Ontem não houve jornal que não destacasse um relatório do ISEG, encomendado pela Comissão Europeia, sobre a eficiência das Universidades (aqui, em formato pdf). Alguns, como o i, certamente sem lerem o dito relatório, efabulavam sobre a ineficiência das escolas nacionais que, afirmavam sem corar, com a «enorme» quantidade de dinheiro que recebem do OE deviam ter produzido o triplo, em publicações científicas e em alunos formados.
Claro que, convenientemente, aqueles que se atiravam que nem gato a bofe ao Ensino Superior - sim, o estudo mete no mesmo saco Universidades e Politécnicos apesar de não se dar por isso no que foi escrito nos media - esqueceram, entre outras coisas, de mencionar a timeline do estudo, de 1998 a 2005. Ou antes, parece que quem noticiou o relatório, curiosamente publicado em Novembro mas só agora, que se discute o Orçamento de Estado, elevado a glórias de primeira página, não se deu ao trabalho de o ler e se entreteve cherry picking alguns dados de tabelas sem perceber o que estes significam nem como foram calculados.
Ouçam pois o António, o presidente do Técnico, explicar algumas coisas. É algo a que voltarei certamente este fim-de-semana, com tempo, mas para já gostaria de enfatizar algo que é dito na entrevista, por exemplo que uma das escolas europeias mais prestigiadas, a EPFL, que escolho porque tem indicadores, como o número de artigos científicos por docente, comparáveis aos do Técnico, tem metade dos alunos e um orçamento estatal que é cerca de 7.5 vezes maior que o nosso (recebem do estado suiço cerca de 370 milhões de euros, o Técnico recebe, números redondos, 50 milhões).
Nem e ciência nem de coisa nenhuma. Dos assuntos que domino profissionalmente, 8 em cada 10 peças revela uma ignorância de fazer corar qualquer profissional minimamente diligente. Se se passa o mesmo nas outras áreas, o panorama é negro. Discute-se muito a influência d partidos, pessoas e agentes económicos no jornalismo. Acho que também se devia discutir a (falta de) formação dos jornalistas.
...mas isso do jornalismo não é andar à jorna? Trabalhar para um determinado patrão? Fazer de Zagalo? Servir de testa de arre-macho para enganar velhinhas à hora dos telejornais? ..olha o que eu andava enganado!
É interessante acordar e deparar-me com um post sobre o Ensino Superior: como aluno´há temas pouco falados que me preocupam e que nunca são abordados.
Vou vos relatar três casos para tentar expor como algumas faculdades funcionam mal no nosso país, com as devidas implicações negativas na vida dos alunos, todos ocorridos na mesma faculdade.
Caso 1: o F. entrou no curso de Medicina como licenciado em outro curso da área da saúde, e tinha direito a várias equivalências. No entanto, só pode pedir as equivalências às cadeiras no ano lectivo em que essas cadeiras estavam no currículo. Esteve vários meses há espera de resposta (num caso, 1 ano inteiro) e acabou sempre por ter de ir a exame. Se tivesse obtido as equivalências logo nas semanas seguintes à inscrição no curso, e se a faculdade tivesse permitido que fizesse as cadeiras dos anos seguintes para ocupar o espaço libertado pelas cadeiras às quais tivesse obtido equivalência, poderia ter concluído o curso em 4 ou 5 anos, em vez de 6. O F. vinha de uma família com dificuldades económicos e teria sido óptimo para ele se pudesse ter feito o curso em menos tempo, uma vez que devido aos péssimos horários da faculdade teve de desistir do emprego.
Caso 2: no mesmo curso, na mesma faculdade, há um conjunto de cadeiras que por tradição têm taxas de reprovação que oscilam entre os 40 e os 70 %. Pertencem todas ao mesmo departamento. Assim, graças às tais cadeiras, só no anterior ano lectivo reprovaram de ano mais de 70 caloiros. Caloiros esses que entraram na faculdade com mais de 18, 5 de secundário. Ora aos caloiros não foi permitida pela direcção da faculdade a inscrição em cadeiras do ano seguinte, como permitem as regras do Senado da Universidade. Assim, esses alunos que poderiam fazer o curso em seis anos, ficam sete, e quem sabe, oito.
