Domingo, 31 de Janeiro de 2010

Quando em Portugal se fala em colónias é em África que pensamos. Não na Ásia --  não na Índia, não em Timor, não em Macau – não na América, não no Brasil. África. É lá que se concentra a nostalgia e a amargura, a vergonha e o silêncio da história colonial portuguesa. É em África e naquilo que de África vive em nós e connosco que expiamos o misto de culpa, incompreensão, derrota e raiva que o pós-colonialismo transporta.

 

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, editado recentemente, acrescenta, sob a forma de memórias de uma menina nascida em Moçambique (a autora veio de lá aos 12 anos, na grande leva dos “retornados” de 1975 – fenómeno ao qual se começa por mentir no nome que foi dado aos que chegavam, já que muitos “retornavam” a um país onde nunca tinham estado), mais um parágrafo na história não feita da colonização portuguesa. No livro, que num perfil feito sobre a autora para o DN crismei de “carta de amor a um pai racista”, narra-se sobretudo a relação de Isabela com o electricista grandalhão e mulherengo que adorava a filha única e a levava “para todo o lado” e que quando Portugal saiu ficou, com a mulher, enviando-a só no avião para a “metrópole”, onde durante 10 anos, até os pais regressarem, ela viveu de avó em tia, de terra em terra, num exílio de órfã de que ainda guarda cicatrizes.

 

É um retrato meigo e brutal, brutalmente meigo, assumido pela própria como uma quase traição. Chamar racista ao pai, assumir o racismo dos “colonos”, dos portugueses, dos moçambicanos brancos, do “sistema” – eis algo que garante polémica furiosa. Nos blogues, um universo ao qual Isabela pertence desde 2005 (com o blogue Mundo Perfeito, agora substituído pelo Novo Mundo) e onde iniciou a sua purga – a purga que estas memórias confessadamente são --, as reacções desagradáveis não se fizeram esperar. É normal: ao Público, Isabela afirmou que vê os massacres ocorridos em Setembro de 1974 – e nos quais não pereceu por mero acaso – como “justa retribuição”; ao DN disse que no país em que vivia se podia atropelar um negro e não ir para a prisão.

 

O mito do colonialismo doce, não racista (não demasiado racista, enfim – um bocadinho de racismo é visto como algo de normal, afinal há “eles” e “nós”) e sobretudo não violento dos portugueses custa a matar, mesmo se nada permite mantê-lo. Nada no passado e nada no presente. Nem em Portugal, onde todos os dias nos cruzamos com discursos e gestos incontroversamente racistas, nem nos lugares onde “estivemos” (nunca esquecer o plural, esta ideia de colectivo) e de onde “saímos” e agora “voltamos”. Moçambique, por exemplo. Fui lá em 1998, de férias, e até hoje não digeri a atitude generalizada de submissão dos negros face ao desabrido trato dos brancos. Mas, pior, não digeri o mimetismo que esta dualidade degradante imprime nos recém-chegados. “Qual a diferença entre um turista e um racista”, foi a pergunta que às tantas me fizeram, na galhofa. A resposta, “15 dias”, é uma espécie de profecia maldita. Sim, um branco em Moçambique está condenado a sentir incompreensão e impaciência, a questionar a dificuldade de comunicação e a estranheza das reacções. Sim, um branco português em Moçambique tem de escolher entre comprazer-se na superioridade ofertada ou martirizar-se na culpa.

 

Não é só a pobreza, não é só a miséria, não, nem sequer as abissais diferenças típicas do terceiro mundo. É o que, incrivelmente, se mantém (mantinha? Terá mudado em 12 anos o que não mudara em 23?) de um sistema de dominação, mais de 30 anos depois de ele ter sido – era suposto ter sido -- destruído, cancelado, desmantelado. É a vergonha de ver portugueses a tratar negros – todos os negros – por tu, como se os conhecessem de algum lado, como se fossem crianças. É a raiva de ouvir de sul-africanos “os negros daqui são submissos”, como se isso fosse uma qualidade. É a confusão de ser apanhado ali, sem aviso (não, ninguém nos prepara para isso), no meio da história. Da nossa história e dos seus demónios – tão pouco enfrentados, tão pouco exorcizados. E do que deles vive em nós, do que deles somos.   

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 24 de janeiro)

 

 

10 comentários:
De G_L a 31 de Janeiro de 2010 às 16:12
Show de bola. Você é o máximo.


De Guilherme Pereira a 1 de Fevereiro de 2010 às 09:44
Fiz, infelizmente, como oficial, a guerra colonial em Moçambique, justamente numa zona, e como operacional, leia-se tropa macaca como dizemos na gíria, onde se verificaram atrocidades e genocídios - distrito de Tete, famigerado pela pseudo-operação Nó Górdio do Kaulza e do massacre de Wiriamu.
Compraz-me que uma cidadã que viveu na terra onde nasci tenha tido a corage, e a mantenha, para fazer luz sobre esta sombra tenebrosa e ainda mal esclarecida da guerra colonial.
Em matéria de costumes, confirmo o que agora denuncia esta cidadã. Por exemplo, no liceu (António Enes, Lourenço Marques)onde andava, estava proibido, nem que fosse no chamado intervalo grande ( 20 m) da manhã, de contactar com a minha própria irmã, porque as turmas mistas eram um escândalo para aquelas cabecinhas.

P.S.

