Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010
Rogério da Costa Pereira

Parece "que um dos membros do Simplex mostrou ao Correio da Manhã documentos enviados ao longo de meses por João Galamba". Entretanto, dando uma volta pela blogosfera — ao calhas — verifico que, por exemplo, Carlos Santos, Professor de Economia e Analista de Política Internacional — assim se anuncia —, diz num dos seus blogues que por uma questão de "ética pessoal" não comenta este texto de Eduardo Dâmaso (vou evitar fazer piadas dirigidas ao nome do senhor e nem sequer farei qualquer alusão ao facto de ser director-adjunto de um jornal e de esse jornal ser o Correio da Manhã).

Por sua vez, Dâmaso, na sua coluna — o tal texto que professor e analista não comenta(m) —, fala em violação dos "valores da ética republicana". Com ética a jorrar pelos ouvidos, comprei o jornal — é verdade, comprei mesmo —, não resisti ao teaser e, como também estive no Simplex, quero mesmo muito entender que raio andei eu a perder, que parece — a fazer fé no texto do Dâmaso (que nome, céus, que nome; mas eu resisto!) — que andou por ali coisa grossa.

Na "investigação do CM" (assim lhe chamam), diz-se, além do mais — e até faz de subtítulo —, que “Sócrates foi apoiado por blogues alimentados em informação e argumentários feitos por assessores”. A frase é de pasmar, há mesmo alguém — três jornalistas, pelo menos — que se espantam com o facto de assessores fornecerem informação para blogues de campanha. De resto, estivesse o arremedo de garganta funda que lhes forneceu o texto um pouquinho mais atento e até teria reparado que com ele integraram o blogue de apoio alguns assessores. Ou seja, havia assessores a escrever no blogue. Só isto já seria, pelos vistos, notícia. Dito por outras palavras, a notícia vira notícia. E a nova notícia é que um assessor não pode assessorar.

Ultrapassado o subtítulo — começo sempre por aí —, avanço para o corpo da notícia que antevejo grave, tendo em conta o título — “Campanha com meios públicos”. Aí se alega que os tais assessores “usaram o seu tempo, pago pelo erário público, meios informáticos e informação privilegiada para produzir propaganda”. Quanto a esta imputação, que é sumariamente grave, pouco adiantarei, que seria dar pérolas a porcos. Apenas digo que dos mails que foram divulgados, que terão sido parte do todo ao qual eu, como membro do Simplex, tive acesso, não se pode retirar tal conclusão. O facto de o dia ter 24 horas talvez explique alguma coisa, mas quem sou eu para andar a desmamar meninos? Confesso que a meio da campanha fui jantar com o Galamba, mas em vez de documentos o gajo levou-me foi a um restaurante em Monchique (pagámos a meias) – comemos tão bem que nem sei até que ponto não violámos uma qualquer lei deste novo viver republicano.

Voltando à vaca fria, é igualmente de espantar a forma como se gera uma notícia. Há pois uma mistura de pinguim — por certo um gajo sem qualquer resquício de "ética pessoal", ao contrário do professor atrás citado — que revela as entranhas de um blogue. Mostra os mails que se trocaram, as estratégias que se montaram. A razão só a figurinha com boca de megafone a poderá dar. Esperava uma gratificação e não lha deram? Queria ser ministro, secretário de estado? Queria ser assessor, tu queres ver? Não andou lá por crença mas à espera de recompensa?

Por certo, teria muito — o naco de gente — a aprender com Carlos Santos, ético pessoal, analista e professor. Esse ensinar-lhe-ia que ética pessoal é reserva sim, mas não reserva mental.

Lido o texto — maravilhosamente romanceado —, e depois de todos aqueles factos e contrafactos, deparo-me com as colunas superiores, destacadas a vermelho. Por uma delas, qual não é o meu espanto, verifico que a folia continua. Sob o título “Blogues Depois do Simplex” elucida-se: “Os mesmos protagonistas do Simplex criaram outros blogues, onde os conteúdos são também muito favoráveis ao Governo. Entre eles, o País Relativo, Valor das Ideias e a Regra do Jogo”. Vem-me novamente à cabeça a notícia principal, onde se diz que “O blogue Simplex criado em Junho de 2009 para apoiar a candidatura de José Sócrates a primeiro-ministro foi alimentado por meios públicos a partir do Governo”. Recordo(-me) que o Valor das Ideias é da autoria do Carlos Santos e que a Regra do Jogo foi um blogue fundado, logo após as eleições, pelo mesmo ético pessoal, professor e analista. Neste ponto, só me posso solidarizar com o Carlos Santos e esperar que encontre depressa o misto de bufo e bufão que andou a despejar textos e mails privados pelos jornais. Se me acontecesse assim algo a mim, eu não gostaria. E garanto que a coisa não ficaria pelo papel de um jornal.

