Domingo, 31 de Janeiro de 2010

 

"Das 1.900 mulheres que usam o véu em França, dois terços são francesas e um pouco menos da metade são-no de segunda e terceira geração."



via Liberation

Descaradamente roubado à Maria N.

Já que estou em maré de a roubar trago para a luz do post um comentário que a Maria N. aqui deixou, que subscrevo na íntegra (sublinhados meus):

 "Repugna-me o que a burca simboliza, evidentemente, mas a questão era sobre a proibição do símbolo versus a obrigatoriedade. Em ambos os casos os direitos da mulher são diminuídos.

Isto gera alguma confusão porque se parte deste princípio: se a burca simboliza a eliminação dos direitos humanos delas, a sua proibição significa a restituição desses direitos, logo vamos negar-lhes um direito para tornar possível essa restituição. Mas os símbolos não são o mesmo que aquilo que simbolizam.

Proibir elimina a obrigatoriedade de a usar mas não elimina a opressão exercida sobre a mulher, a menos que acreditemos que sem ela o opressor deixa de oprimir. Os casamentos forçados de mulheres sem burca dizem o contrário, assim como a retirada de raparigas de famílias integristas das escolas públicas francesas que passaram a frequentar escolas confessionais, ou a aprender em casa através do ensino à distância, quando o hijab foi proibido nas escolas.

É necessário entender que em ambientes opressores, o véu permite às mulheres a negociação da sua liberdade (sair à rua, estudar, trabalhar, etc.,), o que explica a razão de algumas lhe atribuírem valor no seu percurso para a emancipação. A questão da proibição do véu não pode ser tratada como se não tivesse consequências negativas para algumas destas mulheres, ainda que para outras seja positiva."


17 comentários:
De fernando antolin a 31 de Janeiro de 2010 às 16:19
Bom, acredito que seja defeito meu, mas não consigo ver essa fortíssima "negociação" para a liberdade, nos grupos de mulheres tapadas que percorrem as ruas de Kabul,Teerão,qualquer cidade dos Emiratos ou...Londres,pois em plena Sloane Street,Sloane Square,etc etc, falamos de Chelsea,Belgravia etc, aí vão elas saindo directamente das limusines para as lojas de marca e convenientemente vigiadas por zelosos acompanhantes. Não sei onde vão depois exibir as suas compras,talvez em reunião de amigas no recato do lar, mas a tal negociação escapa-me.É que não consigo ver nisto nada mais que uma tradição de menorização do papel da mulher,de submissão e de algo tão abusivo como a excisão,o casamento combinado,o chicotear de uma mulher que foi violada etc etc. Repito que deve ser defeito meu, não consigo fazer a destrinça e entrar em relativizações. E ainda bem que na Turquia,Tunísia e ao que julgo Argélia e Marrocos, a atitude parece ser a dum laicismo no que concerne o vestuário da mulher. Se bem que os Argelinos tenham sentido bem na pele o horror do terrorismo integrista,situação que parece impressionar pouco o Ocidente,neste caso.

Mas no fundo opinamos de "longe" ...


De Ana Matos Pires a 31 de Janeiro de 2010 às 19:02
Parece-me q a Maria usa "negociação" no sentido de ser a única maneira  de conseguirem ir à rua, estudar, trabalhar, Fernando.


De fernando antolin a 31 de Janeiro de 2010 às 22:16
Ou seja, o retrocesso completo mesmo em relação ao grau de emancipação que não há muito tempo,pese embora a repressão sob Saddam ou o Shah do Irão, as mulheres já tinham nesses dois países. E não me parece que no Afganistão,mesmo de burqa,uma mulher saia para trabalhar,estudar ou seja lá o que fôr. Pelo menos com os Taliban ou mesmo agora em zonas onde a sua influência ainda se faz sentir.

Tristes tempos. Veremos é se a lei passar e daqui a algum tempo a esquerda chegar ao poder,qual vai ser a sua atitude. Se calhar vamos ter alguma surpresa...


De Luís Naves a 31 de Janeiro de 2010 às 17:43
Mas alguém tem dúvidas de que estas vestes têm a ver com violência sobre as mulheres?
Sinceramente, não consigo perceber esta lógica. Aquilo é opressivo, mas proibir também é opressivo, portanto, deixamos tudo na mesma, até porque muitas são convertidas e de sexta geração e algumas até gostam, assim é melhor não fazermos nada, embora aquilo seja opressivo, mas só em Cabul, porque em Paris elas querem é ser livres...


De Ana Matos Pires a 31 de Janeiro de 2010 às 19:04
Releia lá, Luís. A proibição evita a opressão?


De Luís Naves a 31 de Janeiro de 2010 às 19:38
claro que evita


De JP Santos a 1 de Fevereiro de 2010 às 10:38
Não evita a opressão no sentido de que não deixem de ser oprimidas de outras formas.
Mas aí a questão já não é a de saber se devemos ou não proibir o véu integral mas sim se isso será suficiente. E sendo obvia a resposta de que não, deveriamos talvez discutir que outras medidas deviam ser tomadas em vez de nos "embrulharmos" numa questão em que quer muitos dos defensores da proibição quer dos contrários a essa proibição se vêem com "companhias" indesejáveis por razões meramente tácticas: os primeiros (entre os quais me incluo) de movimentos de extrema direita que me repugnam e os segundos por defensores movimentos radicais islâmicos com que estou convicto também não se identificam minimamente.


