Terça-feira, 16 de Março de 2010
Palmira F. Silva

Glauco Villas Boas era cartoonista da Folha de São Paulo e conhecido pelos seus personagens Geraldão, Casal Neuras, Doy Jorge e Dona Marta. Na sexta-feira passada, Glauco Villas-Boas e o seu filho Raoni foram barbaramente assassinados por um jovem que repetia que era «Jesus Cristo na Terra» e que queria que Glauco o confirmasse à mãe dele ( do jovem Carlos Eduardo).

 

Esta insistência teísta do jovem tresloucado explica-se porque Villas Boas era igualmente o fundador e líder da Igreja Céu de Maria, uma sucursal de uma religião amazónica, a igreja do santo daime, que, apesar do nome, apenas referencia uma bebida sacramental conhecida em outras paragens como ayahuasca. Foi na pele religiosa que Glauco conheceu o seu assassino quando Carlos Eduardo resolveu, ironicamente, tratar o seu problema de toxicodependência no santo daime.

 

E digo ironicamente porque o santo daime é uma bebida alucinogénica, obtida a partir de plantas, a liana Banisteriopsis caapi, rica em inibidores da monoamina oxidase (IMAO), e o arbusto Psychotria viridis, que contém o psicotrópico dimetiltriptamina. Nos Estados Unidos, quer o ayahuasca quer o peyote (mescalina) estão na lista das drogas proibidas mas são legais em cerimónias religiosas pelas boas graças do  Religious Freedom Restoration Act (que, tanto quanto saiba, ainda não se estende, por exemplo,  às Church of Universal Sacraments ou The Hawai`i Cannabis Ministry, que continuam a lutar pelo direito a ficarem mais próximo dos seus deuses através dos fumos de marijuana).

 

Por outras palavras, João, embora a First Things esteja incluída há muitos anos nos meus feeds,  há um número igual de anos que raramente concordo com o que lá se escreve, quase sempre na linha do editorial de ontem, escrito pelo arcebispo de Denver, de que não recomendo a ninguém a leitura pela demagogia de mais um maluquinho que considera a sua religião acima de qualquer lei.

 

Ou seja ainda, enganas-te redondamente na parte que me toca. Assim como te enganas se pensares que escrevo sobre este caso para caricaturar e ridicularizar a religião. Apenas o escolhi, dentro das inúmeras notícias análogas que me enchem os feeds todos os dias, para ilustrar aquilo que me maça e que deveria ser evidente para quem leia os meus posts sem bias: o estatuto de excepção das religiões, como a legalização do santo daime ou do peyote apenas para fins religiosos exemplificam, isto é, a condescendência com que os maiores disparates são aceites se se carpir bem alto que a sua motivação é religiosa. E, claro, aquilo que é manifesto no relicário virtual que recomendas,  ícone de quem se considera no direito de impor a todos as verdades absolutas de que é detentor, reveladas pela mesma reverberação divina que os incubiu da missão de «salvar» a humanidade mesmo contra vontade desta.

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10 comentários:
De nuvens de fumo a 16 de Março de 2010 às 10:07
POr falar em religião, no caminho para o trabalho ouvi que aumenta a pressão sobre o Papa.

Tudo aqui no der spiegel (http://www.spiegel.de/international/germany/0,1518,683582,00.html)


De Anónimo a 16 de Março de 2010 às 10:36
também do galamba não se pode esperar muito. certamente recebeu a informação do céu, e como é seu hábito pô-la a circular nos blogs do costume.

e é este senhor deputado do meu país? é este senhor meu representante?

batemos no fundo. definitivamente, bem no fundo.


De José Viegas a 16 de Março de 2010 às 11:04

está tudo bem com o Galamba.


De Dorean Paxorales a 16 de Março de 2010 às 11:13
o glauco morreu???? shit.


De Pedro a 16 de Março de 2010 às 11:31

Morreu o Glauco. Bolas. Ficam o Angeli e o Laerte. Alguém me sabe dizer se ainda se publica (e vende cá) o Chiclete com Banana? Já não o encontro há anos.


De Dorean Paxorales a 16 de Março de 2010 às 23:21
http://www.devir.pt/publicacoes/p_cb.htm


De Pedro a 17 de Março de 2010 às 17:56

Obrigado.


De Xico a 16 de Março de 2010 às 21:55
"que os incubiu da missão de «salvar» a humanidade mesmo contra vontade desta."
Drª Palmira,
Quando escreveu aquele texto acima estava a pensar nas esquerdas revolucionárias, não estava?


De Xico a 17 de Março de 2010 às 00:19
"que os incubiu da missão de «salvar» a humanidade mesmo contra vontade desta."
A Palmira, quando escreveu a frase acima, estava a pensar na esquerda revolucionária, não estava?


De bossito a 17 de Março de 2010 às 16:54
Excelente post, como sempre aliás ;)


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