Sexta-feira, 12 de Março de 2010
Às vezes são salas de pânico, dizia-me, há uns anos, um professor de alunos do 7º ano, alunos com 12 anos, portanto, alunos postos num subúrbio esquecido, ou cada um deles um subúrbio, agarrando a violência contra o professor que me falava como uma arma, um grito de revolta, seria o "sai daqui" ou talvez o "eu estou aqui", não sei.
Ouvi muitas vezes relatos cinematográficos, sabia do drama da depressão que atinge especialmente a classe dos professores, como este que me falava.
Via-lhe, muitas vezes, a impotência no olhar, porque ele era um homem só, a escola não conseguia responder ao desafio de alunos sem rumo, não havia diálogo com famílias desestruturadas, remediavam-se as situações extremas como a de uma luta com facadas que ocorreu após uma aula em que o professor não viu mais remédio se não o de se atirar para o meio da pancadaria, antes que fosse tarde demais.
Este professor resistiu a ameaças de pancada, a insinuações de que levaria um tiro nos cornos, mas penso que foi o dia em que um funcionário da escola morreu à sorte de várias facadas e que o seu corpo ficou esquecido num corredor silencioso que o professor, sem grandes palavras, mudou de vida. Abandonou a sua vocação a bem da sua sobrevivência.
Estes episódios multiplicam-se por muitas escolas. Alunos violentos, uns com os outros, e com os professores.
Lembramo-nos todos da "isolada" agressão a uma professora por parte de uma aluna por aquela lhe ter tirado o telemóvel. Mas esta recordação existe porque o episódio foi filmado.
Todos os dias muitos professores e professoras chegam a casa esgotados, deprimidos, com a doença do nosso tempo, sim, sem solução para o dia seguinte, sem voz, sem uma escola capaz, sem uma articulação real com as famílias, impedidos, assim, de fazerem aquilo que pensavam que seria o objecto principal do seu trabalho: ensinar matemática, português, história, etc. Isso passou a ser, para muitos deles, a última das suas tarefas.
São também eles, os professores, os espectadores putativos das histórias de bullying entre alunos, como o foi aquele professor que se atirou para o meio de uma cena de pancadaria - teria começado com um episódio de bullying? Ele não sabe. Sabe que viu miúdos aos murros e aos pontapés, com facas pelo meio, uns mais fortes do que outros e isso bastou.
Quando, de repente, o país acorda para o medo e a morte de Leandro, as interrogações são muitas, o perigo do fanatismo é enorme, como se pode ver pela proposta apressada do CDS de cortar as prestações sociais aos educadores de jovens violentos, como o abono de família. Isto é o fanatismo populista que agrada ao instinto vingativo imediato da populaça: toca a castigar os pais dos malandros, mas tudo isto é tão complexo que convinha que um Partido político não reagisse a quente, perante a morte de uma criança, através de uma sentença com a forma de acto legislativo.
Hoje foi o dia de sabermos de um professor vítima de bullying por parte dos alunos. Tinha 51 anos e era professor de Música na Escola Básica 2.3 de Fitares, em Rio de Mouro, Sintra. Era. Na semana antes do Carnaval, decidiu que não voltaria a ser enxovalhado. Pegou no carro e parou na Ponte 25 de Abril. Na manhã do dia 9 de Fevereiro, atirou-se ao rio.
Falam-nos agora da sua personalidade, do que poderia ter sido feito, divulgam pornograficamente a sua carta de suicídio, o usual.
Desconfio que vamos ficar a saber de mais casos da vida. De silêncios que acabaram em gritos definitivos.
Sei de miúdos que sentem o que se diz que Leandro sentia e que olham as notícias de coração apertado.
Sei, também, de professores que todos os dias tomam um antidepressivo antes de entrarem na sua sala de aula e que olham a história do professor de música num arrepio, que é uma voz, de fora para dentro, que nos diz assim: podia ser eu.
É preciso pensar nisto tudo com cautela, com profissionais das áreas relevantes em causa envolvidos, sem fanatismos populistas para esfriar ânimos por umas semanas.