Caso 3: a J. tinha cadeiras em atraso do departamento que referi no caso anterior. Devido a um erro de secretaria, não foi lançada a sua nota a uma cadeira ao qual tinha obtido aprovação e reprovou. Ficou impedida de se increver em todas as cadeiras do ano seguinte e apresentou queixa, em Setembro. Ainda não obteve resposta, e está em risco de ficar mais um ano na faculdade.
Há professores universitários que mantém métodos obsoletos e salazaristas, e devido a isso reprova-se e muito nas nossas faculdades. É estranho que haja alunos com boas notas a várias cadeiras que depois estão reprovados a cadeiras que apresentam taxas de reprovação superiores a 50%. Um dos meus professores é um reputado nome da ciência em Portugal que tem se debatido contra estes métodos em vão.
Por que razão um aluno reprovado não pode fazer cadeiras do ano seguinte e terminar o curso no tempo previsto?
Por que razão um bom aluno não pode fazer o curso mais rapidamente?
Por que razão ninguém avalia o desempenho de docentes no Ensino Superior?
(Nota: este post veio a propósito de se ter referido que um dos problemas no nosso ensino superior era o elevado tempo que os alunos dispendiam para terminar os cursos, isto quando não desistiam).
PS: dizem as más línguas que a muitos professores interessa ter alunos reprovados para terem direito a mais assistentes no respectivo departamento; dizem as más línguas que às faculdades interessa ter alunos reprovados para receberem mais dinheiro; dizem as más línguas que muitos professores do Ensino Superior não fazem avaliação por exames nem organizam materiais de apoio para «não terem trabalho».
Como é óbvio não sei o que se passa noutras Escolas mas sei o que se passa no Técnico, e, curiosamente, ainda no outro dia discutíamos como acelerar o que descreve no Ponto 1, as equivalências, ou antes, como acelerar os 10% dos ~ mil pedidos anuais que temos que não se resolvem nos cerca de 15 dias que demoram os outros.
Em relação ao ponto 2, todas as cadeiras são avaliadas, os alunos respondem a inquéritos de qualidade pedagógica, há controle das reprovações em todas as cadeiras e há inquéritos a todas as que não cumpram os critérios de qualidade, ou seja, apresentam maus resultados nos inquéritos aos alunos ou tenham taxas de reprovação elevadas.
Ponto 3 - há prazos estritos para o lançamento de notas, finais de Julho, o dia varia consoante o final da época de avaliações, os docentes que não lançarem as notas dentro dos prazos são chamados para corrigir a situação muito antes do início das inscrições.
Ah, dentro em breve, em finais de Março se não me engano, todos os professores do ES vão ter mesmo de ser avaliados.
Mas é curioso que mencione Medicina, a minha filha mais nova entrou em Medicina em Santa Maria, também com outro curso superior, mas entrou via acesso normal, isto é, repetiu os exames do 12º. Pediu equivalêncas a algumas disciplinas, ela é bióloga e já tinha feito algumas das cadeiras do 1º ano, e, embora tenha demorado algum tempo - pelo que percebi devido à restruturação do curso - só num dos módulos soube um bocadinho em cima da hora que não tinha equivalência.
O que fazemos no Técnico em casos semelhantes, ou em casos de reingressos, os casos mais complicados com as restruturações de Bolonha, é um plano de curso.
Falava da Fac. de Medicina do Porto. Aqui não haverá mais de 40 a 50 alunos a pedir equivalências todos os anos, que ano após ano vêm com frequência das mesmas faculdades e dos mesmos cursos (medicina dentária, c. farmacêuticas, c. da nutrição, etc), pelo que é estranho que as equivalências demorem tanto tempo quando há outras faculdades que dão uma resposta em poucas semanas.