De Ana Matos Pires a 2 de Fevereiro de 2010 às 16:04
A minha posição diz respeito ao q se está a discutir em França, com a realidade de França.


De roza a 31 de Janeiro de 2010 às 17:45
dois posts abaixo fala-se do canadá, da supressão de <b>mecanismos excepcionais de negociação</b> salarial das mulheres(recorrer a entidades exteriores às empresas). E falamos do direito trabalho -gual-salário igual, mecanismos excepcionais que existem para fazer cumprir direitos normais. Porque serão precisos mecanismos excepcionais? Não foi decretada a ilegitimidade de vender força de trabalho, mas a retirada da protecção contra uma sociedade que ainda encara as coisas assim (oh, mas mexer no direito à greve não me devia preocupar mais?)
Isto para quem não os compreende a "eles"(/as)


De Nuno Pinto da Cruz a 31 de Janeiro de 2010 às 18:18
"É necessário entender que em ambientes opressores, o véu permite às mulheres a negociação da sua liberdade (sair à rua, estudar, trabalhar, etc.,), o que explica a razão de algumas lhe atribuírem valor no seu percurso para a emancipação."

Igualmente, em ambientes opressores e proselitistas a lei irá ser explorada até ao limite, sendo os movimentos feministas muçulmanos demasiado minoritários. O facto da tendência dominante ser hoje em dia agressivamente conservadora impele à opressão de quem não o é e à contaminação de ambientes laicos (exemplo: a escola). Nesta relação de poder a parte progressista é a mais fraca. Como creio numa sociedade progressista e secular julgo que devem ser dadas ferramentas a esta última. Sem querer utilizar argumentos de autoridade, parece-me que poucos portugueses fazem uma ideia do que é a imensa pressão social e cultural em bairros, escolas e lugares públicos dominados pela cultura muçulmana radical. Gostava de encontrar mais testemunhos de activistas que contactem de perto a realidade da opressão islamista sobre as mulheres. Por exemplo: http :/ www.niputesnisoumises.com /"
De resto, ao referir a negociação da liberdade estamos a admitir que a burqa é, objectiva e quase sempre subjectivamente, imposta às mulheres. Mas como não posso admitir que uma mulher mal tratada pelo seu marido negoceie a sua liberdade em troca de violência, também não posso admitir, em 2010 e no coração da Europa, que uma mulher negoceie a sua liberdade em troca de uma burqa .

Sendo que tenho muitas reservas em relação a uma lei.


De zeparafuso a 31 de Janeiro de 2010 às 18:45
Numa altura em que se fala de terrorismo, numa altura em que cidadãos normais, cara destapada, têm dificuldade em ir a Angola, andar de cara tapada em França, que é dos franceses e um dos países mais desenvolvidos da Europa é opressão a proibição da cara tapada? Por acaso nos países árabes as ocidentais não têm que tapar a cara? Perguntem à Marcia da RTP.


De Nuno Pinto da Cruz a 31 de Janeiro de 2010 às 19:03
"Repugna-me o que a burca simboliza."

Também é um erro partir desta frase. O que é abjecto não é apenas o que a burqa simboliza mas, igualmente, o que a burqa é. Da mesma maneira que uma agressão não repugna apenas pela sua dimensão simbólica. Não estamos a falar de uma t-shirt com uma cruz gamada, mas de um objecto que é fisicamente uma prisão.


De TragédiaGeek a 1 de Fevereiro de 2010 às 00:53
Não vejo onde está o erro. A burca é uma prisão, algumas até têm as grades, mas se lhe retirar todo o seu simbolismo fica com uma peça de roupa desconfortável que limita os movimentos.  Ser ou não oprimida por ela depende da perspectiva de quem a veste e se o faz voluntariamente ou não. Se fizer o mesmo a uma agressão de que seja vítima continua agredido.


De Manolo Heredia a 31 de Janeiro de 2010 às 20:16
Mais uma confirmação da minha teoria: são jovens, francesas e muito bonitas.
Vocês, que não leram o kamassutra , não compreendem as motivações dessa gente.
Sou contra a ocultação do rosto na via pública, por questões de segurança ( a expressão facial é um bom indicador das intensões de quem se cruza connosco).
Também acho que quem usa véu total (pode ser homem ou mulher) não devia ser autorizado a conduzir (assim como é punível por lei conduzir descalço), por razões de segurança.


De Julia a 31 de Janeiro de 2010 às 21:39
Cara Ana,

Talvez fosse sensato ler este livrinho.

http://www.amazon.fr/LIslam-mondialis%C3%A9-Olivier-Roy/dp/2020676095/ref=sr_1_9?ie=UTF8&s=books&qid=1264973828&sr=1-9

Cumprimentos,
JL


De aorta a 1 de Fevereiro de 2010 às 22:38
quem é a maria n.? usa burka?


De Ana Matos Pires a 2 de Fevereiro de 2010 às 16:06
Não me parece, mas pode perguntar-lhe directamente, é só seguir o link


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