A responsabilização não é uma palavra fácil.
Sim, é preciso pensar com muita cautela. Mas também é preciso ter a firme convicção de que esta situação não pode continuar por mais tempo. Eu tenho dois Filhos meninos a entrar para o sistema educativo e também fui Professor de Matemática no Ensino Básico e sei que não quero nada disto para os meus Filhos. Nem como futuros Alunos, nem como potenciais futuros Professores.
Admito que poderá ser necessário criar Internatos para os Alunos mais problemáticos, ou para os Alunos oriundos de ambientes sociais e familiares, de estratos baixos, médios ou altos, que por algum motivo, ou motivos conjugados, os conduzam a tornarem-se problemáticos.
Prefiro que os dinheiros públicos sejam gastos em instituições decentes e que saibam prevenir a tempo a delinquência e fazer sobressair o lado bom e construtivo que forçosamente haverá em cada adolescente e jovem, do que em atirar com subsídios para cima de Encarregados de Educação incapazes ou irresponsáveis.
De uma coisa, porém, estou firmemente convencido: a continuarmos assim, NÃO VAMOS LÁ!...
De
Cristina a 12 de Março de 2010 às 14:51
Infelizmente, isto já era há muito previsível, com a desautorização constante que se tem vindo a "prestar" aos professores. Os encarregados de educação deixaram de ser os pais - ou por falta de tempo ou por falta de vocação - para serem os professores, aos quais não se nega a autoridade de disciplinar convenientemente os "meninos". Ai do professor que castigue um(a) aluno(a). Caí-lhe logo em cima o Carmo e a Trindade.
E agora vêm os pais dos alunos da mesma escola dizer que os "meninos" agora se sentem mal, não podem fazer os testes, não conseguem estudar, porque o malvado do professor no seu último testemunho disse que foi - ele sim! - vítima de abusos na escola por esses "meninos".
Eu não sou assim tão velha, mas lembro-me que no meu tempo havia - no mínimo - respeito pelos professores. Às vezes até medo mesmo. E não era nenhuma vítima como aluna.
De CMoreira a 12 de Março de 2010 às 16:31
A Cristina desculpe, mas não está a afirmar que vê com bons olhos e que aceita calmamente que uma professora dos seus filhos possa "disciplinar" as crianças com umas quantas reguadas , ou ficando todo o dia sentado virado para a parede com orelhas de burro.
Se assume essa posição só posso crer que ainda não tenha filhos ou que não tenha ponderado nas implicações do que está a sugerir.
Quanto ao facto de os pais se descartarem da educação dos seus filhos, embora acredite que com muitos assim acontece de facto, devo salientar que os meus filhos desde os 4 meses de idade que estão entregues a educadores e professores durante 8 horas por dia, e eu estou com eles acordados 3 horas por dia, de modo muitos dos valores e comportamentos por eles assumidos são um reflexo directo das orientações dos professores.
Julgo assim que concordará que os professores não podem encarar a sua profissão como um simples trabalho para obter um vencimento porque tem um papel fundamental na formação dessas crianças e não se podem descartar dessa responsabilidade.
Mas realmente, a responsabilização "de todos" não é fácil.
De Anónimo a 12 de Março de 2010 às 23:47
Cristina,
É óbvio que os professores têm uma quota parte significativa na formação das crianças e jovens - o trabalho a tempo inteiro é a realidade de uma grande maioria das famílias portuguesas, e nem todos os pais têm avós ou outros familiares a quem delegar a tafera de, diga-se, "incutir certos valores".
As crianças de hoje passam a maior parte do seu dia na escola - e quem diz em aulas diz em actividades extra-curriculares, portanto, quem fala em incutir responsabilidades aos professores fala em incutir responsabilidades a todos os agentes escolares.
Mas o papel dos pais é, ainda e, espero, sempre, importantíssimo: como saberão as crianças comportar-se no recinto escolar sem o mínino de orientação prévia?
As agressões (físicas e verbais) na escola são uma realidade que passa despercebida até existirem casos como os do Leandro ou do Luís. Deixe passar uns meses sem que existam situações tão extremas e vai ver se ainda ouve falar com a mesma intensidade sobre a responsabilização dos professores.
