Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010
Palmira F. Silva

Ás mulheres portuguêsas / manifesto feminista de Anna de Castro Osório. - Lisboa : Editora Viúva Tavares Cardoso, 1905.

Em 23 de Maio de 2011 passarão 100 anos da criação do Técnico. Para a preparação condigna do centenário, estamos a construir, em colaboração com grupos de investigação de outras Escolas, várias timelines temáticas. Um dos acontecimentos que gostaria de incluir na timeline geral revelou-se complicado confirmar: a data de matrícula da primeira mulher no Técnico, uma escola que começou estritamente masculina no dealbar da primeira República. Pensar-se-ia que esse acontecimento seria devidamente assinalado à época mas tem sido complicado identificar inequivocamente a façanha, algo que não me deveria surpreender uma vez que boa parte da nossa historiografia, pelo menos nas obras de referência (dicionários, enciclopédias, cronologias, etc.) a que o comum dos mortais tem acesso, é quasi totalmente omissa em relação ao papel das mulheres na sociedade nacional. 

 

Poder-se-ia pensar que tal era consequência do revisionismo histórico do regime fascista que intervalou, longamente, as duas repúblicas mas, assim de repente,  lembro-me, sei lá, do volume da História de Portugal do José Mattoso dedicado ao período entre 1890-1926, escrito integralmente no masculino quando este foi o momento da nossa História em que emergiram os primeiros movimentos feministas.  De igual forma, nem o Dicionário de História do Estado Novo, coordenado por Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, nem a continuação do Dicionário de História de Portugal, organizada por António Barreto e Maria Filomena Mónica, nos dão informação sobre a relevância feminina nesse período tão determinante.

 

No entanto, mesmo antes da implantação da República, os movimentos feministas fervilhavam em Portugal, p.e.,  foi criada em 1906 a Secção Feminista da Liga Portuguesa da Paz, o Grupo Português de Estudos Feministas (1907) e a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (1908), movimentos que se multiplicaram depois de 5 de Outubro de 1910. 

 

Aliás, não fora outras fontes, ter-me-ia passado completamente ao lado o facto de a primeira mulher a votar na Europa ter sido uma portuguesa, enfim numa singularidade que demoraria duas décadas a ter continuidade*. 

 

Deixo a minha perplexidade para os e as jugulares da área: onde, na historiografia nacional, está consagrado o papel de, só para citar alguns nomes, Adelaide Cabete, Albertina Paraíso, Ana de Castro Osório, Aureliana Teixeira Bastos, Carolina Beatriz Ângelo, Cláudia de Campos, Constança Dias, Domitila de Carvalho, Emília Patacho, Maria do Carmo Lopes, Maria Veleda, Olga Sarmento da Silveira, Sofia Quintino ou Virgínia Quaresma? Porquê este silêncio sobre mulheres a quem devemos tanta da dura conquista de direitos cívicos, legais e políticos para as mulheres?

 

*De facto, a médica (feminista) Carolina Beatriz Ângelo, viúva e mãe, votou nas eleições para a Assembleia Constituinte de 28 de Maio de 1911, invocando a sua qualidade de chefe de família já que a lei da época reconhecia direito de voto a «cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família». João Osório de Castro, pai de Ana Castro Osório, foi o juiz que lhe deferiu a pretensão por entender que «cidadãos portugueses» abrangia igualmente as mulheres. Para não haver mais «confusões», a Lei n.º 3, de 3 de Julho de 1913, especificava que apenas tinham direito de voto os chefes de família do sexo masculino alfabetizados. O direito de voto das mulheres só veio a ser consagrado em 1931 e Adelaide Cabete foi então a primeira mulher a votar, em Angola. Adelaide Cabete,  viúva, médica, activista e dirigente feminina,  foi uma das fundadoras da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, CNMP, em 1914.

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10 comentários:
De antónio borges a 10 de Fevereiro de 2010 às 14:41
Posso prestar-lhe esta informação histórica, tal como me foi transmitida por uma tia minha, das primeiras mulheres engenheiras do Técnico. Não em termos de ordem de matrícula, mas por ordem de primeiras mulheres licenciadas:

1ª Eng.ª Maria Amélia Chaves - engenharia civil (licenciada ainda sob a Direcção de Duarte Pacheco). Esta senhora terá perto de 100 anos e, julgamos, ainda será viva. Foi homenageada pela Ordem dos Engenheiros aquando dos seus 80 anos.

2.ª Eng.ª Isabel Gago - engenharia química.

3.ª e 4.ª (a minha tia tem dúvidas quanto à ordem de licenciatura) minha tia Maria Antónia Borges Sette Pimenta - engenharia química (e primeira mulher head of international relations da Junta de Energia Nuclear) - e Eng.ª Margarida Lamy - engenharia electrotécnica.

Segundo sou informado, a Ordem dos Engenheiros disporá desta informação devidamente registada.


De Palmira F. Silva a 10 de Fevereiro de 2010 às 15:26
Olá António:

Obrigado pela informação, a dúvida é mesmo na inscrição e tem a ver com uma Maria que nalguns documentos é referida como Mário. A primeira licenciada concluiu o curso em 1937, três anos dp da matrícula da Isabel Gago, que viria a ser a primeira docente do Técnico.


De Julia Coutinho a 7 de Outubro de 2010 às 20:36

Palmira, eu conheço a Eng Maria Amélia Chaves, já a entrevistei e estou a preparar um seu perfil para a proxima publicação da revista Faces de Eva.
Ela faz 100 anos em Janeiro próximo.
Posso dar-te mais referências.
Foi a 1ª engenheira civil do IST.


De Palmira F. Silva a 7 de Outubro de 2010 às 20:42
Boa, amanhã ligo-te :)


De Luís Lavoura a 10 de Fevereiro de 2010 às 15:04
De onde se conclui que é perfeitamente espúrio o facto de ter sido em Portugal que pela primeira vez uma mulher votou, dado que esse direito de voto - atribuído a apenas uma mulher isolada - apenas foi concedido mediante uma peculiar interpretação judicial de uma lei que viria prontamente a ser modificada por forma a que a coisa não se repetisse.


De Irene Pimentel a 10 de Fevereiro de 2010 às 15:57
obrigada palmira. informações que vou guardar, tal como as do comentário acima.


De Dimas Pestana a 10 de Fevereiro de 2010 às 16:41
Sem que tenha percebido o porquê um sorriso inundou os meus lábios ao ver a definição de feminismo.


Estaria eu a rir ?


De Shyznogud a 10 de Fevereiro de 2010 às 17:59
Em relação ao direito de voto, cabe acrescentar q  alteração de 1931 atribui direito de voto às mulheres diplomadas com cursos superiores ou secundários, enqto aos homens apenas se exigia q soubessem ler e escrever.


De Zé Carioca a 10 de Fevereiro de 2010 às 22:05
...timeline... diz Palmira.


E por que não cronologia, ou cronograma?


Ignorância do vocabulário português, pedantice ou algo que me escapa?


De Palmira F. Silva a 10 de Fevereiro de 2010 às 22:43
Porque não é uma cronologia nem um cronograma. è mesmo uma banda de tempo como lhe chamam os militares e eu me recuso a chamar :)


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