Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

No passado dia 12 de Novembro, Nicolas Sarkozy, num discurso na cidade de La-Chapelle-en-Vercors (versão integral em formato pdf), defendeu a abolição do uso da burca em todo o território francês. O discurso foi dirigido para algo que, aparentemente, preocupa sobremaneira o presidente francês e o seu ministro da Imigração e da Identidade Nacional: a questão da Identidade Francesa.
Nesse discurso, Sarkozy afirmou que não falar da identidade nacional «será deixar o campo livre para todos os extremismos. É por isso que eu quero esse debate. É por isso que eu quero que nós discutamos juntos, que nos reflictamos juntos. A identidade nacional, ela diz respeito a todos, ela diz respeito a todos os franceses». Para o presidente francês é muito clara esta identidade, «Ser francês, é aderir a uma forma de civilização, de valores, de costumes», e, embora diga que em França «as crenças de cada um são respeitadas», considera que «a França é um país onde não há lugar para a burca, onde não há lugar para a sujeição [l’asservissement] da mulher».
Não é a primeira vez que Sarkozy se opõe publicamente ao uso da burca ou do niqab. Num discurso no parlamento em 22 de Junho do ano passado, afirmou «a burca não é um símbolo religioso, é um símbolo de subjugação, da submissão da mulher. Eu quero dizer solenemente que ela não é bem-vinda no nosso território». Assim, na sequência desse discurso, foi criada uma comissão responsável pela recolha de informação e propostas em relação a uma possível lei que levaria à abolição do uso da burca em França.
Essa comissão, liderada pelo deputado comunista André Gerin, apresenta amanhã as suas conclusões e recomendações sobre o uso da burqa em França à Assembleia Nacional que tomará uma decisão sobre o tema ainda esta semana. Tudo indica que não haverá uma proibição total, para já, do niqab ou da burka mas, como adiantou Gerin «Uma coisa é certa: nos espaços públicos, a proibição do véu integral será absoluta».
Não me parece que esta lei pretenda assegurar a laicidade do Estado muito menos que seja uma defesa da igualdade de género. Um Estado laico deve ser neutro em matéria de religião, não favorecendo nem discriminando nenhuma religião no espaço que é de todos nem legislando sobre que partes de cada religião são admissíveis ou não. Num
país ocidental em que as
desigualdades homem mulher são gritantes, penso que proibir umas centenas de muçulmanas de usar o niqab ou a burka não vai contribuir nada para o derrube do plafond de verre. Ou seja, neste processo que me recorda a proibição dos minaretes na Suiça, vejo apenas islamofobia mal disfarçada e pânico face a uma imaginada ameaça do Islão.
cara Palmira,
prezo-a muito, e aos seus posts, de grande erudição, consistência e rigor.
no caso deste, estou totalmente em desacordo consigo.
e dou por mim, hélas!, a concordar por inteiro com sarkozy.
não misture, por favor, argumentos de defesa de liberdades civis e, muito menos, de laicização do Estado, que passem pela submissão, subserviência e violência dirigidas a um género, seja ele qual for.
porque é contraditório. e porque é um discurso perigoso. e porque legitima a perpetuação dos aviltamentos. e porque em nada contribui para a mudança das mentalidades e das práticas, algo que a História demonstrou ter que ser feito 'contra' e nunca 'a par de'.
penso eu de que :-)
De aorta a 27 de Janeiro de 2010 às 22:28
somos dois. deve ser influência das más companhias (manas pires, entenda-se).
De
f. a 25 de Janeiro de 2010 às 23:33
ainda bem q lançaste este debate, palmira. andava a pensar nisso mas tou preguiçosa. tenho mixed feelings sobre esta matéria, mas uma vez q em frança o uso de sinais distintivos de uma religião já é proibido nas escolas públicas para menores, parece-m q impedir q uma mulher adulta use burca s for essa a sua decisão é inaceitável. do mesmo modo, ter-se-ia q colocar a questão do hábito das freiras ou mesmo da decisão d clausura das q optam por essa vida. esta medida parece-m exactamente o q t parece a ti: não laica mas islamofóbica. e convém não confundir islamofobia com laicismo.
f,
A comparação com o hábito das freiras é recorrente quando se fala de burqas, mas não me parece sempre judiciosa.
Primeiro, as freiras fazem por norma parte de congregações religiosas. Segundo, elas não sofrem a pressão comunitária e social elevadíssima que ,supomos todos, sofre a maioria das mulheres que usam burqa. Terceiro, elas continuam reconhecíveis.
O debate não é apenas religioso, mas social. Ao tapar integralmente o corpo e a cara estamos a recusar sermos reconhecidos e fazer parte do espaço público. De uma certa forma, para muitos efeitos uma mulher de burqa não existe: é a anulação da individualidade que se reflecte, antes de mais, nos traços físicos do nosso corpo.
"Segundo, elas não sofrem a pressão comunitária e social elevadíssima que, supomos todos, sofre a maioria das mulheres que usam burqa."
Não sou optimista como o artigo da Rue89. Assumir a burqa como um acto livre é a interiorização da repressão. Se quisermos levar ao extremo, nunca nenhum membro de uma seita dirá que não é livre.
Apesar de tudo, sou em princípio contra a interdição da burqa. Mas se o véu foi proibido nas escolas francesas (e belgas) não foi apenas por "islamofobia mal disfarçada", mas porque é inegável o jugo e a pressão do islão radical em sectores inteiros da sociedade.
