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a luta continua... ou não

a 8 de março de 2005, fiz um dossier no dn sobre feminismo. 4 anos depois, e a propósito dos 35 sobre a manif feminista do parque eduardo vii, republico aqui os dois principais textos por considerar que a reflexão das entrevistadas mantém toda a actualidade.

 


 

 

 

A luta continua... ou não

 


“Às vezes ainda me perguntam: porque é que a senhora se mete nessas coisas?” Leonor Beleza solta uma gargalhada fresca, de quem há muito descobriu no humor a melhor forma de enfrentar a opacidade do mundo. Mesmo quando o panorama é, diz, “do foro do escândalo”. Refere-se “à ausência das mulheres nos lugares de decisão”, visível tanto no parlamento, do qual foi até há pouco vice-presidente, como nos governos, de que o socialista XVII é paradigma. Uma ausência que é um símbolo para o resto, como é símbolo a indiferença com que parece ser recebida.“Acho que já era tempo que as pessoas percebessem que não é razoável sermos representados de forma tão desproporcionada.”

Mas o que parece fazer as vezes de razoabilidade, admite, é a ideia de que o feminismo, entendido na sua acepção mais abrangente como a luta pela igualdade de género, contra os papéis esteriotipados atribuídos aos sexos, é “coisa do passado”, algo olhado com desconfiança, perplexidade ou, nas mais das vezes, mofa. As feministas são vistas, precisamente, como mulheres “irrazoáveis”, “com problemas”, “frustradas”, a quem falta “qualquer coisa” – “um homem”, como refere, a fazer coro com o riso de Beleza, a escritora e jornalista Maria Teresa Horta, que frisa ser o ridículo a arma mais usada contra esta luta. Há até a ideia, comenta, de que “o feminismo é uma batalha contra os homens”.

 

quotas ou mérito? Certo é que, de certo modo, se trata disso mesmo. Afinal, frisa Beleza, uma das grandes questões da representatividade das mulheres na política – e não só – é que “para elas entrarem alguém tem de sair. E quem está não quer dar o lugar.”Ou seja: quem tem os privilégios não os quer ceder – é que não é bem a mesma coisa que dar a dianteira às senhoras quando se avizinha uma porta .

Defensora das quotas como mecanismo “temporário de rectificação”, a actual presidente da Fundação Champalimaud, um dos nomes grados do PSD em falta nas listas de deputados para as últimas eleições, lamenta a exiguidade feminina na bancada do seu partido. Mas se o PS instaurou quotas e tem mais deputadas, vê no PSD mais facilidade em pôr mulheres a governar, “e em pastas fulcrais, como as Finanças”. Como se fosse preciso escolher: quotas ou lugares por mérito?

Pergunta envenenada mas implícita na declaração de José Sócrates após apresentar o elenco governativo ao presidente: havia escolhido, disse, “os mais competentes, mais capazes e mais motivados”. Criando assim nas socialistas um burburinho de indignação mais ou menos contida, de que a deputada do PS e ex-ministra da Igualdade Maria de Belém faz eco, mesmo se começa por apontar como “sinal positivo” o facto de se ter começado a contabilizar o número de mulheres nos governos. “É evidente que gostaria que houvesse mais mulheres. Isso foi oportunamente transmitido por mim e outras pessoas ao agora primeiro-ministro. Que reconhece que ele próprio gostaria de ter mais mulheres no governo.”

Como quem diz: não havia. Competência, capacidade, motivação... no feminino. Verdade ou mentira? Afinal, essa é outra das questões inevitáveis nesta discussão. Porque é que há tantas mulheres nas universidades, mais que homens em grande parte dos cursos, e depois rareiam nos topos das carreiras? O que é que as trava?

“Não há mais mulheres nos lugares de notoriedade porque têm sempre mais dificuldade em lá chegar. Seja em que sector for. Porque é muito recente o reconhecimento profissional que se faz delas – são ainda vistas com desconfiança por causa da maternidade. Mas também porque têm mais dificuldade em conciliar a vida profissional e a familiar”. É a análise de Maria de Belém, que releva o facto de o problema estar longe de constituir originalidade nacional. “Acontece assim em todo o mundo, mas mais nuns sítios que noutros. Menos nos países mais desenvolvidos.”