(não confirmo nem desminto a utilização de meios dos Estado na redacção deste post)

Adenda: fui agora ao Simplex e verifico que, afinal, o Carlos Santos agora já não participou naquilo. Caramba, eu quase que jurava. Deixa cá ir ver aos mails, se calhar era Carlos outra-coisa-qualquer e eu estou a fazer confusão. (Tudo se apaga, nada se tranforma)


52 comentários:
De Guilherme Pereira a 17 de Fevereiro de 2010 às 12:17

BUFARIA - eis um tema que o Bastonário da Ordem dos Advogados Marinho Pinto tão bem tratou em texto publicicado no JN, de que não resisto e citar esta parte:

"Nos tempos do Estado Novo usava-se esse termo para designar as pessoas que davam informações à polícia política sem que ninguém desconfiasse delas. Geralmente eram até da confiança das vítimas. Faziam delação às escondidas, por dinheiro ou simplesmente para tramar os visados. Agora continua-se a denunciar pessoas a quem as possa tramar. Os "bufos" são os informadores privilegiados dessa nova polícia de costumes em que se transformaram certos órgãos de informação de Lisboa."


De Porfírio Silva a 17 de Fevereiro de 2010 às 12:27
Guilherme, "o sem que ninguém desconfiasse delas" é que estraga tudo. Nós não desconfiamos...


De Guilherme Pereira a 17 de Fevereiro de 2010 às 12:39
Boa, Porfírio!...

....sucede que a frase que comentaste é do Marinho Pinto, e ele sabe PESSOALMENTE do que fala: em Coimbra, na faculdade, foi ele mesmo vítima de bufos que o denunciaram e à pala disso malhou com os ossos na cadeia.

Idem ocorreu comigo: na Fac. de Letras ( crise académica de 69) tinhamos entre nós um magrizelas imberbe que não faltava a qualquer manif. ou acção nossas nesses tempos difíceis, mas inesquecíveis em partes iguais - sucede que só depois do 25 de Abril descobrimos todos, compulsados os nossos processos da PIDE, que afinal o magrizelas era informador dos gajos. Nunca dersconfiámos: o tipo era um actor genial e ocupa hoje um destacado tacho numa empresa pública ( nomeado pelo governo Cavaco), surge volta e meia na TV a perorar...e já não é magrizelas. Enfatuado, gravata da boa, palavra na ponta da língua, sermões de democracia, por aí adiante.

Coisas, Porfírio...


 


De Porfírio Silva a 17 de Fevereiro de 2010 às 13:27
Claro que sim, Guilherme. Eu estava apenas a destacar as duas fases do bufo: antes de desconfiarmos, depois de sabermos...


De Irene Pimentel a 17 de Fevereiro de 2010 às 12:25
Muito bom post, Rogério.
Também fui do simplex, Rogério. E como tu, parece que perdi alguma coisa.
Agora a sério, isto é absolutamente repugnante. O bufo é inqualificável. E que jornalismo é este, baseado mais uma vez na bufaria?
Será que posso continuar a vota no PS? Será que posso continuar a escrever em blogues? Será que as mentes totalitárias já tomaram conta de tudo?
Como sou optimista, acho que não, e vou continuar a fazer tudo como até aqui.


De Miguel Vale de Almeida a 17 de Fevereiro de 2010 às 14:22
É isso mesmo, Irene. (Fico tão parvo com estas coisas que nem sei o que dizer. E a gente cruza-se com gente destas todos os dias na rua. Resmas delas. Bolas)


De Anónimo a 17 de Fevereiro de 2010 às 15:41
Meu Deus, que horrrooor, que jornalismooo, que gente, ai... não posso mais.
Pena faltarem tantso escrúpulos quando se fala na falta de vergonha de dirigentes socialistas.


De Ana Matos Pires a 17 de Fevereiro de 2010 às 12:29
Só um apontamento, curiosamente o País Relativo é, se a memória não me falha, de... 2003.


Qto ao assunto propriamente dito, enfim, sem comentários.


De Isabel Moreira a 17 de Fevereiro de 2010 às 12:36
muito bem. não fui do simplex. não tenho partido político. espero, se me apetecer, ter a liberdade de escolher ter. espero, se me apetecer, ter a liberdade de fazer campanha por quem quiser. isto é o totalitarismo instalado. e reproduzido - não faço links - por quem escreve, e bem, com informações de deputados da máquina do PSD, paga pela estado e de outros partidos. e então? passei a saber que quem é assessor não pode opinar nem trocar opiniões com o membros do partido para quem faz campanha. isto aplicado à malta toda de todos os partidos, todos eles pagos por todos nós, era giro.