Sobre o Leandro, e na minha maior pequenez, parece-me que poderá ter havido alguma permissividade tanto por parte dos pais como dos agentes escolares - o miúdo foi parar ao hospital e não há registo da ocorrência na escola?
Sobre o Luís, e conhecendo bem o perfil dos jovens estudantes da zona de Sintra, não me espanta. Só me espanta que não tenham existido, ainda, casos semelhantes. Novamente, e ecoando o que ouvi nas notícias da manhã (na TSF), estranho que o professor tenha redigido sete queixas e nenhuma tenha sido oficializada pela escola.
AF
De Niamey a 12 de Março de 2010 às 15:35
li este post e lembrei-me que durante os meus tempos de aluna no filipa de lencastre via sempre uma professora de português que se fechava no seu citrôen 2 cavalos vermelho ao longo de todos os 50 minutos que devia estar na sala de aula. não faltava um único dia mas passava-o dentro do carro com o olhar fixo em nada de especial."ela não os aguenta" explicava-me alguém. uma imagem inesquecível, uma cara de terror deprimido dentro de um automóvel e nem disfarçava tentando ocupar-se com um livro ou umas folhas avulsas com qualquer coisa escrito. fazia-me medo porque era o retrato de uma infelicidade que não pára, mesmo ali.
não consigo imaginar o que seja sentir isto todos os dias em que se vai trabalhar, todos. é-me também muito difícil, como disse abaixo, traçar, por sistema, fronteiras entre agressores e agredidos porque, repito, uns e outros podem ir trocando de categoria. vejo sempre tanto nevoeiro nesta questão e fico pasma como é que alguns avançam com soluções finais à velocidade da luz.
perante o cenário dos últimos tempos devo confessar que fiquei aliviadamente agradada com a intervenção de isabel alçada sobre estas questões e dei por mim com um pensamento básico, simples e se calhar ingénuo, nem sei: "ainda bem que é ela que lá está e não os outros".
Claro que existem vítimas, tanto do que é referido neste texto como de muitas outras coisas, umas de coisas não tão más e outras de coisas bem piores. Contudo, muitas vezes, o estatuto de vítima é meio caminho andado para a auto-desresponsabilização. Sabe-o bem a mãe de um dos miúdos da escola onde o professor de música que se suicidou dava aulas, que se atreveu a inverter os papéis e, obscenamente, mais do que colocar ao mesmo nível uma morte e um teste adiado, o que já seria repugnante, valorizou o teste adiado em detrimento da morte. Com gente desta a educar as “futuras gerações” não há esperança que resista.
De Anónimo a 12 de Março de 2010 às 15:48
Acho inacreditável que se valide a tese da agressão psicológico por parte dos alunos como principal potenciador do suicídio. Não faz sentido nenhum. Parece a estas pessoas levianas (jornalistas) que o suícidio é uma coisa que acontece com naturalidade após uns arrufos emocionais. Por favor! Nem sequer se tratou de arrufos emocionais entre pares!
Vive-se no chelindró perceptivo e cognitivo, bloguers medíocres, jornalistas medícores e políticos completamente mentecaptos.
De Ana Sofia a 12 de Março de 2010 às 15:51
Na Holanda, as escolas p'ublicas são gratuitas, claro. Mas só são gratuitas se os alunos comparecerem às aulas. No caso de ¨aparecerem" faltas injustificadas os pais dos alunos pagam multas elevadas, para cima da centena de euros por cada dia de falta. Portanto, a escola é gratuita para quem cumpre! Não sei como é em relação ao mau comportamento mas dúvido que coisas destas fossem toleradas....com certeza enviam as criancinhas para algum Julio de Matos caso a escola não consiga resolver o problema...e isto são os holandeses, estes tipos tão liberais como eles próprios querem fazer crer. :-)
E será preferivel que os alunos insoburdinados estejam na sala de aula em vez de andarem "a vadiar"?
Sobretudo da perspectiva dos colegas e dos professores, pode não ser assim tão líquido.
