Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010
João Pinto e Castro

Quem quer que tenha escutado o que Almunia ontem disse ao anunciar o apoio da União Europeia à Grécia, entendeu que a insólita referência a Portugal serviu apenas o propósito de desvalorizar os problemas da Espanha.

Aparentemente, os espanhóis acreditam, ao contrário de nós, que: a) as opiniões das agências de rating e das autoridades comunitárias não são "inevitáveis como a chuva no inverno"; b) é mais apropriado falar a uma só voz para o exterior do que minar os esforços do governo nacional com declarações incendiárias.

Seja, como for, o episódio revela mais uma vez as contradições actuais da União Europeia: no mesmíssimo momento em que intervém para pôr cobro à especulação contra um país membro, a União Europeia fomenta-a contra outro, ainda por cima por iniciativa da própria Comissão Europeia. Não se esqueçam de agradecer a Barroso quando ele reaparecer por cá como candidato a Presidente da República.

Decididamente, o que está mesmo em causa é o arranjo institucional europeu. Como ontem Roubini recordou nas páginas do Financial Times, não pode haver união monetária estável e duradoura sem união fiscal e política.

11 comentários:
De Anónimo a 4 de Fevereiro de 2010 às 14:09
Antes de Almunia falar já a bolsa portuguesa estava em queda livre.


De Zé Carioca a 5 de Fevereiro de 2010 às 16:57
Já que J Pinto e Castro acha que "não pode haver união monetária estável e duradoura sem união fiscal e política," ele deveria explicar:

* se é contra a união monetária

ou

* se é a favor da união política e fiscal.

Agradece-se resposta clara, breve e expedita.


De fernando antolin a 4 de Fevereiro de 2010 às 16:16
Portanto agora é o Barroso e o resto da UE que nos andam a tramar ? Marotos, mais uns para aderir ao botabaixismo e maledicência...


De Nuno Gaspar a 4 de Fevereiro de 2010 às 16:25
" Não se esqueçam de agradecer a Barroso "

Eu não me esqueço é de ver este Almunia, cara de bombeiro com caixa de fósforos no bolso, barbudo, à frente do PSOE.


De JMJ a 4 de Fevereiro de 2010 às 16:43
Essa do "por nós ou contra Portugal" é uma maravilha!

Não é nova - já Salazar se tinha lembrado dessa - mas é muito boa...

Mais um bocadinho e estão a dizer que o porreiro do tratado de Lisboa é que tem a culpa. "Contradições actuais da União Europeia"? já acordaram para a realidade ou ainda se vão virar para o outro lado a ver se ainda pegam no sono?

Se ao menos alguém, em tempo algum, tivesse dito alguma coisa sobre este projecto europeu e os seus perigos...


De texticulos a 4 de Fevereiro de 2010 às 18:25
E de caminho mata-se o mensageiro! :)


De JMG a 5 de Fevereiro de 2010 às 01:29
Ou seja, o euro, que todos os dias dá provas de ter sido uma péssima ideia, passa a ser uma ideia boa se houver união política. Porquê então a falência da Califórnia?


De Nuno a 5 de Fevereiro de 2010 às 10:12
A união política e fiscal é essencial para o sucesso da zona euro, duvido é que haja vontade política para tal. Actualmente estamos numa crise de procura, as empresas têm dificuldades e as receitas fiscais sofrem com isso. O sector privado não investe, tem de ser o público a investir/gastar, ou seja a estimular fiscalmente a economia gerando déficits na expectativa de gerar o crowding in do sector privado e arrancar a economia. Se como na califórnia a preocupação for ter deficit zero a falência será uma perspectiva bem provável.


De Nuno Gaspar a 5 de Fevereiro de 2010 às 11:52
Não. 
Mesmo com diminuição da procura não produzimos o que consumimos.  O estado precisa é de deixar de ser um agente intimidatório e burocrático, com miríades de leis, licenciamentos, fiscalizações, taxas e impostos e passar a ser mais pedagógico e confiante nos cidadãos empreendedores. Só assim alguém poderá interessar-se por investir neste país (além das cadeias de retalho que distribuem ao consumidor o que é produzido em países onde a iniciativa é tratada com mais carinho).


De Nuno a 5 de Fevereiro de 2010 às 14:46
Portanto a actual crise mundial resolve-mo-la nós aqui na terrinha  com menos regulação e menos impostos, é isso? Com menos impostos e menos regulação vêm aí os privados todos a correr investir aqui, apesar do excesso de capacidade instalada!
E claro que após este cenário idilico ocorrer nós exportamos o produto desse investimento para Marte! 
Curiosamente menos regulação e menos impostos foi a receita seguida nos EUA com G.W.Bush, como o sucesso que se conhece!
Faz lembrar o médico que prescreve sp o mm tratamento independentemente da doença!

 


De Nuno Gaspar a 5 de Fevereiro de 2010 às 15:48
"nós exportamos o produto desse investimento para Marte! "


O nosso problema é diferente dos outros. Se não conseguimos exportar mais  basta-nos importar menos. Se não temos moeda para  desvalorizar que dificulte as importações temos que tratar com decência quem arrisca o que tem para criar algo de novo e não atiçar cães de tipo ASAE sobre tudo o que mexe. Doutra forma temos que continuar a andar de mão estendida atrás dos alemães para que nos sustentem.


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