Sábado, 6 de Fevereiro de 2010
Rogério da Costa Pereira

Eça traçou-nos o perfil à espadeirada. Se percorrermos os seus romances, contos, cartas, acabamos por dar de caras, aqui e ali, com o filho da mãe e com a prima, com o doutor e com o vizinho. O deputado e a puta. O sério e o trafulha. O circunspecto e o fogoso. O cão e o gato. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Estamos lá todos. Ainda que sem absoluta correspondência, é raro não obter, cortando daqui e colando ali, o retrato de alguém conhecido. Não há defeito ou feitio que Eça não tenha passado para o papel.

De todos os retratos traçados, o mais marcante – por ser o que mais predomina na selva – é o de Dâmaso Cândido de Salcede, o da adresse riscada e corrigida para Grand Hôtel, Boulevard des Capucines, Chambre nº 103.

Ao longo da vida, pude encontrar aqui e ali partes desse ser untuoso, escorregadio e gelatinoso. Desse sujeito em forma de jogo de aparências, onde nada é o que parece mas em quem, paradoxalmente, tudo acaba por ser deliciosamente óbvio. Esses dâmasos da vida encontram-se por todo o lado, aparecem-nos à frente em qualquer tipo de circunstância e ficam ali, presos ao chão por uma mola, a fazer poing-poing-poing.

A partir de certa altura, comecei a encará-los como um jogo com a natureza. A mãe dita coloca-me à frente um dâmaso, ou um braço dele. Nas olheiras de uma segunda-feira de manhã ou nos fumos de um sábado à noite. Na caixa de um supermercado ou de beca vestida. A qualquer momento, em qualquer lugar. É um pacto que temos, eu e a essência. Ela, quando lhe dá na gana, atira-me com um. A minha comissão é dar com ele, apontá-lo a dedo. Normalmente ganho, outras vezes aceito ter perdido, que nem todos são assim tão óbvios – atributo que ganharam quando perceberam o óbvios que são. Folha daqui, ramo dacolá e vão tapando as vergonhas.

Tudo isto para dizer que nunca – mas nunca, mesmo – tinha pensado encontrar O ser em toda a sua grandeza, de forma tão aparatosa, tão óbvia e tão declarada como me aconteceu recentemente. Ao primeiro vislumbre, que nem foi visual, ouvi logo do imenso clarão negro que dali emanava. E o meu coração acelerou – tu queres ver?, pensei.

Era (é) de forma tão esplêndida, o espécimen, que até fiquei algo enfeitiçado, por dessa feita me estar a ser dado como que um prémio por anos e anos de esforço e dedicação à cata de. Parecia o modelo de Eça, o da adresse corrigida ele mesmo. O original tão original que fazia o original parecer incompleto. Até errado. Eis o homem, pensei. E agora vou escrever um livro.

Apareceu de abraço sempre armado, de elogio sebento na ponta da língua e da pena. Mas, dissesse o indivíduo o que dissesse, escrevesse sobre o que escrevesse, eu só conseguia ler algo como isto: “Fizemos armas, bric-a-brac, discutimos... Um dia chic! Amanhã tenho uma manhã de trabalho com o Maia... Vamos às colchas”. Sentei-me e esperei e nunca fui às colchas com ele. Avisei quem tinha de avisar e quem podia dispor-se a ir às colchas. Esperei sentado. Não pelo tempo que a coisa ia demorar – que não perspectivava ser muito –, mas porque queria assistir de cadeira ao espectáculo que eu sabia inevitável, esperando que ninguém querido se magoasse.

Lamentavelmente, não foi assim. Talvez o meu aviso – desculpei-me – tenha sido um pouco tímido, talvez as pessoas não lhe tenham ligado muito. Fosse o que fosse, confessei-me depois, a verdade é quando a coisa se deu – o artigo plantado na Corneta do Diabo – até eu fui surpreendido, sem tempo de ir a correr ao Palma Cavalão (também esta curiosa personagem, director da Corneta, começa por aí a proliferar, qualquer dia dedico-lhe uns louvores).

Não era nada disso. Afinal, também o Eça tinha ficado aquém, percebi então. E eu com ele. Estávamos perante algo de novo, mistura de rematada insídia, intrujice cobarde e tiro nas costas. Qual Cavalão qual quê? O que eu tinha entre mãos era algo bem mais complexo. Não exigia o recurso – ainda que metafórico – a directores de jornais como o Cavalão, corruptos e caluniadores. O caso que se me apresentava, e essa foi a minha falha, é que aquele Dâmaso era auto-suficiente. Um Dâmaso-Cavalão. E nesse caso – pus-me nos sapatos dele –, para quê recorrer a outsorcing?

Com esta mistura explosiva é de chamar cópia ao original, que esse que eu conhecia e tinha antevisto e aprendido era só o velho e gasto Dâmaso. Cobarde, repelente, filho-de-agiota-agiota-é, vigarista, aldrabão, impostor, egoísta, sem réstia de ser homem – um cabrão, em suma. Este, sendo tudo isso, era mais ainda. Uma verdadeira e inútil aberração, espécie de prejuízo de pôr um burro a fornicar uma égua.

