Sábado, 23 de Janeiro de 2010
João Galamba

"Não se salva a cidade se não se salvar a família"

 

D. José Policarpo

 

Mas não se pode salvar a família desrespeitando a cidade. Nas democracias liberais modernas respeitar a cidade implica reconhecer a dignidade de todos aqueles que a constituem — e não, como pretende o Cardeal Patricarca, sujeitar a dignidade de alguns a uma qualquer ecologia do humano a que se atribui, dogmaticamente, um estatuto ontológico divino. O casamento civil não é o mesmo que o matrimónio; é uma instituição laica, sustentada por uma comunidade política fundada nos valores da igualdade, liberdade e fraternidade; não na fé, na esperança e na caridade.


16 comentários:
De margarete a 23 de Janeiro de 2010 às 11:12
verdade dita com poucas palavras
para quem quiser compreender, claro
parabéns pela eloquência


De Shyznogud a 23 de Janeiro de 2010 às 12:55
Para além do que disseste falta referir que, mais uma vez, o cardeal recusa, de novo, considerar família todo e qualquer modelo de família que se afaste do seu modelo de família. Conscientemente - porque não me parece que o faça inconscientemente - desrespeita milhares de famílias deste país.


De nuvens de fumo a 23 de Janeiro de 2010 às 13:41
A família, deus e a pátria.

E depois são as leis que entram casa a dentro das pessoas...
Mais uns 500 anos e a ICAR está no Sec. XXI


De nuvens de fumo a 23 de Janeiro de 2010 às 13:48
a não perder, porque deus gosta de matar haitianos (http://www.landoverbaptist.org/sermons/haiti.html)


De henrique pereira dos santos a 23 de Janeiro de 2010 às 16:09

Há uma coisa que não compreendo: por que razão se deve o Estado meter no casamento civil? Qual é o valor social implícito que o justifique?
henrique pereira dos santos


De nuvens de fumo a 23 de Janeiro de 2010 às 18:24
se não quiser não case, o estado não obriga


De henrique pereira dos santos a 23 de Janeiro de 2010 às 21:48
Com certeza não sou obrigado a casar (na realidade até sou se quiser em viver em união de facto), mas não é essa a questão, a questão é a de saber por que razão o Estado tem de regulamentar o casamento. O que há de socialmente útil que leve o Estado a interessar-se pela coisa?
henrique pereira dos santos


De Nuno Palha a 23 de Janeiro de 2010 às 22:35
O Estado tem de regulamentar o casamento porque continua a haver uma parte da população que quer que ele o faça.  Tão simples quanto isso. Não tem de haver nada de socialmente útil. O Estado não tem de fazer apenas o que é economicamente ou socialmente útil, sela lá o que isso for. Faz aquilo que os governos e os parlamentos democraticamente eleitos lhe disserem para fazer.

Talvez devesse perguntar porque há pessoas que se desejam casar pelo civil. Cada uma terá as suas razões mais íntimas. Cabe ao Estado respeitar esta vontade. E quem quer casa, quem não quer não casa. E é bom que uns e outros se respeitem mutuamente.


De henrique pereira dos santos a 23 de Janeiro de 2010 às 22:42
Uma pergunta e um comentário:
e por que razão essa parte da população quer que o Estado intervenha num contrato livremente estabelecido entre pessoas autónomas e responsáveis?
tanto quanto percebo do assunto, razões íntimas não são razões de Estado: eu posso ter razões íntimas para comprar chocolate e não é por isso que o Estado intervem nessa compra.
henrique pereira dos santos


De Nuno Palha a 23 de Janeiro de 2010 às 23:33
É o Estado que faz esse contrato, o legitima e com ele oferece vários benefícios aos indivíduos que se casam. Para os ateus, os agnósticos, não praticantes ou para quem se casa uma segunda vez, o casamento civil é único no sentido  que  confere um grau simbólico e público a uma relação entre dois indivíduos duma forma que mais nada o faz, de acordo com essas pessoas. E isto é considerado fundamental para a felicidade de muitos  indivíduos em qualquer país ocidental. É muitas vezes uma dos objectivos da vida de muita gente. O porquê de muita gente o querer é para mim irrelevante.

