Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010
fui ver o filme no sábado. estive à procura do trailer para colocar aqui mas decidi não o fazer por duas razões: a música estraga tudo e a identificação dos actores estragaria o post.
li o livro há muito, quando saiu, e gostei muito. gosto muito de cormac mccarthy e li praticamente tudo o que escreveu, à excepção do primeiro livro -- the orchard keeper -- porque mo roubaram há anos e só recentemente consegui outro (estava esgotado, segundo me disseram na fnac, onde o encomendei). the road está entre os melhores, mesmo se ao contrário do que sucede com a maioria tem um final relativamente feliz. creio que apesar do seu portentoso talento para a crueldade cormac não teve coragem de deixar o miúdo que é o alter ego do filho só no meio do horror, como costuma fazer com os seus personagens.
a escrita totalmente cinematográfica de cormac, tanto nas descrições como nos diálogos, faz fazer um filme a partir de um livro seu aparentemente fácil. no country for old men foi um bom filme e a estrada também é. mas para quem leu os livros são uma espécie de ilustração -- nada está à altura.
no caso da estrada, 20 valores para viggo mortensen e para a cor e o ambiente e a forma como a acção se desenrola, em permanente perplexidade, resignação e tenacidade (sim, resignação e tenacidade, é possível -- chama-se estoicismo). mas a coisa que mais retenho é o facto de, à excepção de viggo, imediatamente identificável apesar da magreza, alguns actores estarem tão irreconhecíveis que levei minutos a ver robert duvall (na verdade, a suspeitar que era ele -- só tive a certeza no genérico) e guy pearce passou-me completamente ao lado. num mundo em que o que está em causa é conseguir manter alguma coisa de familiar, de comunidade (que é o mesmo que dizer de amor), é justo que tenhamos de fazer um esforço para reconhecer o que conhecemos. que corramos o risco de nos enganarmos completamente -- para um lado ou para outro. não muito diferente afinal esta estrada da nossa: tudo depende de sermos capazes de continuar a ser the good guys e de conseguirmos perceber quem o é. e sobreviver aos enganos.
De
/me a 12 de Janeiro de 2010 às 10:33
Pessoalmente não gostei nada do final do filme. Pareceu-me caído do céu, sem plausibilidade nenhuma.
De
f. a 12 de Janeiro de 2010 às 11:55
o final do filme é o final do livro. um acto de misericórdia de cormac. os leitores dele aguentam um final feliz ao fim de tantos horripilantes.
«não muito diferente afinal esta estrada da nossa: tudo depende de sermos capazes de continuar a ser the good guys e de conseguirmos perceber quem o é. e sobreviver aos enganos. »
Que é, afinal, o mais difícil. Até porque o mundo não se divide em 'good guys' e 'bad guys' - só seria assim se vivêssemos num mundo a preto e branco, o que, feliz ou infelizmente, não acontece.
De
f. a 12 de Janeiro de 2010 às 12:38
mto diferente saber q é preciso distinguir os good guys d viver num mundo a preto e branco, carlos. se calhar tem de sair da espuma para ver esta.
Eu não discordei de si, Fernanda; apenas constatei que nem sempre - quase nunca? - é fácil fazê-lo. O 'mundo a preto e branco' foi uma forma de dizer que, sendo certo que existem, pessoas 'absolutamente' boas e pessoas 'absolutamente más' são a excepção - pelo menos, assim quero crer. A maioria de nós é capaz de, em diferentes circunstâncias, e às vezes até em simultâneo, praticar o bem e o mal - e fá-lo. Mas, claro, existem diferentes graduações. Sintetizando: está a ver a letra da canção 'Infinito Particular' (http://letras.terra.com.br/marisa-monte/515189/), da Marisa Monte? Embora canção esteja mais direccionada para a relação amorosa, 'mutatis mutandis' é mais ou menos aquilo.
Já agora: o que quis dizer com «se calhar tem de sair da espuma para ver esta»? Desconheço a expressão.
Quer dizer: ocorre-me 'A Espuma dos Dias', do Vian, mas neste contexto... Em todo o caso, ignore a minha questão, sff - fica para eu, quando tiver tempo, meditar.
De
f. a 12 de Janeiro de 2010 às 16:37
carlos, s fosse fácil distinguir os good guys ou, na metáfora do filme, os que transportam o fogo no coração, o post -- e o livro, e o filme -- não faria sentido. flei da espuma porq m pareceu q estava a fazer uma interpretação muito limitada da ideia de 'good guys'. eu estava, desculpe a grandiloquência, a falar d alma -- o tal fogo. um bocadinho mais fundo -- ou acima -- digamos, q a ideia d um universo a preto e branco.
Sim, Fernanda, o que escrevi é evidente. Ainda assim, há quem ache fácil distingui-los - ou, voltando à minha expressão, que o mundo é 'a preto e branco' -; daí o meu comentário. Nada há a desculpar naquilo que auto-denomina por grandiloquência: nada tenho contra a utilização da expressão 'alma' e não a reduzo ao sentido que vulgarmente (leia-se: religiosamente) lhe atribuem; acho até que, neste caso, é muito bem empregue. A minha interpretação de 'good guys' não era limitada (não, não estava a pensar em politiquices e afins); apenas, digamos, não tenho a sua capacidade expressiva.
De
f. a 12 de Janeiro de 2010 às 18:12
bom, estamos entendidos, então.
De
Hugo a 12 de Janeiro de 2010 às 12:38
Também sou fã de Cormac Mccarthy, e já há algum tempo. Li seis dos sete romances que estão editados em português (falta-me a mais recente edição portuguesa, "Suttree"), todos eles escritos de forma irrepreensível e sempre desafiante para o leitor. Só é pena que o imaginário dos seus livros seja quase sempre o mesmo -vagabundos, a América profunda e violenta - o que "cansa" um pouco... Mas a sua escrita é irresistível. O meu favorito talvez seja mesmo "A Estrada" (também por fugir um pouco ao tal imaginário, sendo uma distopia futurista), daí estar um pouco reticente em ver o filme, isto mesmo depois da adaptação de "No Country for Old Men" ter corrido muito bem. Mas aí era dos irmãos Coen que se tratava e, pelo menos para mim, isso fazia a diferença...
Curiosamente, esse "The Orchard Keeper" ("O Guarda do Pomar") é, talvez, o livro dele que menos apreciei. Ainda assim vale a pena, como qualquer outro livro dele.
Enfim, com o seu post talvez me convença a ir ao cinema.
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