Países como os nórdicos, que o actual primeiro-ministro apresenta como modelo, mas também como a Espanha, onde Jose Luis Zapatero se afirma feminista e fez um governo dividido ao meio. O que para algumas feministas não será necessariamente o lugar da virtude. Caso da socióloga Maria Filomena Mónica, que se afirma contra as quotas, “porque menorizam”, e só tem uma receita: “numa fase intermédia, as mulheres têm que ser duas vezes melhores para chegar ao mesmo sítio”.

Uma forma voluntarista de equilibrar a balança, que Manuela Tavares, da União de Mulheres Alternativa e Resposta aproxima do feminismo liberal, o que privilegia o individualismo e diz que “as condições” estão todas criadas. Mas a própria Filomena Mónica escrevia há dias, na coluna que assina no Público, que ser melhor é condição banal e necessária para existir enquanto mulher, sobretudo se for mãe (que, indigna-se a socióloga, é algo quase compulsivo, já que “quem não quer ter filhos é olhada como anormal”): “Tem de ser boa no emprego, boa mãe, boa na cama, ter bom aspecto, boa conversa... Ninguém consegue ser bom em tudo isso ao mesmo tempo.” Uma multiplicidade de papéis “acrescentados” aos ditos tradicionais de fiel esposa e mãe extremíssima por isso a que se dá o nome de emancipação da mulher.

 

culpa de quê? “Uma conquista muito suada, mas que veio envenenada”, nas palavras da jornalista Paula Moura Pinheiro, outra confessa feminista (porque, como ironiza a escritora e também jornalista Inês Pedrosa, o feminismo “confessa-se”ou“ousa-se”).Uma conquista que ao seu cortejo de exigências – sem retorno do outro lado, já que os homens, sublinha Mónica, continuam a arrastar os pés” – faz corresponder outras tantas culpabilidades.

Contra as quais a escritora e jornalista Helena Matos assesta baterias. “Todas as transformações sociais, tudo o que sucede à família é assacado às mulheres. De cada vez que se fala de problemas relacionados com o casamento, os jovens, os velhos, lá vem a conversa da ‘saída das mulheres de casa’. E eu pergunto: quando é que isso aconteceu? As mulheres sempre trabalharam imenso fora de casa. As criadas, as camponesas, e depois as operárias também tinham filhos, dos quais não tinham tempo para cuidar. Quem ficava em casa eram as mulheres ricas.” O caminho é então, para Matos, recusar a ideia da “perfeição” que as próprias mulheres se exigem. O que é dizer que, nos países ditos desenvolvidos, as grandes batalhas da guerra pela igualdade se transferiram para dentro: dos corpos, dos olhares, dos sentimentos. Leonor Beleza, que no pós-25 de Abril fez parte do processo “de fora”, o de endireitar a lei, certifica que esta fase é mais árdua. “Porque vai ao osso das relações entre homens e mulheres. Quando havia discriminação legal, as raparigas não tinham acesso à educação, a taxa de emprego feminino era baixa, era fácil saber o que era preciso fazer.”

 

o sonho e a fúria. Mesmo Maria Teresa Horta, que levou, nos idos de setenta, “uma tareia de três homens por causa das coisas que dizia e dos livros que escrevia” assume o paradoxo de ter sido mais fácil ser feminista nesses tempos cuja esperança é, “vista do futuro, comovente”. “Depois”, diz a poetisa, “passámos a lidar com o nosso sonho. Que se transformou numa realidade muito dura.”

Beleza concorda. O hoje sabe a “desconsolo”. Porque “as coisas não mudam, e não só não mudam como pioram”. Sem negar o que “se adquiriu”, a maioria das feministas portuguesas fala de “retrocesso”. E questionam-se sobre o o estigma que as cerca e que Manuela Tavares, na sua tese de doutoramento sobre os feminismos da segunda metade do século xx em Portugal, está a investigar. “Fiz 800 inquéritos no secundário sobre o que é o feminismo. Pergunto se é uma luta pelos direitos das mulheres; contra os homens; pelos direitos humanos; ultrapassada”.

O feminismo visto como “coisa antiga”, “sem sentido”, é uma perspectiva tanto mais curiosa quanto, de acordo com a maioria das feministas, aqui não terá sequer existido como movimento. “Passámos do pré-feminismo para o pós, sem termos o dito”, diz Moura Pinheiro, a encontrar o busílis no défice de literacia, pensamento – “em suma, de civilização” – que diagnostica ao país.“Ser civilizado é a conquista progressiva do direito a ser, a não ter de corresponder a categorias comportamentais pré-definidas”

O feminismo como luta pela liberdade: é também assim que o vê Anabela Rocha, ex-vice presidente da Opus Gay, que nele inclui também o combate dos homossexuais, dos transsexuais, de todos os que desafiam os esteriótipos de género. Uma luta na qual, revela um estudo recente de Ana Vicente (académica que presidiu à Comissão da Igualdade entre 1992 e 96), as mulheres têm de combater as mulheres: “Elas contribuem para este estado de coisas, claro. Nas exigências que não fazem, na educação diferenciada que dão aos filhos...”

