Sábado, 30 de Janeiro de 2010

leio no meu jornal (o meu jornal é aquele de cuja redacção faço parte, o dn) uma notícia, que é manchete, sobre o anúncio de uma manifestação, dia 20, em lisboa, a favor do referendo ao casamento de pessoas do mesmo sexo.

 

no primeiro parágrafo, lê-se: 'Os defensores do referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo vão sair à rua no dia 20, numa manifestação a favor da família'. nesta frase, aparentemente anódina, está todo um programa. e o programa diz: os defensores do referendo ao casamento das pessoas do mesmo sexo são a favor da família. é objectivo? quem assinou a notícia decerto acha que sim, até porque os organizadores da manifestação dizem que esta é a favor da família. sucede que 'a família' não é uma marca registada dos defensores do referendo, nem tão-pouco dos católicos referenciados na notícia em título. escrever que a manifestação é 'para defender a família' e fazendo-o sem aspas é assumir que não é controverso que a família se defenda assim ou que não haja outras noções de família. as aspas tinham de estar ali para assumir o carácter de citação, e portanto de apropriação do conceito por parte dos organizadores da manif.

 

ao contrário do que possa parecer, isto não é irrelevante: no centro deste debate está exactamente a divisão entre os que se arrogam o direito de dizer o que é ou não é uma família e que famílias são ou não 'correctas', 'aceitáveis' e 'boas' e os que defendem que a palavra família designa muitas realidades diferentes.

 

um exemplo iluminador? noticiar uma manifestação de ultra-nacionalistas contra a imigração nos mesmos termos: 'os defensores do fim da imigração e da expulsão de todos os imigrantes vão sair à rua no dia 20, numa manifestação a favor de portugal'. perante esta frase, não faltariam as vozes indignadas: portugal não é património ideológico de nenhum grupo, diriam; escrever assim faz equivaler a expulsão dos imigrantes à defesa de portugal. ah pois é. aliás, não creio que esta frase passasse o crivo das edições de qualquer jornal português que não tivesse uma redacção de extrema direita xenófoba.

 

sucede que como portugal a família é património de nós todos e nenhum grupo pode arrogar-se o exclusivo de falar por ela. todos mas todos sem excepção temos família. não é uma abstracção: famílias temos e somos todos. como portugal.

 

a próxima vez que alguém usar a expressão 'jornalismo de causas', é favor pensar neste exemplo.


8 comentários:
De Alexandra Tavares Teles a 30 de Janeiro de 2010 às 17:00

Será difícil a muitos perceber que não aspar '(manifestação) a favor da família' é tão grave quanto estar lá escrito:'Os defensores do referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo vão sair à rua no dia 20, numa manifestação CONTRA a família', por exemplo.(que é o que eu, por exemplo, acho dessa manifestação)


De António Parente a 30 de Janeiro de 2010 às 18:00
Alexandra

Sem aspas ou com aspas o DN levava sempre pancada. Nestes temas emocionalmente fracturantes não há volta a dar. Se não fosse a f. a protestar seria a oposição ao casamento gay.


De Alexandra Tavares Teles a 30 de Janeiro de 2010 às 19:15
António, n vejo que razão teria a tal oposição ao CPMS para protestar as aspas. "defesa da família", assim entre aspas, porque estamos a citar o entendimento de um determinado grupo.


De António Parente a 30 de Janeiro de 2010 às 19:24
Alexandra

Como deve saber, este é um assunto muito sensível e que desperta uma militância exacerbada. Provavelmente, esta é uma especulação minha, com as aspas o DN seria acusado de tomar partido por um dos lados. Sem aspas, também o é. Talvez o bom senso aconselhasse o encurtamento do título para ninguém se sentir melindrado.


De Joana Lopes a 30 de Janeiro de 2010 às 18:27
Exactamente, Fernanda, a comparação é excelente.


De S a 30 de Janeiro de 2010 às 18:55
Ao menos parece que se deixaram de merdas e assumiram a agenda (muito mal oculta) de que não querem o casamento entre PMS; o referendo é só o meio.


De Nuno Ribeiro Ferreira a 30 de Janeiro de 2010 às 21:51

Sofia Guedes sublinha que a manifestação é promovida por "cidadãos comuns" e garante que esta "não olha a credos, raças ou condições sociais ou etárias". Mas a Igreja Católica já aplaudiu a iniciativa da sociedade civil.

Não olha a credos, raças, condições sociais ou etárias...Claro que não!! Aparentemente só olha às orientações sexuais. E eles não desistem... Não deve faltar muito pra D isilda levar criancinhas com flores brancas pos jardins de Belem...


De pedro oliveira a 31 de Janeiro de 2010 às 23:08

«sucede que como portugal a família é património de nós todos e nenhum grupo pode arrogar-se o exclusivo de falar por ela. todos mas todos sem excepção temos família. não é uma abstracção: famílias temos e somos todos. como portugal.»

sucede (para utilizar a sua terminologia) que portugal remete para reino de portugal. é uma abjecta apropriação da república utilizar a palavra em proveito próprio. não existe portugal (por enquanto) existe a república portuguesa.
«famílias temos e somos todos» discutível. todos tivemos um pai e uma mãe, somos todos produto dum óvulo (fêmea) e dum «esperma» atrevido e cabeçudo (macho), nesse sentido todos tivemos pai e mãe e o produto fomos nós, o filho, provavelmente, é isso a que chamam família (erradamente, claro).


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