Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

A liberdade de consciência é a minha pérola. É a minha liberdade "preferida". Quem leu um livro que se chama "A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer", do Stig Dagerman, lembra-se, como eu, do final esplendoroso daquelas poucas páginas, em que o Autor concluía que a única liberdade que é impossível de ferir é, precisamente, a liberdade de consciência. Isto, na perspectiva do silêncio.

Quem, em boa verdade, pode esfaquear as minhas convicções? Podem forçar-me a dizer o que não quero, torturarem-me ao ponto de confessar o que não fiz, mas quem, quem pode roubar-me a intimidade de uma convicção, de uma norma pessoal?

Impossível.

Por isso mesmo, em termos constitucionais, esta liberdade tão bonita abrange o tal espaço íntimo de formação das nossas convicções, mas também um outro aspecto a que Dagerman não se referia, a exteriorização da nossa decisão de consciência, por exemplo pintando um quadro, por exemplo escrevendo um texto, por exemplo compondo uma música. Depois, é-nos garantida a liberdade de agir segundo a nossa consciência, por acção, ou por omissão.

Esta liberdade não tem restrições constitucionalmente previstas. É uma das liberdades que não pode ser suspensa nem sequer em estado de sítio ou em estado de emergência.  Isto é muito sério. Qualquer tarefa de ponderação entre bens conflituantes exige as máximas cautelas.

Mas regresso a Dagerman e à sua convicção de que é impossível faca alguma ferir a liberdade de consciência. A afirmação é correcta se a agressão à mesma não passar por métodos caros a certos regimes, os quais, precisamente, inutilizam a capacidade de se ter uma consciência.

Às vezes leio por aí uns textos e lembro-me de doutrinação, de lavagens ao cérebro e de hipnoses.


12 comentários:
De Pinto a 18 de Janeiro de 2010 às 17:15
Lindo. Muito lindo este post.

Agora não exprima a sua opinião neste blogue acerca das aulas de educação cívica e educação sexual (traduzindo: as aulas de religião e moral do Estado). Os seus (e suas) colegas ficariam com enjoos matinais, passavam-se big big time, etc. etc. etc.

A menos que contradiga aquilo que acabou de escrever. É sempre uma alternativa.


De Hélder António a 18 de Janeiro de 2010 às 17:52
Olá, Isabel.

«(...) pois só existe uma consolação verdadeiramente real: a que me diz que sou um homem livre, um indivíduo inviolável, ser soberano no interior dos seus limites.»

http://periodiccircumspection.blogspot.com/2009/10/notre-besoin-de-dagerman-rimbaud-beau.html


De Guilherme Pereira a 18 de Janeiro de 2010 às 19:05
Conheço o livro porque o tenho.
Registo, todavia, este texto.
Notável.
Bem esgalhado.
Subscrevo.


De Irene Pimentel a 18 de Janeiro de 2010 às 19:46

Isabel


Hannah Arendt, por muitos criticada e por outros citada, tem uma caracterização que a mim me diz muito, do que é um regime totalitário, por contraposição a um regime autoritário, ditatorial, tirânico. Citando de cor, o que ela basicamente diz é que numa ditadura não totalitária, os indivíduos são atirados para o «isolamento», referente à esfera política, enquanto no totalitarismo, eles seriam atirados para a «desolação», que remete para a esfera das relações humanas, sociais e privadas. Nesse sentido, no totalitarismo, até a liberdade de consciência mais íntima não existiria. Por exemplo: aqui há anos vi um filme húngaro sobre a revolta na Hungria contra o estalinismo e há uma cena em que duas mulheres, presas políticas “conversam”, na sua cela. Uma delas diz que está presa por discordar politicamente do regime e está revoltada, enquanto outra diz que está presa porque infringiu a linha do Partido Comunista, e muito bem presa, segundo ela, que não revela qualquer tipo de revolta, porque o Partido é que sabe o que se deve fazer. Que, no seu caso, é mantê-la presa. Esta mulher já não pensa por si, mas só pelo Partido, não tem liberdade de consciência. É isto o totalitarismo.




De Henrique Morais a 18 de Janeiro de 2010 às 23:08
Irene Pimentel

Responder-lhe-ão alguns, que a dita prisioneira Hungara, é na realidade uma mulher livre...


De Isabel Moreira a 18 de Janeiro de 2010 às 23:19
obrigada, irene.é exactamente essa a distinção de que faço uso. para alguns, não faz sentido distinguir entre totalitarismo e autoritarismo, faria mais sentido simplificar e distinguir entre democracia e ditadura.


De f. a 19 de Janeiro de 2010 às 01:26
não sei s o totalitarismo s afere pelo efeito q cria ou pela determinação d o criar. sob todos os totalitarismos houve gente q manteve a liberdade de consciência e resistiu. e mm em sistemas não totalitários há quem não a exerça. parece-m q para o q importa o totalitarismo é um método: o d tornar impossível a vida aos q não s vergam às normas e à visão q s querem impor e ao poder d quem as impõe, expulsando todos os q não aceitam esse poder como legítimo e a sua verdade como única para a tal desolação -- a dos proscritos, dos párias, dos doidos, dos mortos. 


De Isabel Moreira a 19 de Janeiro de 2010 às 10:28
sim, é o método. o texto da irene ilustra o resultado conseguido do método, mesmo que muitos resistam ao mesmo.
claro que em democracia há por aí alguns dados ao método. é o que digo no final do texto.

 


De f. a 19 de Janeiro de 2010 às 14:01
oh yeah


De maradona a 19 de Janeiro de 2010 às 00:52
está tudo bem


De f. a 19 de Janeiro de 2010 às 01:31
livro fabuloso, isabel, e um dos meus favoritos d um dos meus autores favoritos.


http://jugular.blogs.sapo.pt/205133.html


De Isabel Moreira a 19 de Janeiro de 2010 às 10:25
f,
não conhecia esse teu texto, obrigada. um outro livro fabuloso. lembras-te do coração dela a passar de mão em mão, as feridas todas naquele coração, expostas. uma imagem, meu deus...


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