Benvida(o)s à responsabilidade, pois. E à encruzilhada de Paula Moura Pinheiro: “Era preciso fazer alguma coisa com esta fúria. Mas o quê?”

 

 

 

 

 

“Só queremos direitos iguais”

 

“Sou mais ou menos feminista. Pode dizer-se que sou intermédia. Acho que não devemos puxar para um lado nem para o outro, para ninguém ficar prejudicado”.

À beira rio com três amigas a celebrar o aniversário num piquenique, é à sombra da gesta masculina do Padrão dos Descobrimentos que Sofia, sem dúvidas quanto ao facto de “haver ainda muita discriminação, muito machismo”, hesita sobre o significado deste termo, feminismo. “Nunca pensei assim muito sobre isso... Mas a ideia com que fico, se calhar por causa das manifs e assim, é que se trata da predominância da mulher. Se calhar na teoria não é...”

Os agora completados 14 anos não lhe dão recuo para o tempo em que a palavra se atravessava entre as mulheres e leis como as que as impediam de aceder a uma série de profissões ou de sair do país sem autorização do marido. “Isso é o submundo, a pré-história! Associo essas coisas aos países asiáticos... A minha geração não tem noção de que essas coisas aconteceram há tão pouco tempo.”

Coisas de que nunca lhe falaram na escola, mesmo se “há uma disciplina para esse tipo de matérias, Educação Cívica”. Maria, de 15 anos, confirma. “Toda a gente tem a ideia de que o feminismo é uma luta para as mulheres terem vantagem”. Diferente, pois, daquela que a Maria, como as outras, subscreve: “Só queremos direitos iguais”. Aqueles que, avança Sofia, faltam “no mundo do trabalho, onde a mulher ainda continua a receber menos que o homem. E na divisão de tarefas: as mulheres continuam a fazer tudo em casa, não se evoluiu.”

A mais velha do grupo, Ana, 19 anos, pega-lhe nas palavras. “A desigualdade começa com as coisas mais básicas. Publicidade, telenovelas, coisas que toda a gente vê, e acaba nos maus tratos e na discriminação no trabalho.” Ou na representação política: “A lista do governo é um bocadinho perturbadora. Foi uma desilusão, sobretudo por se tratar de um partido de esquerda.”

Mas Ana, a única do grupo a dizer-se feminista, “sem extremismos”, vê o problema muito mais perto. “Na nossa idade são muitos os casos em que os rapazes não admitem que as namoradas tenham vida própria. Têm uma atitude obsessiva-compulsiva de ciúmes, absolutamente controladora. ” E, certifica Maria, “há imensas raparigas que se submetem e na maior parte das vezes nem reparam que estão a ser rebaixadas.”

Porquê? Ana abana a cabeça. “Não sei. “Atitudes e cabeças feitas em casa, pelo exemplo dos pais, talvez”. Mas também, arrisca, “pelo peso que alguns preceitos religiosos ainda têm”. Sofia soma agravos: “Ainda no outro dia falámos sobre outra coisa, que é continuar a haver o conceito de que a rapariga que tem muitos namorados é uma puta, o rapaz é um machão, é óptimo... E há muitas raparigas que acham isso.”

Distinções e diferenças que Joana, de 18 anos, reputa de “ridículas”, condenadas à extinção.“As mulheres sentem cada vez mais liberdade para estar com vários homens.” Conquistas árduas que se travam, diz Maria, “nas relações do dia a dia”. E exemplifica: “Se sentisse que estava a ser controlada acabava com a relação, mesmo gostando muito da pessoa. Não é fácil, estão os sentimentos em causa, mas tem de ser. Não vale a pena esperar que eles mudem – é por isso que há tantas mulheres maltratadas.”

Deste lado da vida, as quatro riscam fronteiras. “Se tiver filhos, o homem que eu escolher tem de ser mesmo capaz de assumir a responsabilidade comigo, senão não faz sentido”, garante Joana. E Ana conclui: “As pessoas têm de tomar consciência de que há limites.”


 

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