Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009
Rogério da Costa Pereira

O homem-garnisé é dono da verdade absoluta, aquela de que todos os outros foram despojados aquando de um infeliz episódio com uma serpente e uma maçã. Total nas convicções - feitas de infâmias, cobardia e despeito –, o homem-garnisé deita as cartas de forma imponente, vai sempre a jogo, ainda que não lhe conheça as regras. Paradoxalmente, só assim age (só assim é) fora do seu habitat natural. Neste, uma singular salinha com uma cadeirinha virada para um espelho, o homem-garnisé aceita-se como é.

Quando vai à procura de alimento e se afasta do espelho, o homem-garnisé transfigura-se. Não quer voltar ao assento redutor. Esquece-se da imagem pouca que o espelho lhe revela e confia no tamanho e na perpetuidade da sombra que o sol mentiroso lhe revela.

Fora da salinha, o homem-garnisé vende-se por menos de trinta moedas. Quando alguém não repara nele e se coloca entre si e aquele sol enganador, que o faz ver-se tão grande, sai-se com ameaços entredentes disto e daquilo. Nunca esquece. Morde pela calada, mas quer fazer de conta que tem tomates. Planta opinião como quem ateia as chamas dum auto de fé.

Sempre com fome, o homem-garnisé é todo um sistema judicial. Na toca onde guarda os alimentos, o homem-garnisé faz teatros de marionetes digitais em que os dedos do pirete são os juízes. Como é ventríloquo manhoso, o homem-garnisé lança as vozes que quer aos deditos que manipula. No fim, com voz bebida, põe na boca do juiz as palavras que quer: “culpados! sois todos culpados!”

O homem-garnisé faz músicas de uma nota só. E, tomando-nos por iguais, quer-nos pôr a dançar.

Quando encontra quem o alimente longe daquele maldito espelho que o minimiza, o homem-garnisé afeiçoa-se. Deixa-se haver. Aceita ser a voz do dono que lhe dá ração longe daquele retrato fiel. O dono do homem-garnisé, note-se, raras vezes não é também ele um homem-garnisé. E por aí adiante. Ou por aí atrás, se quisermos ser mais precisos.

O homem-garnisé tem de provar que é corajoso - só assim lhe dão que comer - e para isso faz-nos uma sopa da pedra, aceitando por bons os ingredientes podres que lhe dão. E depois diz: comam-comam, foi o meu dono que mandou e eu garanto que é de primeira qualidade.

E há quem coma e lamba os beiços, gulosos de putrefacção. E pede para repetir, que está muito boa. São outros homens-garnisés. E o homem-garnisé incha de flato. Fica quase do tamanho da sombra que o engana.

O homem-garnisé está agora enorme. Leva imensa gente à toca que arranjou longe da salinha com a cadeirinha virada para o espelho. E aplaude. E aplaudem-no. E aplaudem-se uns aos outros. Homens-garnisés, todos. Levam cromos para trocar. Mais ingredientes podres para as sopas, meias-histórias, coisas de vão de escada. Contam, como se lhes houvessem sido dirigidos, piropos ouvidos de passagem. Ali, na toca sem reflexos, decidem o que o homem-garnisé há-de opinar - entre irmãos de desgraça. E bichanam, para que ninguém os ouça. Têm esse cuidado. Tem esse cuidado. Escusa de tramar tão baixinho, o homem-garnisé, que já todos o conhecem. Já todos sabem o que dali vem – o que dali não vem. E ele sabe disso e é precisamente isso que não o deixa crescer (esta parte ele não sabe).

Quando acasala, o homem-garnisé fá-lo com os da sua igualha, para que dali não saia mula ou macho. E nisto tem facilidades, que um homem-garnisé reconhece outro ao primeiro olhar. Andam ao mesmo, por sombras, e encontram-se muitas vezes nas tais tocas sem espelhos. E amam-se e depois odeiam-se.

Entre a salinha reveladora e o sol enganador, o homem-garnisé já escolheu. Escolheu ser pequenino. Não o pisem.

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18 comentários:
De JPS a 15 de Dezembro de 2009 às 20:10
Estamos, metaforicamente, a falar do primeiro-ministro de Portugal?


De Irene Pimentel a 15 de Dezembro de 2009 às 20:22
De antologia. Excelente, Rogério.


De Rogério da Costa Pereira a 15 de Dezembro de 2009 às 22:16
Irene, bondade tua.

(aqui entre nós, este post tem uma armadilha: um espelho escondido. Já houve quem desse por isso, aí mais para baixo)


De Anónimo a 15 de Dezembro de 2009 às 20:36
um auto-retrato comovente.


De dg a 15 de Dezembro de 2009 às 20:36

Pelágio do Eça...
Alegoria... mas de quê, sobre quê?


De António Parente a 15 de Dezembro de 2009 às 20:57
Grande texto. Temos aqui um excelente escritor a sair do armário.


De Rogério da Costa Pereira a 15 de Dezembro de 2009 às 22:12
Nada disso, António. Então não vê o que diz o comentador anterior? Um pelágio.
 


De António Parente a 15 de Dezembro de 2009 às 23:07
Mostre que conhece bem o Eça e dê-lhe umas bengaladas quando o apanhar no Chiado.


De f. a 15 de Dezembro de 2009 às 21:32
tive um casalinho de galinhos cocós quando era miúda. nunca vi nada mais cómico, eheh


De Rogério da Costa Pereira a 15 de Dezembro de 2009 às 22:03
é, são giros. Também já andam alguns por aqui. Uns queridos, e nada previsíveis.


De Ana Matos Pires a 15 de Dezembro de 2009 às 22:12
Nadica.


De Bravo a 15 de Dezembro de 2009 às 22:17
inspirado! para quando uma merecida coluna no DN?


De António Parente a 15 de Dezembro de 2009 às 23:06
O DN não merece um prosador como o Rogério. Só o i.


De irmã aligoria e irmã metáfura a 15 de Dezembro de 2009 às 22:30
suponho que para db um "pelágio" vem a ser um plágio com muito pelame


De Nuno Gaspar a 16 de Dezembro de 2009 às 00:03
Está a falar de quê, Rogério?


De Rogério da Costa Pereira a 16 de Dezembro de 2009 às 00:07
Então, Nuno? De homens-garnisés. Se não percebeu é certo que não é um e conhece poucos. Bom sinal.


De fernando antolin a 16 de Dezembro de 2009 às 17:19
Andam todos muito susceptíveis e nervosinhos. E que diabo, não há igrejas que se ergam sobre pedras tão pequenitas...


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