Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
Palmira F. Silva

No Afeganistão,  oito anos após a queda dos talibans, os mais elementares direitos são negados às mulheres, que são rotineiramente presas e encarceradas por «fugirem», pelo «crime» de adultério e por tantas outras coisas. No Afeganistão, onde a lei não reconhece o crime da violação e onde 70 a 80 por cento dos casamentos são forçados, qualquer mulher que se atreva a falar ou a agir para alterar este estado de coisas incorre,  na melhor das hipóteses, de abusos e ameaças, mas é mais vulgarmente assassinada.

 

«When you are outspoken and involved in political and social life you are bound to be the victim of attacks», segundo a Fauwzia Kufi, um membro do parlamento, citado num novo relatório da Human Rights Watch sobre a condição feminina no Afeganistão. «Olhem para os assassinatos, uma percentagem muito elevada são mulheres».

 

Uma parlamentar afegã explicou o que lhe aconteceu. «I had threatening phone calls and SMS messages. It was horrible. Once they said that in one week they would kidnap me. That was the scariest part, though probably they were just trying to demoralize me.... They said, “A woman like you is a black mark on our country’s forehead. You are [a] Christian, you are [an] infidel.” They think that women who talk about human rights are infidels


Dadas estas condições, os (raros) livros que retratam a vida das mulheres no Afeganistão, por exemplo, The Bookseller of Kabul da jornalista norueguesa Asne Seierstad ou os best sellers de  Khaled Hosseini The Kite Runner e A Thousand Splendid Suns, parecem histórias de horror pelas realidades que descrevem.  Acabei de ler um desses livros, quiçá ainda mais devastador  pela simplicidade brutal com que Atiq Rahimi, autor de outro livro indispensável, o «Terra e cinzas», levanta o véu sobre a opressão esmagadora sobre as mulheres afegãs.

 

O livro conta a história da mulher de um afegão, que foi soldado toda a sua vida adulta, dos Mujahedin primeiro e depois dos taliban, que ficou num estado catatónico num dos conflitos tribais que são a constante na história desta terra massacrada pela guerra. A heroína cuida do marido e recita-lhe versos do Corão: sem assistência médica, apenas a fé permanece. Mas a fé dela foi desvanecendo ao longo dos anos e, agora que o marido não pode falar, a mulher sem nome ousa dar voz aos seus pensamentos, sem saber se o marido a ouve, sem saber se arrisca a vida com as confidências..

 

Ocasionalmente, a guerra passa no exterior ou através da casa onde toda a acção se desenrola: morteiros, tanques, soldados que vêm e vão, matam, roubam e seguem em frente. A mulher continua, põe de lado o Corão e continua a interpelar o marido num crescendo que começa  frustrado e desesperada e termina rebelde. Assim, o marido torna-se o Sang-e-Saboor, a mágica  pedra da paciência que dá nome ao livro que, segundo o folclore persa absorve a dor daqueles que nela confiam, até que finalmente explode. E a explosão é absolutamente desconcertante...

1 comentário:
De Luís Lavoura a 2 de Fevereiro de 2010 às 12:17
Não vejo por que motivo estas coisas não se passariam no Afeganistão quando, de facto, elas se passam na maior parte dos países da zona - incluindo na Índia, país onde os pais têm quae pagar um elevado dote para conseguirem casar uma filha, arriscando-se, caso esse dote não seja atempadamente pago, a que ela seja assassinada pelo seu próprio marido.

Parece que algumas pessoas acreditaram que, uma vez o Afeganistão libertado dos talibans, passaria ser um país modelar em matéria de direitos das mulheres, de facto, passaria a ter leis similares, sei lá, às dos EUA. O que é uma crença sobremaneira ridícula. É evidente que o Afeganistão só pode ser como é e como a cultura local é - e é de facto similar a outros países da zona (não necessariamente islâmicos, note-se).


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