De Andre Bartolomeu a 12 de Março de 2010 às 18:07
Na minha opinião não deveriam existir extremismos populistas de cada vez que acontecem casos de agressões sobre professores ou alunos, ou situações mais dramáticas. Não acho que existam soluções milagrosas sobre a questão da educação em Portugal. E também me parece que os modelos na área da educação não são importáveis de outros países, onde a realidade social não é a mesma. Acho mesmo que dentro do nosso país, o mesmo modelo não tem o mesmo resultado quando aplicado às diferentes escolas. E não deve tê-lo também ao longo das diferentes gerações de professores e de alunos que vão passando na mesma escola. Acontece que, de facto, há um conjunto de coisas que mudaram efectivamente ao longo dos últimos 20/30 anos. Mudaram na autoridade que é admitida aos professores e na permissividade que é permitida aos alunos. Neste caso em particular acho que uma coisa pode de facto levar à outra. Mas se no passado o ônus da disciplina nas aulas estava exclusivamente nos professores (que podiam agredir os alunos), o que acontece hoje em dia é que esse ônus está na expectativa de que os alunos tenham um comportamento civilizado e exemplar. E isso dá azo a eventuais excessos como tem acontecido mais recentemente. Basicamente é disso que os professores se queixam. Que já não podem impor disciplina batendo nos alunos. Ou em caso de agressão, não têm a conivência dos pais para os censurar em casa pelos seus comportamentos nas escolas. E se calhar o a conclusão a que se deve chegar é que determinados professores não devem sê-lo perante determinadas turmas (porque seria impossível em qualquer caso ou porque esses professores não têm capacidade suficiente para impor o respeito necessário), como também determinados alunos não deveriam estar em salas de aula (porque nenhum professor conseguirá impor-lhes respeito à luz das ferramentas que hoje têm). E tendo isto em conta não me parece fácil resolver esta questão. Eventualmente não seria de todo desinteressante canalizar os melhores professores (com maiores capacidades dissuasoras) para as turmas/ escolas mais problemáticas, eventualmente com um ordenado mais aliciante. Na verdade, o Estado deveria gastar tanto mais dinheiro quanto mais complexo e desafiante fosse o leccionamento por parte do professor. Não concordo com o regresso aos castigos físicos por parte dos professores aos alunos, assim como não concordo com a possibilidade dos professores serem impunemente agredidos pelos alunos. É de facto um tema difícil...
De ap a 12 de Março de 2010 às 18:57
Conheço a sensação de angústia antes de entrar numa sala de aula sentida por aquele professor; reconheço o sofrimento do aluno que se atirou ao rio e tenho um medo horrível de algum dia chegar a sentir o mesmo. Sou professora e há em dias em que o desânimo se instala. Não é o momento actual que mais me preocupa; é pensar no futuro e não antever qualquer melhoria... antes pelo contrário. Obviamente que tudo se torna mais difícil ainda quando as direcções das escolas não apoiam os seus pares. E, porventura, essa terá sido a "gota de água"; não os alunos em si, mas a falta de apoio dos colegas.
De Anónimo a 12 de Março de 2010 às 20:04
Lembrei-me do Pedro, suicidou-se no dia em que se ia apresentar como Director de Turma (fez em Setembro um ano) numa escola de Lisboa.
De José Manuel a 12 de Março de 2010 às 23:17
A generalidade dos alunos problemáticos anda na escola contrariado e apenas porque a tal é obrigado. Para eles trata-se apenas de comparecer e permanecer na escola. Ali nada os interessa e já que lá têm que estar tratam de desestabilizar o ambiente o mais possível, até porque já perceberam que não existem mecanismos sancionatórios que os incomodem. Os outros alunos acabam por "ir na onda".
A extensão da escolaridade obrigatória ao 12º ano vai baixar as estatísticas do desemprego, mas vai também colocar nas escolas uma situação extremamente complicada com estes problemas a multiplicarem-se.
A situação disciplinar nas escolas é como se num jogo de futebol fossem eliminados os cartões vermelhos e os amarelos não tivessem consequências.
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