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malacuecos

Há quem se encontre no sabor das madalenas com os prodígios da infância. Eu tenho, por exemplo, os malacuecos. Quer dizer, não tenho. Há décadas (várias, hélas) que não ponho o olho, quanto mais o dente, num malacueco. E duvido que, a materializar-se um à minha frente, o degustasse com o deleite que recordo. Muita coisa muda com o tempo e a idade, e uma é o paladar. Passa-se a gostar de brócolos, picante e peixe cru, por exemplo, e a odiar fritos. E os malacuecos são fritos. Na verdade, como percebi anos mais tarde, os malacuecos são (eram?) uma espécie de farturas. Ou de coscurões. Não sei bem. Havia uma entidade chamada “o homem dos malacuecos”, que se movia na praia algarvia onde veraneei em criança. O tal homem trazia os malacuecos numa caixa de folha e eu passava o dia a perguntar por ele à minha mãe. Estou a ver-me, como numa foto (será que vi essa foto?), aos três ou quatro anos, estendida de barriga para baixo na toalha, o sol a evaporar o mar da pele, os olhos numa bebedeira de luz e o malacueco, envolto num papel vegetal e polvilhado de açúcar (pouco açúcar, nunca gostei de coisas muito doces), na mão, intacto, antes da primeira dentada.

Não, não vou falar da perseguição das autoridades sanitárias às bolas de berlim estivais nem escandalizar-me com o facto de tantas coisas terem, pouco a pouco, deixado de existir ou sido proibidas. Era capaz de não ser, realmente, grande ideia comer na praia os deliciosos queijinhos do céu, massapão com recheio de doce de ovos, que a Dona Lúcia fazia e vendia pelo areal fora. Não faço ideia se alguma vez me fizeram mal, mas podiam muito bem ter feito, já que não há combinação menos apropriada que a dos ovos com o calor. Talvez o açúcar conservasse tudo, talvez não. Certo é que um dia, muito antes de a ASAE ter dado um ar das suas equipas armadas de shotguns, o homem dos malacuecos deixou de aparecer. E a Dona Lúcia abriu uma pastelaria em Albufeira e deixou de fazer a praia. Nunca mais comi queijinhos do céu tão bons como os dela. Nunca mais soube a que sabia um malacueco. Tenho uma vaga ideia – uma ideia vaga que se mistura com o som feliz das ondas e de um areal cheio e um futuro maravilhoso e interminável em que as férias eram tão grandes que no fim tinhamos vontade de voltar à escola, de encher o estojo com lápis e borrachas e afias novos e de aprender coisas diferentes e trazer os dedos sujos de tinta e um calo grande no dedo onde apoiávamos a caneta. É uma ideia. A ideia de uma iguaria extinta, de nome arrevesado (donde terá vindo esse crisma, malacueco?) que ninguém que eu conheça – além da minha família -- alguma vez provou. Às vezes, quando numa festa popular ou feira vejo uma banca de farturas, penso experimentar, para ver se é parecido. Se é aquilo. Mas olho para a frigideira cheia de óleo e para o creme claro que aloira e endurece na fritura e não avanço. Há sabores do passado que é melhor deixar quietos, como os amores de Verão que, no ditado que tanto ouvi, se enterram na areia. Como o Algarve da minha infância, dos hippies muito loiros a vender artesanato e do cheiro das bancas de fruta no largo de Albufeira e da casa da Dona Aurora alugada pelos meus pais onde no terraço branco, junto à mourisca chaminé, polvos secavam ao sol e às moscas, recortados no azul do oceano. Enterrado sob toneladas de betão e mau gosto, esse Algarve, como os malacuecos, é já outro mundo. (texto publicado na coluna 'Sermões Impossíveis' da Notícias Magazine de 5 de Agosto)

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