Em Portugal, já será a 8 de Março que Kathryn Bigelow receberá (provavelmente) o Óscar para Melhor Realizador/a. Na versão original, o Academy Award for Achievement in Directing é neutro em termos de género, mas em 82 atribuições anuais dos Óscares, Bigelow será, ao que tudo indica, a primeira mulher a receber o Óscar nesta categoria. Bigelow é também a quarta mulher a conseguir uma nomeação nesta categoria, depois de Lina Wertmüller, Jane Campion e Sofia Coppola. Ou seja, se Bigelow ganhar, o rácio mulheres/homens nas vitórias será mesmo assim maior que o rácio nas nomeações.
Para além das categorias de Melhor Actriz e de Melhor Actriz Secundária, porque pelos vistos a representação é completamente diferente em função do género (ou será porque é preciso garantir a paridade nos prémios de representação?), o habitual é mulheres dominarem categorias como Guarda-Roupa, Direcção Artística e Décors (sendo por regra responsáveis pelos Décors, sob a Direcção Artística de homens) ou Caracterização.
O habitual também é estarem ausentes das restantes, salvo raras excepções. Aliás, este ano, ao contrário do anterior, não há mulheres a concorrer aos prémios de Argumento.
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é sexista? Sim, inevitavelmente: os Óscares são, como toda a gente sabe, um concurso de popularidade. Por mais que a Academia queira ter de si própria uma imagem progressista, e por mais que a middle-America olhe para Hollywood como "commie homo-loving sons of guns", a realidade é que num concurso de popularidade a liderança de mulheres continua a fazer perder pontos. Embora haja mais, o exemplo típico é o de Barbra Streisand, que não foi nomeada em 1983 pela realização de Yentl, embora tenha sido a primeira mulher a ganhar o Globo de Ouro nessa categoria (para além de não ter sido também nomeada pela realização do The Prince of Tides, apesar da nomeação do mesmo para Melhor Filme).
Mas independentemente das percepções de quem vota, a realidade é que sobretudo as oportunidades das mulheres no cinema estão muito longe da igualdade em Hollywood. Até The Hurt Locker é um filme independente. E só entre 7 e 9% dos filmes são realizados por mulheres.
Ou seja, se este Óscar de Melhor Realização de 2009 pode ajudar a quebrar telhados de vidro, ele vem sobretudo lembrar que o caminho a percorrer é bem longo. Em Hollywood e no mundo. A propósito, aqui está um discurso recente da recordista de nomeações Meryl Streep nas Nações Unidas, que poderá não ser a melhor forma de fazer campanha para o Óscar mas que faz campanha pelo que interessa.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
