Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

Não começou hoje. Parece uma corrente de ar. Porque as portas estão abertas. Essas portas são a liberdade de expressão usada em campanha contra a liberdade do outro, esse outro que tem o atrevimento de pertencer a uma corrente de opinião diferente, de não concordar com o movimento do momento, de ter pertencido a uma campanha, de dar a sua opinião, sendo ou não sendo Deputado, assessor, como o são tantos dos que o matam enquanto pessoa, ou dos que habilmente se calam perante estes ataques pessoais. Porque também há os silenciosos, os que clamam pela liberdade e que condenam pessoas ao ostracismo em frases que ficam para a história, ou os que são Deputados, assessores, e que legitimamente opinam e que hoje, no dia de hoje, nada dizem, porque é bom ver uma tentativa de homicídio, desde que seja do outro, o outro divergente, eis um conceito de liberdade e de dignidade que acaba no umbigo.

Este clima de perseguição que tem aqui uma concretização de escola, lembra uns senhores de há muitos anos, que entendiam que o homem pertence ao Estado, que divinizavam o monstro, anulando a vontade individual. Deram um toque moderno e tosco a Aristóteles, a Hobbes, a Rousseau, ou a Hegel e talvez não se tenham apercebido que na sua liberdade de expressão adoptaram uma linha rasca, mas perigosa, de totalitarismo.

Tu, João - ou eu, tanto faz - não és tu, indivíduo livre que opinas numa sociedade civil a que pertences, independente do Estado, ainda que, naturalmente, visando transformações no Estado ou no aparelho do poder; tu fazes parte da circunstância do Estado e existes apenas e só para o servires.

Os bufos livres, caçadores de homens, não se dão conta deste transpersonalismo datado, ou talvez eu seja muito nova e não tenha memória da origem de muita da espécie.

Cresci já em democracia e tenho por normal que possa ser de um Partido, que possa ser Deputada, que possa ser assessora, sem que com isso perca a minha qualidade de cidadã com direitos, imagine-se, de participação na vida pública.

De resto, foi essa capacidade crescente de participação que alterou a história dos partidos políticos na europa, que eram de elite (caso da Inglaterra), e essa transformação esteve presente nas reacções modelares propostas por grandes memórias de "democracia" e de "reconhecimento" do indivíduo. Estou a pensar no modelo de Lenine ou no modelo de Partido Nazi, ambos sem reconhecerem autonomia à sociedade civil.

É disto que me tenho lembrado quando leio os ataques pessoais que já vêm de trás. Pensas assim? Deves ser pago pelo Governo, pelo Estado. És empregado deles. Não tens autonomia.

O indivíduo defende-se porque se atreve a ter bom-nome. Mas a luta continua, a luta contra quem se atreve a pensar diferente, porque não pode haver debate, tem de se eliminar o outro, tornando-o numa não-pessoa. Pode ser-se Deputado do PSD e fazer campanha num blog; pode ser-se assessor de um partido e fazer-se campanha ou opinar-se num blog. E bem. Mas a liberdade tem direitos de autor.

Chega o dia em que se diz: naquele tempo em que fizeste campanha para o PS como cidadão e trocaste impressões com pessoas do PS sobre matérias de campanha não eras um indivíduo. Em bom rigor, perdeste essa qualidade.

Patife. Campo pequeno?

 


35 comentários:
De Rogério da Costa Pereira a 17 de Fevereiro de 2010 às 17:22
Pois, passei a ser sub-humano.


De Morgadinho a 17 de Fevereiro de 2010 às 17:35
Confundir a discussão da utilização de cargos públicos e divulgação de informação obtida no exercício dessas funções para fins de política partidária e campanha eleitoral com a discussao "Da morte do indivíduo ou o totalitarismo disfarçado" é, isso sim, salvo o devido respeito, como alguém imputava-me num comentário, estar numa "realidade paralela" ou procurar formas de evitar discutir algo...


De Isabel Moreira a 17 de Fevereiro de 2010 às 19:26
o morgadinho não percebeu o ponto. este ataque vem na sequência de um ataque mais longo, anterior. qual é o deputado/colunista/bloguer que não usa o que sabe como deputado na sua actividade livre como cidadão opinador? qual é o problema de um assessor escrever assumidamente num blog - simplex - de apoio ao PS e pedir informações a quem está a apoiar sobre os temas da especialidade das pessoas em causa? quem disse que eram informações distintas das usadas publicamente pelo PS? privilegiadas por quê? o assessor perde direitos de cidadania?  


De Isabel Moreira a 17 de Fevereiro de 2010 às 17:37
eu também, de acordo com alguns textos. penso que a malta toda do jugular, que por acaso escreve de graça, é independente, na sua esmagadora maioria nada tem que ver com partidos - e se tivesse? -, mas enfim...parece que até sabem onde nos vestimos. consta que é em locais caros.