Felizmente, os meus pais eram colonos mas não colonialistas. E os meios onde medrei defendiam a libertação de Moçambique. O meu amigão Eduardo Pitta sabe do que estou a falar. Mas tenho a perfeita consciência de que o meu caso é residual e conta pouco.
Infelizmente.


De PGFV a 1 de Fevereiro de 2010 às 10:40
Excelente.

Estive em Angola cerca de um mês em trabalho em 96 e senti exactamente o mesmo. 10 anos depois mais tarde em Moçambique a mesma sensação a mesma raiva, a mesma vergonha "ver portugueses a tratar negros – todos os negros – por tu, como se os conhecessem de algum lado, como se fossem crianças"

Lembro muitos anos antes, o mesmo tratamento por tu, que alguns professores na faculdade davam aos meus colegas negros vindos de Moçambique e da Guiné. Lembro com raica o Professor de Biologia Genética da sua suposta superioridade ciêntifica, dizer alto e bom som, aos jovens homens e mulheres que ali estavam a aprender, que O HIV era um mecanismo de seleccção natural para os homossexuais e que a raça negra era um estado atrás da evolução. E eu a sentir a vergonha de ser homossexual, a sentir a vergonha daquele gajo não ter vergonha de dizer que os meus 3 colegas negros, eram inferiores em raça a mim. Foda-se. Era aquilo a universidade?Tudo isto em Portugal, muitos anos após os 25 de Abril, numa Universidade Pública, na Universidade de Coimbra. Centenas de alunos de Medecina e Psicologia ouviram isto.

Lembro com raiva, o mesmo tratamento por tu, que o meu pai, sempre deu aos negros, aos ciganos e depois mais tarde aos meus amigos estrangeiros. Deixei de lhe falar, não falo mais com ele. Há coisas que não podemos perdoar, sobretudo a certas pessoas.

Leio a notícia da manifestação do dia 20 (não vou estar em Portugal a 20) e sinto raiva, incapacidade por não conseguir fazer nada, que demosntre que o que move aquela gente é ódio. apenas ódio.



De jpt a 1 de Fevereiro de 2010 às 11:21
Fui a moçambique de férias há pouco tempo, e os miúdos que se chegavam a pedir tratavam-me por "patrão". "Patrão"?, vindo de um puto de 5 ou 7 anos que já nem sabe o que foi a era colonial? Tudo verdade no post, estão restablecidas as condições sociais do colonialismo.


De nuvens de fumo a 1 de Fevereiro de 2010 às 13:29
do racismo
------------
quando estive a trabalhar em angola, perguntei a um colega angolano aobre os assasssinatos de portugueses em áfrica do sul ( na altura foram mortos vários comerciante em poucas semanas)
ele dissse-me: sabe os portugueses eram os estrangeiros mais racistas de africa do sul, é natural que se vinguem neles.

Fiquei com uma ideia clara do problema.


De crp a 1 de Fevereiro de 2010 às 13:42
Na muche fernanda!! *****


De Marcelo do Souto Alves a 1 de Fevereiro de 2010 às 13:57
Tudo isso me faz muita confusão, até a mim que me declaro racional e conscientemente anti-racista, mas que me sinto por vezes apanhado nas traiçoeiras e inesperadas malhas de um sentimento racista, visceral e subconsciente, que me incomoda e inquieta. Sou e sinto-me "branco", ou pelo menos "era", porque agora sou Pai de dois rapazes, um mulato (saíu à Mãe, tem uma pele fantástica, mas por acaso de feitio é decalcado de mim!) e outro quase branco (saíu mais a mim, mas curiosamente tem o feitio dela...). E só comecei a perceber o que é o racismo suave, insidioso e desculpabilizante quando conheci melhor a minha Mulher e comecei a ter conversas sobre Angola e Luanda coloniais, que só conheci por relatos de familiares, com o meu Sogro. Todo um Mundo de descobertas e de questões sem resposta fácil... Mas que, subitamente, se resolvem por completo quando olho para os meus dois Filhos e não consigo ver, em circunstância alguma, a côr da sua pele através dos olhos da alma.


De dulce a 2 de Fevereiro de 2010 às 13:42

Pois é, Fernanda. Na mouche o teu texto. veio-me á memória uma viagem de trabalho que fiz a Moçambique em 1996, Fiquei no Hotel Polana e atordoei quando ouvi miúdos de 12, 13 e 14, que vendiam caixinhas de madeira, a tratar por "patrão" os sul-africanos e os portugueses ali hospedados.
Foi quase igual ao que senti numa outra viagem a África do Sul. (Lembras-te?);  aquela rapariga de Joanesburgo que se prostituía em  Durban e que se recusava a ter clientes não brancos?
Conheço pouco Moçambique - estive lá apenas duas vezes - mas conheço - melhor - Angola. E não tem nada a ver. Há brancos que continuam a tratar os pretos por tu. Sim há. Mas também há pretos a tratar os brancos por tu. ds


De f. a 2 de Fevereiro de 2010 às 14:27
sim, dulce, lembro-m bem dessa miúda de durban (e de mais coisas, eheh). já m tinham dito q angola é mto diferente d moçambique. gostava d perceber porquê. bj


De dulce a 2 de Fevereiro de 2010 às 14:50

vai até lá. quase garanto que não te vais arrepender. Mas não te fiques por Luanda... bj


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