De Anónimo a 17 de Fevereiro de 2010 às 15:42
"não tenho partido político"
ahahahahaha nem dava jeito...


De Lampião a 17 de Fevereiro de 2010 às 12:38
vou já comprar a bola, como nesse blogue acho que só falei de futebol, provavelmente o bufo já as lá levou. como tb era assessor, ou coisa parecida, e não carreei informação política será que vou ser acusado de em vez de política ter falado de futebol? ó bufo, o que é que vexa acha?


De Morgadinho a 17 de Fevereiro de 2010 às 13:00
Assessores contratados para prestar apoio em funções públicas no Governo e Administração Pública, presume-se que pelas suas qualidades profissionais e/ou académicas, dedicavam parte do seu tempo a utilizar esses mesmos cargos e funções públicas, bem como a informação que obtinha através do exercício desses cargos, para fazer política partidária transmitindo esse argumentário e documentos a terceiros para fins propagandísticos. Nada a apontar? Ninguém no Jugular tem o mínimo sobressalto sobre esta matéria? Incrível.


De Anónimo a 17 de Fevereiro de 2010 às 13:08
Leitura sugerida ao Morgadinho

"Só pode viver numa realidade paralela quem se escandaliza por um blog de campanha da simpatia do partido que está no poder fazer uso das competências de assessores de governo. Estarão os assessores a gastar em campanha o tempo que deveria ser gasto a servir a população? Mas não é isso que fazem, durante a campanha eleitoral e fora dela, os líderes do governo? Aliás, visto que os blogs vivem sobretudo nos dias úteis, não será isto uma prova de que quase todos os bloggers se aproveitam dos recursos do Estado (ou de empresas privadas) para fins pessoais, mesmo quando não têm interesses partidários?* Estarão a abusar do erário público? Mas algum jornalista de investigação fez as contas? Montar um blog não custa dinheiro e todos os ministérios preparam documentos de propaganda/informação, mesmo se não houvesse blogs. Estarão os autores do blog a ser "comprados"? Mas alguém deixaria de usar uma informação útil para a causa que defende só porque a fonte é governamental? Estarão os autores do blog a ter acesso a informação privilegiada? Mas não é verdade que o que não puder ser anunciado e confirmado por outras fontes carece de interesse e logo, por definição, a informação privilegiada é útil nos negócios mas pouco interessante nas campanhas? Estarão estes assessores a fazer algo fundamentalmente diferente de preparar um ministro ou secretário de estado para um debate na televisão? Mas passa pela cabeça de alguém que durante as campanhas os assessores não perdem tempo com estas actividades? E sendo público que participavam assessores do governo no blog em questão, queriam que não escrevessem sobre o que sabiam como profissionais e apenas sobre aquilo que pensavam como cidadãos? Mas não andamos todos a rir com uma desculpa baseada em tal esquizofrenia funcional? You can't have it both ways. Qual era mesmo a notícia?"

http://aeiou.expresso.pt/a-espuma-dos-dias=f565761


De Morgadinho a 17 de Fevereiro de 2010 às 13:20
Devo pois concluir (e assim sair da tal "realidade paralela") que afinal os assessores que nos despachos dos Ministérios aparecem como sendo nomeados para prestar assessoria económica, jurídica, etc, também são contratados para fazer política? Faz parte das suas funções? Isto é, um assessor é  também contratado para ser "político"? E para utilizar a informação a que tem acesso nessa funções, muitas vezes de natureza reservada, para fazer "política"? 


De Ana Matos Pires a 17 de Fevereiro de 2010 às 14:17
Defina "fazer política", pf.


De António P. a 17 de Fevereiro de 2010 às 14:38

Caro Morgadinho,
Pode concluir como quiser. Vivemos em democracia. Não nos tome é por parvos.
E não se sobressalte com tão pouco.
Cumprimentos


De Morgadinho a 17 de Fevereiro de 2010 às 15:17
Basta reler o texto com atenção o texto para que me remeteram para se perceber o que é "fazer política", mas é particularmente perniciosa a utilização de informação obtida junto dos Ministérios e outros órgãos para fins partidários e de campanha (o articulista até equipara os assessores a políticos e que nos Ministérios se faz propraganda...).

Obviamente, não está em causa um assessor apoiar quem entenda, mas a concepção de que se usa um cargo de natureza pública e as condições que este dá para efeitos de política partidária.

