Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010
Palmira F. Silva

Em Setembro de 2008, altura em que todo o mundo tinha sido devidamente alertado para os perigos do aquecimento global, Rajendra Pachauri, o coordenador do Painel Intergovernmental para as Alterações Climáticas (IPCC), devotou-se a uma nova cruzada subordinada ao título da conferência que a lançou: «Global Warning: the impact of meat production and consumption on climate change».

 

Desde essa altura que o economista, que, como não podia deixar de ser, é vegetariano, nos exorta, em termos muito veementes, para comer menos carne elaborando sobre as catástrofes que se abaterão sobre a Terra se não nos convertermos à sua dieta.

 

Pachauri arregimentou uma série de vegetarianos para este cruzada, e pouco depois o Worldwatch Institute avisou os apreciadores de um bom bife de que afinal eram eles os culpados de virtualmente todos os males do mundo, das injustiças sociais à perda de biodiversidade:

 

«The human appetite for animal flesh is a driving force behind virtually every major category of environmental damage now threatening the human future: deforestation, erosion, fresh water scarcity, air and water pollution, climate change, biodiversity loss, social injustice, the destabilisation of communities and the spread of disease».


O mais recente cruzado nesta guerra à carne é Paul Mccartney que com Pachauri mimoseou em Dezembro o Parlamento Europeu com a audiência «Aquecimento Global e Directivas Alimentares: Menos Carne= Menor Aquecimento» para sensibilizar (carta em formato pdf) os eurodeputados para a necessidade de diminuir drasticamente o consumo de carne a penas de se concretizarem mais depressa os augúrios negros do último relatório do IPCC.

 

Mas ontem, a Nature revelou-nos que o perito da ONU - e o IPCC - estão inundados de críticas não só pelo alarmismo infundamentado em relação aos glaciares do Himalaia, que o último relatório do IPCC avisava irem derreter completamente nos próximos 25 anos como em relação às ligações de Pachauri com empresas que beneficiam das políticas que Pachauri urge nos governos mundiais.

 

Como é óbvio, não tenho dúvidas de que a pecuária, assim como todas as actividades humanas, é responsável pela libertação de gases de efeito de estufa (GEEs)*. Mas maça-me sobremaneira que se tente vender uma qualquer ideologia pessoal, neste caso o vegetarianismo, com avisos apocalíticos que contam apenas uma parte, a conveniente, da história.

 

De acordo com um relatório da FAO de finais de 2006, as emissões provenientes da pecuária geram cerca de 18% mais efeito de estufa que o sector dos transportes, produzindo, na altura, cerca de 65% do N2O e 37% do metano antropogénicos. O N2O é o gás hilariante na base do aviso de Paul Crutzen sobre a possibilidade de os biocombustíveis poderem agravar o efeito de estufa já que o óxido nitroso é formado na degradação bacteriana dos nitratos utilizados como fertilizantes.

 

Ou seja, a agricultura é igualmente responsável por emissões não despiciendas não só de N2O como de metano. Nomeadamente,  não é o gado mas a cultura de arroz uma das principais fontes antropogénicas de metano. Actualmente são libertados entre 300 a 400 mil milhões de toneladas de metano com origem antropogénica que correspondem a uma contribuição para o aquecimento global equivalente a cerca de 1/3 da correspondente ao CO2. Entre 50 a 100 mil milhões de toneladas têm origem no cultivo de arroz.

 

De acordo com o Center for International Earth Science Information Network (CIESIN), em 2020 serão necessários mais 350 milhões de toneladas de arroz anualmente para alimentar uma população crescente, ou seja, ver-se-à um aumento de mais de 50% da produção actual e, consequentemente, um aumento equivalente nas emissões de metano.

 

Ou seja, mesmo que fosse proibido o consumo de carne e a utilização de combustíveis fósseis, o aumento da população implica que as emissões de GEEs aumentarão sempre.

 

*O potencial de aquecimento global - Global warming potential (GWP)- de um GEE é uma medida relativa que compara o gás em questão com a mesma quantidade de dióxido de carbono (cujo potencial é definido como 1). O potencial de aquecimento global tem em conta não só a «eficácia» na absorção de radiação IV de um determinado GEE como o seu tempo de vida na atmosfera. Assim, para efeitos de comparação é necessário indicar qual o intervalo de tempo em questão caso contrário a comparação não faz sentido. Por exemplo, o metano tem um tempo de vida de 12 anos (degradando-se em CO2 e água) pelo que apresenta um GWP a 25 anos de 72, valor que diminui para 25 se o período considerado for um século, o intervalo de tempo normalmente associado aos GWPs. Na tabela seguinte são indicados os gases listados actualmente pelo IPCC como os principais GEEs (embora não só a lista não contemple a água, responsável por entre 60-90% do efeito de estufa, como  parece provável que a lista esteja incompleta...).
 

Gas
Fórmula
GWP (100 anos)
Dióxido de carbono
CO2

 

1
Metano
CH4

 

25
Óxido nitroso
N2O

 

298
Perfluorocarbonetos
CnF2n+2

 

7400 a 12200
Hidrofluorocarbonetos
CnHmF(2n+2-m)

 

120 a 14800
Hexafluoreto de enxofre
SF6

 

22800
Fonte IPCC, 2007
tags:
4 comentários:
De nuvens de fumo a 3 de Fevereiro de 2010 às 10:18
Cara Palmira, algumas notas:

Agricultura e gado

O problema é que 80% da soja cultivada a nível mundial é para alimentar gado e países como o Brasil desbastam floresta para cultivar soja.