De Anónimo a 17 de Fevereiro de 2010 às 17:41
Vou repetir, só para ter a certeza do que li: "penso que a malta toda do jugular, que por acaso escreve de graça, é independente, na sua esmagadora maioria nada tem que ver com partidos". O ridículo não tem limites? Bem sei que formalmente (o advérbio está na moda por aqui!) até pode ser verdade, mas ser independente não é não ser militante de um partido. Acredita mesmo no que acabou de escrever??


De Isabel Moreira a 17 de Fevereiro de 2010 às 19:28

nem lhe respondo. porque não sabe o que é a independência. não tenho partido. nunca tive. tenho uma profissão liberal. a par dela, construi uma carreira académica. em cada momento político dou a opinião, normalmente jurídica, que me parece acertada. e sou de esquerda. posso?


De Zé do Telhado a 17 de Fevereiro de 2010 às 23:31
Não sei se pode. Vou pensar no assunto e respondo-lhe amanhã. Pode ser?


De Isabel Moreira a 18 de Fevereiro de 2010 às 00:35
pode, mas estou aqui na esquerda à espera.


De Zé do Telhado a 18 de Fevereiro de 2010 às 11:01
Pensei bem no assunto e tenho que dizer-lhe: viver na esquerda é andar em contramão, querida. Além do mais gera desiquilibrios por deformação na coluna. Assim sendo, aconselho-a a não esperar nessa esquina. Significa isto que também não deve ir para a direita nem para o centro, mantenha-se vigilante e aja circunstancialmente. Hoje ser disto ou daquilo está em desuso, ser alguma coisa partidária é carneirismo. Fique pelos valores que encontrar e vai dar-se muito bem. Vá lá mdando uma parecerzitos à malta, mas não se comprometa. Os gajos que paguem!!!, paguem a crise e paquem bem pelos pareceres. Já viu que isto está uma verdadeira merda!? Esquerda!?, aonde está ela!? Ouerida, o que está a dar é ser da banca. Sim, aquela de desinvestimento que investe bem na bolsa dos banqueiros! Vá por aí e chama-me depois para uns parecerzitos. Tenho uma bolsa, ou um bolso, que precisa de uma rifazitas. Gostei de a ver. Pelas palavras está com muio bom aspecto.


De Isabel Moreira a 18 de Fevereiro de 2010 às 15:29
quase que me pede para me comprometer consigo, zé. tantos pedidos!


De Zé do Telhado a 18 de Fevereiro de 2010 às 20:54
Ó Bélinha, compromisso é coisa séria. Não direi comprometimento, mas alguma afinidade. Esta já vai existindo. Verdade? Quanto aos pedidos, menina, a malta tem que os ir fazendo, se tocar, toca; se não tocar, não toca. Segue-se em zigzag para não nos acusarem de ser do centro, da esquerda e da direita.


De Zé do Telhado a 17 de Fevereiro de 2010 às 23:36
Aonde é que se vestem, belinha? Independente!!??, o que é isso?? Alguma aperitivo acabado de lançar no mercado!?? Outra dúvida. São independentes porque escrevem de borla, ou escrevem de borla para ser independentes? Malta, atenção que isso não é futuro!


De Isabel Moreira a 18 de Fevereiro de 2010 às 00:38
não viu a vírgula?


De Zé do Telhado a 18 de Fevereiro de 2010 às 11:05
Vi, querida. Vi bem a vírgula. Mas não me respondeu. Aonde se vestem? Qual é o "balneário"? Eu sou do sporting. Mas agora já não me visto nem dispo por aí, deixei de "jogar" nesse club; estou cansado de tanto sofrer. E o dinheiro agora é pouco para vestir marcas que estão em "deficit".


De Isabel Moreira a 18 de Fevereiro de 2010 às 15:31
também não visto marcas (caras). não ganho para isso. mas se ganhasse e gostasse de marcas vestia, por que não? eu é mais o que calha, desde que me pareça bem ao olhar.


De Zé do Telhado a 18 de Fevereiro de 2010 às 21:01
Bélinha, está muito bem dezido e bem pinsado. Olhe bem para mim, menina: eu não sou contra a riqueza (quando legitimamente adequirida, mas contra a pobreza. É esta última que me provoca "aflições". Quanto às marcas, eu lá vou usando o que mais me conforta, quando posso ter conforto. Agora não, "preque" a crise é muita e os saldos ainda não estão aos preços de saldo. É preciso mais algum esforço. Eu lá me vou adaptando à crise. Veja bem que até já me habituei a comer de tudo. Sou obrigado a ir para a lagosta porque os carapauzinhos e as sardinhas estão pela hora da morte. Um pobre, hoje em dia, não chega a esses peixinhos (espero que o(a) leitor(a) aceite este comentário com humor).


De António Carlos a 17 de Fevereiro de 2010 às 17:53
Boa tarde,

confesso que ainda não consegui ter uma opinião formada acerca da notícia do CM e da questão da "participação de assessores governamentais no Simplex" (digo desta forma para simplificar).

Hoje cheguei a esta notícia
http://www.briefing.pt/content/view/2939/11/
através do 31 da Armada.
O Governo contratou uma agência de comunicação para defender a imagem de Portugal nos mercados financeiros. Pareceu-me bem.

Mas se a notícia fosse "Governo contratou uma agência de comunicação para defender a imagem do PS num blog durante a campanha eleitoral", já me parecia mal.

Por outro lado, acho perfeitamente natural que qualquer pessoa, a título individual (nem que fosse Ministro), participasse no Simplex. Nesse sentido concordo inteiramente com o seu post (ou o que julgo perceber dele).

Assim, ainda não consegui estabelecer uma linha de separação. Consigo apenas identificar claramente algumas situações "limite" que são "claras" (para mim).

Julgo que no caso do Simplex (blog que acompanhei juntamente com o Jamais e o Rua Direita) tudo seria mais claro se quem participou (autores) se identificasse (como foi o seu caso, presumo).

Por um lado, ninguém deve naturalmente ser limitado de exprimir as suas opiniões (nem assessores governamentais);
Por outro, não gostaria que o Governo utilizasse meios Estatais para participar em campanhas eleitorais.
O problema é que a própria natureza e vínculo de um "assessor" se presta a esta situação "pouco clara". Agravada, a meu ver, pela sua não identificação e participação directa. Se um assessor tem algo a dizer a título particular, que o diga directamente.


De Isabel Moreira a 17 de Fevereiro de 2010 às 20:24
eu não participei no simplex . os assessores não são funcionários públicos. são livremente nomeados e exonerados. a qualquer momento. é normalíssimo que façam, se entenderem, como qualquer cidadão, campanha por um partido. um blogue é gratuito, como sabe.  


De Pedro Sousa a 17 de Fevereiro de 2010 às 17:55
Você confunde as coisas.

O problema é a utilização de recursos públicos para promover interesses privados, no caso partidários - desde a utilização de um veículo de um governo regional  ao uso de informação privilegiada que não está acessível aos restantes partidos.

Parece-me ser bastante fácil de compreender.

De resto, acho que um senhor chamado Fernando Charrua se deve estar a rir a gargalhadas despregadas. Haja decência.


De Isabel Moreira a 17 de Fevereiro de 2010 às 19:38
por falar em decência, de que informação privilegiada está a falar? um chefe de gabinete de um líder partidário escreve num blogue. escreve na linha da sua política (não estou a falar do PS). escreve (também) com os dados que resultam da sua actividade num partido pago por todos nós, sabe? E?


De JP Santos a 17 de Fevereiro de 2010 às 18:00
Parece que me perdi na história. Quando estiver em causa a vossa liberdade de expressão podem contar com todo o meu apoio. Não me choca que assessores do Governo colaborem em blogs de apoio ao Governo e não me procupam minimamente minudências como a alegada utilização de meios informáticos do Estado. Mas já me parece criticável a (eventual) utilização de informação privilegiada. E já agora se era tudo assim tão "normal" porque razão não eram divulgadas as fontes da informação utilizada ?


De Isabel Moreira a 17 de Fevereiro de 2010 às 19:39
mas qual informação privilegiada? ai, o correio da manhã...


De JP Santos a 17 de Fevereiro de 2010 às 22:39

Não é preciso sermos (ou armarmo-nos em) ingénuos. Basta percorrer o site http://simplex.blogs.sapo.pt (http://simplex.blogs.sapo.pt) e verificar a profusão de números e quadros sem indicação de qualquer fonte publicada.


De Isabel Moreira a 18 de Fevereiro de 2010 às 00:40
fonte? e na rua direita? e nos blogues de deputados de partidos? têm de colocar lá "obtive esta informação sobre o TGV em conversa com"?


De JP Santos a 18 de Fevereiro de 2010 às 01:15
Já que insiste em prolongar esta questão posso assegurar-lhe que muita daquela informação só pode provir de documentos internos dos ministérios.


De Isabel Moreira a 18 de Fevereiro de 2010 às 15:32
"documentos internos" para início de uma teoria de conspiração é muito bom.


De nuvens de fumo a 18 de Fevereiro de 2010 às 15:41
Documentos classificados, traduzidos e simplificados, daí o nome.