Andava ele, soube-se depois, de porta em porta a dizer: eu estive lá e sei dos recônditos. Eu conto! Quem dá mais? Não te chega? Não é suficientemente escabroso? – olha que ele chamou àquele filho da puta. Toda a gente já sabe? Então eu tenho aqui outro segredinho acabado de inventar – podes chamar-lhe investigação, se o publicares. Dou-te o que quiseres, quando quiseres, onde quiseres. É preciso é que me pagues com alguma coisa que me enfraqueça a dor que sinto. A dor de não ser gente.

(eu) Eu não sei o resto da história – que ainda está para vir –, mas adivinho-a. Nada te resolverá o problema, minúscula realidade!, nem à esquerda nem à direita. Nasceste com essa dor de não ser gente e há-de ser essa dor que te há-de enterrar, num cemitério deserto, sem ninguém a acompanhar os teus restos com forma de homem sem nunca o teres sido.

E até na morte serás falso.

É que nas costas dos outros vemos as nossas. Não sabes (eu sei que não), mas ensino-te se puderes: por mais que digamos mal uns dos outros – aquele “nós certos, eles errados” que te chega às ventas –, somos homens e mulheres. Tu és um verme e a gente – gente! – já percebeu.

Nem chegas a ser cabrão, que nem nunca terás quem te possa pôr os cornos. És apenas um remorso de gente.

(também no homem-garnisé)

32 comentários:
De Isabel Moreira a 6 de Fevereiro de 2010 às 02:15
absolutamente maravilhoso.


De Rogério da Costa Pereira a 6 de Fevereiro de 2010 às 02:40
Como diria o Dâmaso-Cavalão: bondade tua, minha querida. Abraços.

(agora a sério: ganda beijo)


De Alexandra Tavares Teles a 6 de Fevereiro de 2010 às 17:01
ai é? pois eu também de digo, absolutamente maravilhoso, RCP


De Anónimo a 6 de Fevereiro de 2010 às 02:57
</a>Não há prosa poética, exegese inflamada ou alegoria escatológica que salve o seu Sócrates. E o facto de já nem procurar defendê-lo com um mínimo de racionalidade sinaliza o finzinho da personagenzinha. Não é trágico: é apenas elucidativo dos órfãos que já choram a sua triste sortezinha… Olhe, console-se: é a vida, diria (outro) mesmo mesmo engenheiro.</a>


De Jorge Bucha a 6 de Fevereiro de 2010 às 03:36
Quanta mágoa! Uma bela carta de amor, sem dúvida.


De Ana Matos Pires a 6 de Fevereiro de 2010 às 03:37
Obrigada, Rogério.


De Marco a 6 de Fevereiro de 2010 às 03:53
Porra, que bom a estas horas ler coisas assim...

A humilhação é total, impiedosa e brutal. Quase esperei ouvir, no finalzinho, um morra Dantas, morra, pum.

Perdoe a ignorância, mas quem é, afinal, Rogério da Costa Pereira? Jornalista, colunista? Além de blogs, escreve mais onde? Tem alguma coisa em hard-cover que se possa comprar?


De Rogério da Costa Pereira a 6 de Fevereiro de 2010 às 20:45
aqui, só aqui. A jugular paga-me muito bem a exclusividade.


De nanda a 6 de Fevereiro de 2010 às 04:05
A síntese perfeita: "ser untuoso, escorregadio e gelatinoso".

Parabéns! Hoje no Jugular leu-se literatura.


De lampiao a 6 de Fevereiro de 2010 às 05:00
tu sempre foste bom a fazer de mau. ao contrário do FNV eheheheheeheh


De Eduardo Pitta a 6 de Fevereiro de 2010 às 10:39
Caro Roger, perfeito! Grande abraço, Eduardo


De Anónimo a 6 de Fevereiro de 2010 às 10:59
A prosa pode ser muito bonita mas, infelizmente, e por muito que lhe custe,não altera a realidade!


De Irene Pimentel a 6 de Fevereiro de 2010 às 11:04
Absolutamente delicioso e maravilhosamente bem escrito


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9

19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


artigos recentes

O que parece é?

têm medo de quê?

pobreza estrutural

Bons exemplos.

Era da era das discotecas...

dia c

10- Ryuichi Sakamoto

Também com prata da casa

É amanhã

(contorne a crise) | Vá à...

Como eu deixei de me preo...

Liliana Porter @Lisboa

9- António Pinho Vargas

MESA REDONDA | JOSEF ALBE...

"Auschwitz? Que se passou...

últimos comentários
claro que é
Lindissimo!
Caríssima, Espero que tenha ficado elucidada acer...
Na necessidade de estarem operacionais/preparados ...
Mraravilhoso. Venham mais 10 : ansiosamente espera...
sim, pedro, é.
Igualdade, liberdade e fraternidade. Hm...
Já agora, curiosamente, hoje é o Dia Internacional...
welcome, you are.
As intenções parecem-me boas e genuínas. A carênci...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds