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o mito da baixa

A Baixa de Lisboa, como a do Porto, foram decretadas, no discurso politico e mediático correntes, como “desertos”. Voltámos a ouvir essa certeza na boca de todos os candidatos à autarquia da capital e a atestá-la na justificação do dono da Loja das Meias, talvez o mais emblemático dos estabelecimentos comerciais da Baixa, para fechar. Ouviu-se até, nas notícias sobre este encerramento, a velha ladainha sobre as ruas do centro serem, a partir das sete da tarde, “um deserto”. Às sete da tarde, por acaso, a esmagadora maioria das lojas e cafés da Baixa fecham. Mas, claro, era de esperar que as ruas se mantivessem cheias, como estão durante todo o dia. De facto, só quem nunca passa na Baixa, nomeadamente na Rua Augusta (onde se situa a Loja das Meias) pode dizer que esta zona é um deserto, quando se trata, com toda a evidência, de uma das mais frequentadas da cidade. Quanto a alegar que deixou de ser uma zona comercialmente atractiva, bom, é ver a quantidade de lojas de grandes cadeias, como a Zara, a H&M e a Fnac que nos últimos anos ali se instalaram. Terá sido por obrigação ou espírito cívico, ou mesmo para vender? A Zara tem duas enormes lojas na Rua Augusta. Duas. E a empresa que detém a Zara abriu ali vários outros estabelecimentos de outras suas marcas. Parece que para estes estabelecimentos, abertos todos os dias da semana até às 7.30 (excepto ao domingo), a Baixa é do melhor. Talvez, pois, tenhamos que concluir que as razões do fecho da Loja das Meias têm pouco a ver com a tal de “desertificação”. Aliás, note-se que quando se fala deste suposto estado da Baixa se está a referir a ausência de habitantes. A Baixa seria uma deserto à noite por não ter habitantes. Curioso, mais uma vez. Experimente-se passear às nove da noite na Lapa, bairro do centro de Lisboa onde ninguém contesta a ocupação quase absoluta do edificado com habitação – e habitada. Milhares de pessoas na rua, hã? E em Carnaxide ou Rio de Mouro, é festanças ao ar livre até às tantas – como se sabe. Onde serão esses tais bairros onde há “animação” na rua de noite? Não serão aqueles, como o Bairro Alto, onde a restauração abunda e o comércio abre à noite? E quem será que enche as ruas, os restaurantes, os bares, as lojas? Os habitantes do Bairro Alto ou visitantes?

O mesmo tipo de raciocínio viciado se aplica ao “repovoamento” da Baixa quando se defende que é necessário oferecer “habitação a custos controlados” para atrair os jovens. É, mais uma vez, desconhecer o facto de na última década a Baixa ter atraído, sem planos nem oferecimentos, muitos novos habitantes, na maioria entre os 25 e os 40 anos, que pagaram os preços de mercado e, em muitos dos casos, se encarregaram da reabilitação do edificado. O que a Baixa precisa para atrair mais gente e se manter viva não é, assim, choradinhos miserabilistas e ignaros nem “custos controlados”, mas intervenções ambientais e urbanísticas por parte da autarquia, no sentido de tornar a vida menos árdua a quem ali se instale. Menos tráfego e menos poluição e menos carros em cima dos passeios, uma via pública cuidada – e não, como agora, uma paródia de desmazelo absoluto –, uma recolha adequada de resíduos, e uma linha de financiamento específica – eficaz e célere, ao contrário das que existem -- para a realibilitação de edificado. E, naturalmente, comércio do século XXI, que se esforce por acompanhar e antecipar as necessidades dos potenciais clientes, em vez de culpar tudo todos da sua própria inépcia. (publicado na coluna Sermões Impossíveis da Notícias Magazine de 29 de Julho)

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