De JP Santos a 18 de Fevereiro de 2010 às 15:52
Na sua ânsia (que sempre admirei e louvo) de responder a todos os posts não deve ter tido a oportunidade de reparar que não utilizei o termo "conspiração". Não digo que tenha havido qualquer conspiração, agora que foi utilizada informação apenas acessível a "determinadas pessoas" não tenho quaisquer dúvidas. Pessoalmente acho isso criticável (no mínimo é desleal), mas reconheço o seu direito de achar isso "normal" e "natural" e até o direito de se recusar a aceitar as evidências pois como dizia a minha avó "pior cego é o que não quer ver" e "cada um acredita no que quer".


De JP Santos a 19 de Fevereiro de 2010 às 08:35
Se reler com atenção os meus posts confirmará que nunca referi ou insinuei qualquer "conspiração" que não creio que tenha existido. O que quis dizer e reafimro inteiramente é que foi utilizada informação que pela sua natureza só pode ter sido coligida por serviços da administração pública a que as pessoas que "passaram" essa informação apenas tiveram acesso utilizado as suas posições que ocupam(vam). Pessoalmente acho essa actuação criticável (no minimo é desleal e pouco transparente) mas reconheço o seu direito a considerar esta actuação  como "normal".


De Anónimo a 17 de Fevereiro de 2010 às 18:13
Uma coisa são assessores do Partido outra são assessores do Governo. O Estado não é o PS!


De Isabel Moreira a 17 de Fevereiro de 2010 às 19:40
exacto. e o estado paga os partidos, sabe? e o estado não come as pessoas, sabe?


De josepedromonteiro a 17 de Fevereiro de 2010 às 23:59
Meia dúzia de coisas, sem grandes certezas:
1- Os assessores são livres de participar e militar politicamente como quase todos os cidadãos.
2- O simplex não foi muito diferente  do jamais, portanto interessa-me pouco, até porque, perdoe-me a franqueza, ambos quase me mataram de aborrecimento.
3- Esta história não tem importância nenhuma.

Daqui surgem algumas perguntas:
1- É igual o Estado financiar um partido, através de subvenções estatais (que não são a única receita dos partidos), ao Estado financiar um governo e este canalizar recursos para fazer propaganda para o partido do governo (eu sei que todos o fazem, que é normal o governo se auto-promover, etc. mas estou a falar de uma questão de princípio.
2- Apresentar um blog de apoio como sendo composto por apoiantes desinteressados e saber-se que era composto também por assessores (não faço ideia se há assessores ou não, reitero, estou a discutir de forma quase esotérica), não sendo crime nenhum, não é, vá, desonesto? (Atenção, isto não implica dizer que o simplex era composto por assessores, parece-me evidente que no essencial era composto por pessoas cuja motivação resultava de um acto individual de adesão a determinado projecto).
3- Confesso que não dou um tostão furado para as orgias pungentes em prol da liberdade de expressão e afins porque, antes de mais, acho-as  desprovidas do mais elementar bom-senso. Mas alguma inquietação parece-me até salutar, é mesmo necessário incorrer no mesmo disparate dos outros de vergastar os conceitos às três pancadas (peço desculpa se saiu muito belicoso).

Devia existir algum espaço entre a espada e a parede.

cumprimentos


De AJDiogo a 17 de Fevereiro de 2010 às 19:00
Até este menino que também pertence à equipa

http :/ outubro10.spaces.live.com /blog/cns!E0B1952B675A321D!1543.entry?sa=158910304" http :/ outubro10.spaces.live.com /blog/cns!E0B1952B675A321D!1543.entry?sa=158910304</a>

gosta de dizer coisas. Eles são assim coitados.


De Irene Pimentel a 17 de Fevereiro de 2010 às 20:16
muito bom, Isabel


De Zé do Telhado a 17 de Fevereiro de 2010 às 22:41
Isabelinha, menina, meu anjo da guarda. Por onde tem andao???. Já fazia falta. Liberdade, linda palavra!!! Vamos falar um pouco de liberdade, linda menina? Pois bem. Repare, um dos chavões que se usa para defender a liberdade é: "A minha liberdade começa onde acaba a liberdade do outro" e o inverso também se aplica. Note bem, minha linda e estonteante escritora (digo-o de alma e coração, porque a menina escreveu bem, e muito bem!) se eu, você, ele, aquele e aquele outro tivermos uma visão da liberdade tão circunscrita por este chavão, verificaremos que a liberdade é tratado como uma propriedade, consequentemente, pertença de um proprietário. Contudo, o grande erro do tratamento da liberdade é não estarmos consciente que ELA deve ser condição. Com saudades, beijo suas mãos que tão abençoadas foram ao escreverem tais palavras; mas também me rendo a esse cérebro que foi profusamente inundado pelo o Espírito. Relativamente aos partidos, são como a mousse de chocolate: gosta dela com conhaque. Eles não têm barricas, logo, não têm sabor.


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