Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Em Novembro do ano passado, quando um inocente relatório do Banco Central Europeu denunciava os frequentes equívocos dos reportes orçamentais do governo Grego, poucos acreditariam nas implicações económicas que os países da periferia do Euro estão hoje a sofrer. Até há umas semanas atrás, o discurso conservador das agências de rating era ignorado pelo mercado de capitais. Na altura era justo afirmar, tal como o fizeram muitos economistas, que políticas orçamentais de promoção do investimento público asseguravam a prazo o desígnio de suster a forte crise económica que começou no início do ano de 2008 e que afectou fortemente os resultados da maior parte das economias no ano de 2009.

 

No entanto, o problema Grego e a violenta reacção dos mercados financeiros a contas falseadas, lançou a dúvida sobre a unidade do euro. A intransigência do BCE sobre a política de de elegibilidade dos colaterais sublinhou a dúvida: poderá a Grécia sair do Euro? E se pode sair a Grécia, porque não outros? Compreende-se que perante este tipo de dúvidas, os mercados facilmente  deixariam de vender o Euro para mais eficazmente atacar (especular) sobre a saída dos mais fragilizados da zona Euro, vendendo dívida daqueles com menor peso político e com contas mais frágeis dentro da União Monetária.

 

Portugal é um alvo fácil. Mas não é a Grécia. Um deficit previsto para 2009 de 8,3% não compara com os 13,3% da Grécia. O deficit ajustado do ciclo económico é, segundo estimativas de gente ilustre, metade do Grego (3.5% vs 7%). A dívida pública está muito longe dos 130% da Grécia. Mas igualmente importante é o histórico recente dos 2 países. A consolidação orçamental que Portugal conseguiu até 2007 (2.7%) não se verificou na Grécia que assistiu a um aumento do deficit no mesmo período de 5% para 7,7%. Já fizemos a reforma da Segurança Social e consta que a Grécia tem nesse ponto um grande problema para resolver.

 

Dito isto, não devemos, nem podemos, ficar indiferentes à actual conjuntura. Portugal está, como nunca esteve num passado recente, a ser escrutinado pelos mercados financeiros e pelos agentes económicos que nos compram a dívida necessária para manter os investimentos do estado, os bancos a emprestar dinheiro e as empresas a financiar os seus projectos. Temos que reagir com um compromisso de maior conservadorismo fiscal e admitir que na actual conjuntura perderemos alguma da nossa soberania orçamental. Sendo Portugal um dos poucos países da zona Euro a viver com um governo de maioria relativa, é importante que a aprovação do orçamento seja ratificada, como se espera, por uma maioria clara. É um sinal importante, não suficiente mas necessário. Uma questão de responsabilidade e bom senso.

1 comentário:
De Luís Lavoura a 26 de Janeiro de 2010 às 16:08
1) Portugal não é a Grécia, quando observado com cuidado. Mas visto de longe, com os olhos de um investidor nórdico e dos seus preconceitos culturais, parece-se com a Grécia. Isso é que importa.

2) Não basta que o orçamento seja aprovado por uma maioria clara. É também necessário que esse orçamento prometa aquilo que os mercados querem - consolidação orçamental. E não me parece, de forma nenhuma, que o orçamento de 2010 prometa tal coisa.


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