Mas, se nada disto escandaliza quem aqui escreve (já quando se noticiou que elementos da Casa Civil do PR participavam na elaboração do programa do PSD a "música" foi outra... mas sei que exigir coerência ou memória é mais uma prova de que estou numa "realidade paralela"), porquê chamar perjorativamente  a quem forneceu estes dados ao jornal de "bufo"? Porquê a violência contra o "bufo" se este limitou-se a relatar algo perfeitamente normal e legítimo?


De Ana Matos Pires a 17 de Fevereiro de 2010 às 15:31
Como já foi dito repesco o comentário:
"De Maria João Pires a 17 de Fevereiro de 2010 às 14:40
Caro Miguel, neste blog não ouviu ninguem contestar a legitimidade de um assessor do presidente escrever um programa partidário, pois não? qm se sentiu muito incomodado com tais notícias, se bem me lembro, foi a presidência da república."
Desde quando bufar algo "perfeitamente normal e legítimo" deixa de ser bufaria? Bufo é bufo, ponto.


De Morgadinho a 17 de Fevereiro de 2010 às 15:42
Talvez a memória possa atraiçoar-me, mas recordo-me de muitos exigirem explicações do PR sobre essa matéria e o mesmo ser aqui reproduzido neste blog. Mas, será simples confirmar a asserção revendo os posts dessas datas.

Quanto ao "bufo", estranho essa linguagem, apenas porque ninguém assim aqui apelidou quem enviou emails privados de jornalistas do Público ao DN e, muito menos, se apelidou a esse jornalismo como "jornalismo de bufaria". Nesse caso não terá existido um qualquer "bufo"?


De António Parente a 17 de Fevereiro de 2010 às 16:09
Boa pergunta, morgadinho. Também já tinha pensado nisso. Parece que há aqui uma duplicidade de critérios.


De Isabel Moreira a 17 de Fevereiro de 2010 às 15:45
é que ninguém foi "contratado" para escrever num blog, está a ver?


De Anónimo a 17 de Fevereiro de 2010 às 16:10
Não?


De Ana Matos Pires a 18 de Fevereiro de 2010 às 04:02
Foi?


De JB a 18 de Fevereiro de 2010 às 15:05
Os membros dos gabinetes fazem política. Dão apoio aos titulares dos cargos públicos e fazem política. É para isso que existem e são pagos.


De António P. a 17 de Fevereiro de 2010 às 13:07
Bom dia Rogério,
De vómito a "investigação" do CM.
Bom post.
Atér onde pode descer o jornalismo dito de investigação ?
Há que responder como o fez.
Cumprimentos


De Niamey a 17 de Fevereiro de 2010 às 13:17
só para não ficar entalado. tratar-se-á de uma cena à eduardinho dâmaso salcede, presumo.


De MFerrer a 17 de Fevereiro de 2010 às 14:05
Só para o tal Morgadinho,
É que eu não fazia iedeia que os assessores políticos, judídicos , económicos,  e por aí fora, tinham que ser eunucos despolitizados!
Voltamos aos políticos anti-politicos? Aos assessores que estão quimicamente castrados, não vá dar-se o caso de terem uma opinião?
E ninguém larga uma caralh...!???
Falta-me a paciência!


De Miguel Braga a 17 de Fevereiro de 2010 às 14:36
Para os que têm memória mais curta, relembro o que foi dito sobre o facto de alguns assessores do Presidente da República estarem a colaborar no programa eleitoral do PSD. E foi só acusação não facto constatado... Muda o vento muda a opinião... Lindo.


De Shyznogud a 17 de Fevereiro de 2010 às 14:40
Caro Miguel, neste blog não ouviu ninguem contestar a legitimidade de um assessor do presidente escrever um programa partidário, pois não? qm se sentiu muito incomodado com tais notícias, se bem me lembro, foi a presidência da república.


De f. a 17 de Fevereiro de 2010 às 16:19
sim, miguel braga, faça o favor de ir à data em causa ver o q aqui se escreveu.

por exemplo isto: http://jugular.blogs.sapo.pt/1097634.html?view=12967842

parece q a memória curta é mesmo a sua


De Miguel Braga a 17 de Fevereiro de 2010 às 18:32
Cara linda Fernanda, nem tudo o que aqui se posta tem como origem o que neste blog se diz, nem o que aqui se comenta tem como origem o que aqui se posta... Mas obrigado pela lembrança.


De Ana Matos Pires a 18 de Fevereiro de 2010 às 04:06
Mas tudo o que aqui se posta tem que ver com a opinião de quem por aqui escreve, mesmo que seja a contrária à chamada, caso em que é referido. Lapso de memória, acontece a todos, não vale a pena é contra-argumentar


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