Uma notícia interessante no Libération:
http://www.liberation.fr/politiques/0101615589-ni-putes-ni-soumises-manifeste-en-burqa-devant-le-siege-du-ps
De Vega9000 a 25 de Janeiro de 2010 às 23:45
Coisas que me ofendem a mim, e em consequência, a "identidade Portuguesa", e que gostava de ver proibidas, seguindo o belo exemplo Francês:
- A segregação nas mesquitas. Que se lixem os costumes deles, segregação por sexos é que não!
- Chamarem "Alah" a Deus. Neste país, e segundo os nossos costumes, Deus tem um nome: "Deus".
- Todas as palavras começadas por "Al". Ou derivam do Latim, ou deviam ser proibidas! Mudar imediatamente pelo significado em Português "O". Passaremos a chamar "Ogarve" e "Opiarça", por exemplo.
- Turbantes na cabeça. Neste país, usamos chapéus, ou bonés, ou lenços pretos comprovativos de viuvez!
- Proibição de comer carne de porco: nem pensar, vai completamente contra os nossos costumes, e é gravemente ofensivo do direito que as crianças (Meu Deus, pensem nas crianças!) têm a uma alimentação variada. Ou provam que as crianças comem enchidos, ou vai para o tribunal de menores!
- Proibição de beber álcool: não só é contra os nossos costumes. como prejudica um sector essencial da nossa economia. Muçulmano que não apanhe uma piela devidamente documentada com factura de bairro alto uma vez por mês deverá ser expulso.
- Casamentos arranjados: para casar, cada mulher muçulmana deverá provar que o noivo era um completo desconhecido da família, pois de contrário estaremos a permitir uma inaceitável subjugação da mulher a um conceito de família paternalista, estranho aos nossos costumes e tradições.
E por agora é o que me lembro, mas ei-de me lembrar de mais algumas. O importante é civilizar os selvagens, habituá-los aos nossos costumes infinitamente superiores, quer eles queiram, quer não! Se não, lá se vai a "identidade".
Agora, é só arranjar um deputado que esteja disposto a propor a lei. Alguém tem sugestões?
De
luis eme a 25 de Janeiro de 2010 às 23:50
em relação ao lenço acho que não devia ser proibido, mas a burka sim.
não é apenas um problema cultural, mas também de segurança, já que pode ser utilizado como disfarce.
em relação ao ponto de vista de Sarkozi, ele tem alguma razão. quando viajamos para outro país, temos de nos adaptar às suas leis, hábitos e tradições.
quem gosta de beber álcool, não está proibido de o fazer nos paises islamicos? e nem vou falar de vocês mulheres terem de andar com o corpo e a cabeça coberta.
será que eles são diferentes? nós temos de respeitar os seus hábitos e tradições e eles não?
De
Shyznogud a 25 de Janeiro de 2010 às 23:52
De
Shyznogud a 25 de Janeiro de 2010 às 23:53
De António Parente a 26 de Janeiro de 2010 às 00:02
O relatório do Departamento de Estado dos EUA estimava em 2004 que existiam cerca de 4 a 5 milhões de muçulmanos em França, cerca de 7 a 8% da população residente. Em 2007 essa estimativa aumentou para 5 a 6 milhões, entre 8% e 10% da população.
De acordo com uma sondagem efectuada em 2004, apenas 36% dos muçulmanos diziam seguir as práticas regulares da sua religião. Em 2006, outra sondagem mostrou que 88% diziam respeitar as indicações da sua religião.
Estima-se que existam 2 mil mesquitas em França.
Como curiosidade, a sondagem citada pelo Departamento de Estado mostrava que apenas 52% dos que se afirmavam como católicos consideravam que a existência de Deus era provável ou possível...
É necessário ter em atenção o enquadramento social e religioso francês para perceber as decisões governamentais.
Como dia hoje na última página do DN uma muçulmana portuguesa: "os franceses estão com medo dos seus muçulmanos" (cito de memória).
De mimi a 26 de Janeiro de 2010 às 00:47
Não sei bem o que o Sarkozy quer dizer com ‘espaços públicos ’.
Se se refere a escolas, tribunais, etc., acho que sim, que qq pessoa deve seguir as regras de indumentária que existem para os restantes cidadãos. Aqui em Portugal, por exemplo, o dress code corrente impede que quer rapazes quer raparigas cubram a cabeça nas aulas. Julgo que nos tribunais também funciona assim.
Se por espaços públicos entende as ruas e outros lugares de convívio social, então as únicas restrições a colocar são as que se relacionam com a identificação das pessoas. Por todas as razões e mais uma, principalmente a segurança. Roupas até aos pés, a tapar a cabeça, os braços, as pernas, o que a tradição pedir, mas que a carinha fique bem descoberta.
É a regra que existe para todos, não posso andar na rua de rosto escondido.
De Zunkruft a 26 de Janeiro de 2010 às 01:03
Para mim, a questão fecha-se neste excerto que um dos comentadores deste post publicou e que resume muito bem a minha opinião, que é o seguinte:
«O debate não é apenas religioso, mas social. Ao tapar integralmente o corpo e a cara estamos a recusar sermos reconhecidos e fazer parte do espaço público. De uma certa forma, para muitos efeitos uma mulher de burqa não existe: é a anulação da individualidade que se reflecte, antes de mais, nos traços físicos do nosso corpo.»
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