Sábado, 13 de Março de 2010
O velho fez-me lembrar a minha avó. A minha avó, aos 90 anos, insiste em contar-nos as suas paixões de infância, os seus segredos mais escondidos — coisas outrora irreveláveis, ainda que tal revelação se aplacasse com mais avé-marias num dia do que aquelas que ela poderia rezar num ano. As misturas de tempos, de pessoas, dos salões grandes e arrumados das memórias antigas com as arrecadações amontoadas das lembranças mais recentes, como diz o Chico. Mas o que mais me veio à lembrança (o pensamento vai saltando de galho em galho sem pancada nos cornos que o impeça) foi o enterro da minha avó, há meia-dúzia de tempos. Cova aberta, no único metro quadrado de terreno que as suas posses lhe permitiram deixar aos vivos (que curiosas seriam as partilhas). Descido o caixão, e quando já se terminava a função, noto um saco azul, volumoso, esquecido ali ao lado. Que eram os ossos do meu avô; que ali tinham estado todos aqueles anos — o meu avô. Na cova. Ainda eu não tinha acabado de perguntar que lhe fariam e já o saco azul era atirado para cima do caixão acabado de arrecadar, como se de um saco de ossos se tratasse. E era um saco de ossos, não sentiu nada. E terra por cima de tudo, à pazada, que ninguém foi lá atirá-la à mão. Nem um torrão que fosse. Ali ficarão — tudo ao molho —, até que os cemitérios entrem em desuso ou lá caiba um centro comercial. Os ossos da minha avó, quando o tempo desfizer o caixão, e os ossos do meu avô, separados por um saco azul. Faz tempo — não o conto em anos — e continua a doer, porra.
(arquivado)
este é o teu texto meu, Roger . obrigada por voltares a traze-lo aqui. Um beijo
Escrever para esquecer já é idiota. Rever o texto é inqualificável. Mas hoje sonhei (outra vez) com isso. E o que me fode é que, por causa disso, não me lembro dela.
eu gosto de o reler. Desculpa.
De
Marco a 13 de Março de 2010 às 03:19
Nunca nos lembramos das particularidades das pessoas que amamos.
É um truque sujo do coração para nos forçar a ir vê-las, a esforçar-mo-nos para lhes decorar as feições, os maneirismos, a forma de falar, a maneira peculiar de limpar as mãos ao avental, como cheira a comida de olhos fechados para detectar que condimentos faltam (e quais são? não sei, só sei nunca consegui cozinhar como ela).
Por isso faço 400 km quase todos os fins-de-semana, para poder decorar mais um bocadinho a cara do meu pai e da minha mãe. É sempre uma supresa verificar que os olhos do meu pai são cinzento-azulados (ou serão azuis acinzentados?), que a minha mãe tem aquele sinal há mais de 60 anos (do lado esquerdo? ou será do direito?).
Consigo desenhar a fachada da casa de cor, encontro todos os interruptores às escuras, estendo a mão no quintal e sei onde vou encontrar a cabeça do pastor-alemão.
E sei que um dia terei de voltar aquela casa e faltar-me-á, primeiro, um, depois, o outro. E o estúpido do coração continua a teimar em apagar as memórias que tentamos guardar de fotografias, de cheiros de armários e de cozinha, mesmo sabendo que se irão apagar com o tempo; como a nossa memória.
De
f. a 13 de Março de 2010 às 02:20
porra, roger.
Duro, bom de duro, ou duro de bom. Também só sei dizer, como a f., porra, porra, Roger.
De Sara a 13 de Março de 2010 às 11:48
Gostei de ler.
Escrever assim deve valer a pena.
Mesmo que sobre sacos azuis tratados como se de sacos apenas se tratassem, sobre caixões tratados como se de simples caixas de madeira se tratassem.
Perdi os meus avós há alguns anos. Via-os como as pessoas mais importantes na minha vida.Sinto que perco um bocadinho deles na memória que se esvai todos os dias um bocadinho. Mas o mais importante continua cá dentro. Só que não dá para o agarrar, não dá para lhe dar um nome. É um sentimento qualquer de coração quente.
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