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coitados dos coitadinhos

Uma pessoa não se cansa de encontrar verdades básicas sobre a natureza humana – tantas e tão variegadas e ao gosto do freguês que são. Uma das minhas favoritas é a que divide as gentes entre as vítimas e os outros – que não sendo vítimas só podem ser os maus. Esta divisão, ao contrário do que possa parecer, nada tem a ver com actos, suas consequências e a quem podem ser imputadas. Não. Tem a ver com a forma como as pessoas se vêem. Há quem se considere sempre incapaz de fazer mal, e que, seja em que circunstância for, o que quer que tenha feito ou dito, pergunte sempre, de preferência com a voz e os olhinhos já tremeluzentes, “mas o que é que eu fiz?”.

De lágrima, queixume e beicinho fácil, estas pessoas, que afectam uma estonteante e dolorosa fragilidade, só não serão passíveis de diagnóstico patológico – pela sua total incapacidade de se avaliarem com o mínimo de justeza e realismo -- por serem tantas. Não vamos decretar que o mundo está cheio de parapsicóticos, é chato. O melhor, porém, não é a espantosa capacidade que tantas gentes têm de se considerar sempre do lado do bem. Nem sequer o facto de levarem a mal que quem se sinta por elas ofendido tenha o despautério de lhes não perdoar, ou a insistência com que mostram considerar-se no direito, não necessariamente ao perdão – para exigir perdão teriam de assumir ter feito alguma coisa pela qual teriam de ser perdoados – mas à manutenção de uma relação “normal” (e por normal amiúde implica-se afecto, amizade às vezes até amor) com quem magoaram ou prejudicaram ou traíram. Não, o melhor não é isso – e tudo isso já é, convenhamos, muito bom. O melhor é que mais tarde ou mais cedo quem não perdoa as ofensas que lhe foram objectiva e efectivamente feitas passa a ser o mau da fita. Não perdoar é uma espécie de interdito social. Poderia ser de tanto ouvir, no Pai Nosso, “como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Só que o problema não está tanto (não está de todo) em não perdoar, mas em dizer e mostrar que se não perdoa. Há na recusa aparatosa do perdão uma dureza que a faz aparecer como mal maior – sobretudo para quem não sofreu o mal pelo qual o perdão seria devido. Quem não perdoa tem “mau feitio” ou é “implacável” ou (estas são geniais) “tem falta de grandeza” ou até “espírito persecutório” – ao contrário de quem, decerto por distracção, lhe enfiou uma daquelas facas de lâmina comprida e serrilha ali no meínho das costas e agora chora baba e ranho e torce as mãos e rasga as vestes porque quer que tudo fique “como era dantes”. Quer dizer, antes da acidentalíssima facada que o outro, por azar e grande falta de bondade natural, entendeu não relevar. Mais vale, como no outro dito popular, parecer vítima que ser vítima. E, sobretudo, nunca dizer, nas palavras imortais de Rhett Butler em Gone With The Wind, ‘frankly, my dear, I don’t give a damn’ (em tradução livre, “chora para aí a ver se eu me ralo”). Isso é que é imperdoável. Onde é que iríamos parar, se de cada vez que alguém pede desculpa não fosse desculpado? Em que mundo viveríamos se quando se diz “não queria magoar-te, não sei o que me passou pela cabeça”, ou “foi só uma brincadeira, não te queria prejudicar”, não viesse de lá um abracinho compreensivo? Demos graças por viver rodeados por tão doces almas, tão incapazes de rancor ou maldade – excepto às vezes, ou dia sim dia não, mas apontar, toda a gente sabe, é feio. (texto publicado na coluna 'Sermões impossíveis' da Notícias Magazine de 15 de Julho)

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