Comprar chocolates e casar-se não são propriamente actividades do foro íntimo comparáveis. A Igreja e qualquer religião também regulam ou podem regular relações do foro íntimo realizando matrimónios. E normalmente não se interessam com chocolates. Há pessoa para quem o casamento religioso é importante. Eu não lhes questiono os motivos. O mesmo para quem se deseja casar pelo civil. Idém para quem não se deseja casar.


De henrique pereira dos santos a 24 de Janeiro de 2010 às 06:00
O Estado oferece benefícios aos indivíduos quando existem sociais em troca.
Continuo sem perceber os benefícios sociais do casamento, porque os benefícios individuais não justificam que o Estado se meta nas vidas das pessoas.
Muito menos o carácter público do qe quer que seja precisa de contratos em que o Estado intervenha sem ser parte.
E o que tem a igreja que ver com as minhas perguntas?
henrique pereira dos santos


De Nuno Palha a 24 de Janeiro de 2010 às 12:40
Eu não percebo a ideia do Estado se estar a meter na vida das pessoas através do casamento. O casamento é uma escolha individual e portanto não percebo onde está a suposta intrusão.  Haveria intrusão se fosse involuntário, mas não o é de facto já que ninguém é obrigado a casar-se. A única intrusão que vejo neste momento é de não permitir aos homossexuais casarem-se.  Isto sim parece-me uma intrusão na vida de várias pessoas.

Se formos a pensar na Igreja da mesma forma, também poderíamos pensar que ela se está a imiscuir nas relações das pessoas  através do matrimónio. Tal não é verdade. Mais uma vez trata-se apenas de uma escolha social.

Se retirássemos os benefícios e deixássemos apenas as obrigações legais que ligam os dois indivíduos casados compreenderia a existência de casamento? Ou acha que se deve abolir o casamento? E é-lhe irrelevante o casamento ser uma instituição querida à uma grande parte da sociedade? Uma etapa chave da vida para imensas pessoas?


De henrique pereira dos santos a 24 de Janeiro de 2010 às 15:50
Repare, se o casamento for apenas uma escolha individual pode regular-se pela legislação geral que gere os contratos: cada um estabelecia o conjunto de direitos e deveres a que os dois contraentes se obrigavam entre si. Se algum denunciasse o contrato fora das condições contratualmente previstas, pois tinha a lei geral para resolver o assunto.
Ora não é isso que acontece: os contratos de casamento estão pré-formatados pelo Estado.
Porquê, se é apenas uma escolha individual.
E lá está a dar-lhe com a igreja que nunca referi. O que é que a igreja tem com isto que estamos a discutir?
Ao contrário do que diz não são só os homossexuais que estão impedidos de casar, há muito mais gente que vive em comum (penso que não nos cabe ao Estado ir verificar se se deitam uns com os outros ou não) e que não pode casar-se no sentido de estabelecer um contrato de direitos e deveres mútuos que resultam da partilha de bens comuns. Mas não é isso que estou a discutir, foi só um comentário lateral para corrigir a sua imprecisão.
henrique pereira dos santos


De Qw a 24 de Janeiro de 2010 às 00:24
O Cardeal Patriarca está a falar de família, não de matrimónio. Explique lá porque havia alguém de se sentir excluído?

Sobre esta "O casamento civil não é o mesmo que o matrimónio; é uma instituição laica, sustentada por uma comunidade política fundada nos valores da igualdade, liberdade e fraternidade; não na fé, na esperança e na caridade": e em que se sustentava o casamento romano, ou o chinês do século XIII, ou o casamento das Ilhas Fidji?


De Xico a 24 de Janeiro de 2010 às 01:49

O João Galamba esquece que não há igualdade sem a fé que todos os homens foram criados iguais. Não há liberdade sem a esperança que somos feitos à imagem e semelhança de um deus, seja o Deus criador, seja o deus dentro de cada um de nós, e que por isso só a Ele temos de prestar contas. E a fraternidade sem a caridade é uma falácia e uma palavra vã.


Foi a Igreja que obrigou ao consentimento mútuo no casamento e assim defendeu a igualdade, a liberdade e a fraternidade. Fez cidade.


E se, como diz um dos comentários, a Igreja entrara no século XXI daqui a muitos anos, esperemos que por essa altura já o João Galamba tenha saído do velho século XIX.



De Xico a 24 de Janeiro de 2010 às 14:26

Peço desculpa por o meu comentário estar a negrito, mas julgo não ser o culpado. De qualquer modo não houve qualquer intenção.


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