério, sp que me vi sem empregada doméstica andei mais stressada, pq a divisão do tempo tinha de ser mais bem feita, pq ao invés de pensar em ler um artigo ou orientar algo do (meu) trabalho tinha de encaixar tb a preocupação com a casa.
Concerteza que nos sobram tarefas domésticas, algumas mais fixas consoante o que calha fazer/saber melhor, outras com um “executante” aleatório (faz quem chega 1º, quem vê 1º), mas há menos uma preocupação a ocupar-nos a mente e isso é priceless! Repito: é absolutamente priceless saber que vou chegar a casa e que posso simplesmente tirar as compras do saco e fazer a janta, e a seguir poder simplesmente optar por outra tarefa qq q não seja engomar e refilar.

Não vivo com qualquer angústia quanto à qualidade de vida da pessoa a quem pago e a realidade à minha volta é mais ou menos a mesma, embora me pareça que a situação nos grandes centros urbanos não seja tão simpática…
Nalguns países, é mm verdade que o “equilíbrio” dos ordenados médios limita a possibilidade de ter empregado doméstico, mas não esqueçamos ser tb uma questão cultural e de opções.
Sinceramente, não acho que sejamos menos asseados. Nem acho que sejamos uma cambada de preguiçosos, fazemos as nossas opções se, por isso, temos melhor qualidade de vida (num aspecto)… porque teríamos de nos admirar com esse facto? Nós temos melhor qld de vida em alguns aspectos do que outras culturas <- posso fazer esta afirmação.
Gosto mais da vida que tenho aqui em muitos aspectos, por ex, em muitos países, jamais se colocaria a hipótese de se ir tomar um café com os amigos durante a semana e isso far-me-ia sentir menos livre. Prefiro poder sair durante a semana a ter uma rua muito ordenada. Não sei se a contrapartida é sermos mais desorganizados, mas não gosto de acreditar nisso. Posso dizer que em comparação aos nórdicos, uma coisa com que não me consigo conformar cá do nosso Portugal é a falta de pontualidade e a terrível descontracção que vem associada à mesma. Acredito mesmo que nunca conseguirei relativizar essa questão e que sofrerei sempre de angústia e desilusão quanto a esse facto. E pronto, fico-me por aqui pois já me desviei da conversa…


De maloud a 9 de Dezembro de 2009 às 16:30
Isto é de doidos! Agora só quem trabalha tem direito a ter empregada doméstica, de preferência estrangeira e sem os 14 meses de ordenado. Não me lixem! A mim e à minha minhota.


De fernando antolin a 9 de Dezembro de 2009 às 17:36
Não estivesse Paulo Pedroso "do lado certo" e muita bordoada teria levado por causa deste assunto...


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