Mais ainda, outra questão prende-se com a quantidade de água necessária por kilo de produto. No caso do gado é uma barbaridade de consumo.
Biocombustíveis
Os biocombustíveis são um desastre total, isso concordamos.
Gases de efeito de estufa

O vapor de água é considerado feed-back e não forcing, por isso não aparece.
Deixo aqui a tabela com núvens e H20

Removed absorbers Fraction LW Rad. Forcing

absorbed Tropo. (W/m2)
None 100% 0
H2O 64 (64, RC78) -56
Clouds 84 (86, RC78)
CO2 91 (88, RC78) -23
O3 97 (97, RC78)
Other GHG 98 -3
H2O+Clouds 34
H2O+CO2 47 -89
All except H2O+Clouds 85
All except H2O 66 (60-70, IPCC90)
All except CO2 26 (25, IPCC90)
All except O3 7
All except Other GHG 8
All 0%
Instant calculation, global mean, Jan. 1, 1979 RC78=Ramanathan and Coakley (1978)
‘All’ includes aerosols, O3 and other minor gases as additional absorbers.


De Palmira F. Silva a 3 de Fevereiro de 2010 às 10:48
Caro Nuvens:

Não tenho dúvidas que é necessário repensar a pecuária (e quiçá o nosso consumo de carne...). Apenas me maçam zelotas como Pachauri que não contam a história toda e usam essa parcialidade para promover as respectivas agendas.

Já agora, um relatório da FAO indica que cerca de 30% do solo terrestre é usado como pastagem permanente e cerca de 33% das terras aráveis são utilizadas na produção de rações animais.

De igual forma, a transformação de florestas em pastagens é uma das principais causas da deflorestação, especialmente na América Latina onde 70% de floresta amazónica foi transformada em pastagens. Por exemplo, cerca de 75% das emissões brasileiras de CO2 são provenientes das queimadas na Amazónia, realizadas principalmente para expandir a fronteira da pecuária (e em menor escala da cultura de soja). Como refere o relatório «O reino do Gado» publicado em Janeiro deste ano pela ONG Friends of the Earth (Amigos da Terra) :

«Quaisquer sejam os fatores de transformação e deslocamento das atividades agrícolas, a mudança no uso do solo na Amazônia é protagonizada pela pecuária. É na pata do boi que repercutem investimentos e alterações no consumo de alimentos ou de energia. (...) O Brasil ainda subestima as dimensões e as dinâmicas deste fenômeno».

Mais recentemente, as declarações de Nicolas Fabres, assessor de agroecologia da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), parecem indicar que pelo menos do Brasil os problemas foram identificados e que se tenta trabalhar uma solução, nomeadamente no que à desertificação diz respeito. De facto, um uso inadequado das pastagens acelerou em muitos locais, não apenas no Brasil, os processos de desertificação.

Mas não é apenas a produção de carne para alimentação que tem um impacto ambiental muito grande, todas as actividades humanas o têm...


De manuel bst a 3 de Fevereiro de 2010 às 18:29
Sim isso é tudo mundo Bonito

Mas algum de voçês sabe o peso das emissões humanas no total emitido actualmente no planeta.???

sim porque esses lobies mascarados de pseudo-instituições tentam-nos fazer crer que apenas os humanos sao responsaveis pela emissão de gases de efeiro estufa ....


e a actividade solar ,( manchas solares que fazemm variar a emissão de energia para a terra) entre outros factores naturais que nao sao considerados....

climategate
amazoniagate
geleiragate ....

Amigos, de todo o dioxido de carbono emitido na Terra, a Humanidade apenas é responsavel por 3%, o resto é produzido naturalmente .... este processo de aquecimento é tao natural como o aquecimento global que fez desaparecer a era glaciar ( ou ja havia actividade humana nessa altura???)



cumps


De Dorean Paxorales a 3 de Fevereiro de 2010 às 20:55
por mais voltas que se lhe dê, comemos demasiado. e carne ainda mais demasiado.
o artigo do guardian que linca começa por despistar  ao colocar no título "sunday roast". o sunday roast era uma tradição dos ingleses que não podiam comer carne todos os dias.
a democratização dos hábitos alimentares também traz destas.


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9

19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


artigos recentes

O que parece é?

têm medo de quê?

pobreza estrutural

Bons exemplos.

Era da era das discotecas...

dia c

10- Ryuichi Sakamoto

Também com prata da casa

É amanhã

(contorne a crise) | Vá à...

Como eu deixei de me preo...

Liliana Porter @Lisboa

9- António Pinho Vargas

MESA REDONDA | JOSEF ALBE...

"Auschwitz? Que se passou...

últimos comentários
claro que é
Lindissimo!
Caríssima, Espero que tenha ficado elucidada acer...
Na necessidade de estarem operacionais/preparados ...
Mraravilhoso. Venham mais 10 : ansiosamente espera...
sim, pedro, é.
Igualdade, liberdade e fraternidade. Hm...
Já agora, curiosamente, hoje é o Dia Internacional...
welcome, you are.
As intenções parecem-me boas e genuínas. A carênci...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds