Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010
João Pinto e Castro

A evidente carência de factos jurídicos do caso Sol é largamente compensada pela abundância de factos políticos. 

Estes últimos podem ser divididos em factos gasosos e factos sólidos.
Os factos gasosos envolvem frases e meias frases supostamente escutadas e convenientemente fatiadas e embaladas por polícias e juízes, que, apesar do esmero posto na confecção, em si mesmas nada indiciam para além de business as usual.
Para dar sequência à narrativa foi-lhes acrescentada a voz-off dos despachos. Neles, e só neles, reside o enredo, e é essa interpretação que aponta para o alegado envolvimento do governo no negócio – uma dentre muitas possíveis – que querem por-nos a discutir.
Sem legenda não há lenda.
Mas, por outro lado, temos os factos sólidos, mais abundantes, mais indisputáveis e mais consistentes.
Incluem uma história persistente de investigações orientadas para perseguir o actual primeiro-ministro, quebrando sempre que necessário o segredo de justiça, pondo meio país sob escuta, desrespeitando sempre que possível os mais elementares direitos à privacidade e ao bom nome e valendo-se de uma teia de cumplicidades nos media e nos partidos da oposição que, a dada altura, envolveu a própria Presidência da República.
Isto a gente vê todos os dias na televisão, na rádio, nos jornais e na internet sem precisar (aliás, de preferência dispensando) alguém que nos explique.
Não falta, como se vê, matéria política para discutir neste triste caso. Por que haveremos então, pergunto eu, de concentrar as nossas atenções nos factos gasosos, se há matéria tão sólida para alimentar as almas sedentas de sonho e fantasia?
Fico a aguardar esclarecimentos do untuoso Rangel e do melífluo Louçã, auto-nomeados porta-vozes da república dos bufos.

8 comentários:
De pedro frederico a 10 de Fevereiro de 2010 às 15:16
Boa tarde, continue, vai no bom caminho...
"convenientemente fatiadas e embaladas por polícias e juízes"...de facto para um apologista da liberdade e do estado de direito, como o senhor, já vejo motivos para processar esses indivíduos...tem o meu apoio.


De Ana Matos Pires a 10 de Fevereiro de 2010 às 15:52
Ao ler o post, João, lembrei-me do que me disseram há bem pouco tempo: "Como é que querias que fosse, sem quebra de segredo de justiça não havia notícias"


De nuvens de fumo a 10 de Fevereiro de 2010 às 16:56
caro JPC

Rangel, que me recorda estranhamente o filme "um porquinho chamado Babe", sem que eu entenda muito bem  porque, já apresentou a sua candidatura à liderança do PSD. ( e eu até gostei do porquinho )

Seja como for , está explicada a sua alucinação do PE, quer por leituras excessivas da longa obra de Maquiavel, quer por ter vergonha na cara e estar de saída.
Dada a natureza do coiso, suspeito da primeira


De jb a 10 de Fevereiro de 2010 às 17:00
Graças a Deus não citou Kant desta vez...


De Anónimo a 10 de Fevereiro de 2010 às 21:39
Excelente post.


De Carmim a 10 de Fevereiro de 2010 às 23:25
Como é que se engana tanta gente durante tante tempo, é um enigma que não consigo resolver.

Que gente tão medíocre que tem aquele partido!    


De David Fernandes a 11 de Fevereiro de 2010 às 11:11
Caro JPC

"untuoso" é daquele tipo de expressão que não compreendo em quem pretende ser lido com alguma seriedade; mas posso estar enganado quanto ao objectivo, até porque tem uma série de "concordantes".

Cada vez se distinguem menos da "corporação"; curiosamente os comentários são cada vez menos, tal como os posts de algumas das pessoas que ainda escreviam "coisa com coisa".

Cumprimentos
David


De mario a 12 de Fevereiro de 2010 às 00:44
Ainda temos pessoas lucidas neste Pais.E como precisamos delas.


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