Quinta-feira, 18 de Março de 2010

Uma das coisa mais insuportáveis nos partidos à esquerda do PS é o seu moralismo puramente acusatório e a irresponsabilidade da maioria das suas posições. Para o Bloco e o PCP cada drama, cada injustiça, cada sofrimento humano dá automaticamente direito a um direito. Quem ousar mexer em certos direitos "adquiridos",  torna-se num ser perverso e diabólico. É preciso deixar uma coisa bem clara: não pode haver direitos adquridos sem atender às condições de possíbilidade dos mesmos - e isto não é uma opção ideológica, é uma fatalidade inultrapassável.

 

Mas o Bloco e o PCP vivem noutro mundo, não conhecem o princípio da realidade (só o do prazer), desprezam o pragmatismo e concordam com Zizek: sejamos realistas, exijamos o impossível! A partir do momento em que se adopta esta perspectiva, a escassez de recursos e a necessidade de se fazerem escolhas ou são irrelevantes ou são invenções da direita neoliberal. Só falta mesmo o enxofre para o quadro ficar completo.

 

Tudo isto a propósito da histeria sobre o novo regime do subsídio de desemprego. A posição do Bloco e do PCP é muito simples: o novo regime é inaceitável porque é mais restritivo. Ponto final. Mas afinal o que propõe o PS? Basicamente o seguinte:

 

a) revisão da relação entre o subsídio de desemprego e a remuneração líquida anteriormente auferida pelo trabalhador

b) diminuição do nível de salários oferecidos que obrigam à aceitação do subsídio de desemprego

 

Não é possível avaliar da justiça destas medidas sem atender a alguns factos. Portugal é um dos países da OCDE onde a diferença entre o subsídio de desemprego e a remuneração líquida anteriormente auferida pelo trabalhador é menor. Num contexto de desemprego elevado, como o actual, não repensar o regime de subsídio de desemprego implica pôr em causa a própria sustentabilidade financeira desta prestação social, pelo que a proposta do PS é do mais elementar bom senso. Podemos, é certo, discutir como pomos estes princípios em prática, podemos também discutir como distribuimos os sacrifícios; enfim, podemos discutir muita coisa - só não podemos é negar que algo semelhante a isto é necessário. Mas a irresponsabilidade do Bloco e do PCP tornam impossível que este debate se faça à esquerda. É triste - e quem perde é a própria esquerda portuguesa. Tudo isto é trágico. E o maior problema é que nem o Bloco nem o PCP são capazes de lidar com o conceito de tragédia. Mas isso é outra história. Ou talvez não.

20 comentários:
De Anónimo a 18 de Março de 2010 às 20:29
Tente antes ver a "big picture" para entender o que se está a passar e porque reage a esquerda do modo que reage. Temos uma crise financeira gigantesca a nível mundial, e os governos não tentam actuar como nos idos anos 30 (não querem ou não podem, é irrelevante). A esquerda bate-se pela irracionalidade do Capitalismo, é socialista (se é que a palavra lhe diz alguma coisa). Os partidos europeus da laia do PS rejeitam a luta de classes, rejeitam o antagonismo Trabalho/Capital. É a esquerda moderna. Pois bem, a esquerda ainda se revê no quadro de luta de classes. Como vê, é um pequeno passo ao conteúdo do seu post.


De rafael a 18 de Março de 2010 às 20:31
O principio do "realismo"...humm....eu sei que nao há idade para deixar de sonhar, mas vê-lo tao jovem e tao pragmático, assusta-me, realmente assusta-me...


De JMJ a 18 de Março de 2010 às 21:28
Sr. Galamba,


Lá porque o senhor não percebe, não quer dizer que seja impossível. Lá porque é impossível para si perceber, não quer dizer que seja impossível para outros de alcançar. A irresponsabilidade está no seguir pelo caminho errado e continuar e teimar e criticar quem avisa para mudar, apenas porque se tocam nos direitos alguns (poucos), para defender os de muitos.


"cada drama, cada injustiça, cada sofrimento humano dá automaticamente direito a um direito. Quem ousar mexer em certos direitos "adquiridos",  torna-se automaticamente num ser perverso e diabólico. "


Está então o Sr. Deputado a querer dizer que o sofrimento humano é desprezável? Acha que a sua função se extingue na defesa dos previlégios de alguns, como por exemplo, o direito de cada um à sua caixinha de robalos? Ou o direito da banca a pagar menos de IRC que a mercearia da esquina? Não sabe que foi eleito por concidadãos seus para acabar com sofrimentos e injustiças? Ou não tem nada a ver com isso?


(Ás vezes desejo bem que não tenha nada a ver com sofrimentos e injustiças porque senão. pelo discurso que aqui nos traz, estamos todos bem tramados...)


De JAPC a 18 de Março de 2010 às 22:48
  Quando há direitos ,tambem terá que haver deveres.Coisa não está a acontecer ,sei do que falo.Trabalho.Tenho sindicato.Mas,se querem que lhes diga,o sindicalismo actual nada tem de defesa do trabalhador,sendo pelo contra´rio correias de transmissão de correntes idiológicas.Que servirá ao trabalhador pedir aumentos salariais se depois isso irá implicar despedimentos e perda de postos de trabalho.


De JMJ a 18 de Março de 2010 às 22:57
É claro que há deveres e é claro que há direitos.


Quem luta pela imposição dos deveres?


Quem luta pela defesa dos direitos?


Respondendo-se a estas perguntas percebe-se a necessidade de um movimento sindical forte, politica e ideologicamente, para defender os direitos dos trabalhadores.


Para impor os deveres há outras forças, politica e ideologicamente empenhadas na defesa dos seus interesses. Não é esse o papel dos sindicatos.


De anonimo a 18 de Março de 2010 às 21:53
Não percebo o que tem Marx a ver com o caso. As circunstâncias mudam sempre, o que levaria a que não houvesse nunca direitos adquiridos. Quando passariam estes a caducar perante alteração das circunstâncias? E quem declarava tal coisa?
Aliás, como o desemprego vai desaparecer em breve (o primeiro ministro já falou em cento e tal mil postos de trabalho) nem vale a pena discutir tais minudências.



De António P. a 18 de Março de 2010 às 22:26

Força, João Galamba.
É desesperante ouvir as intervençõers do PCP e do BE no parlamento. É o atque sistemático a tudo o que seja proposta para tentar alterar qualqeur situação. Pegam semepre num caso ( qualquer ) para generalizarem e fazerem-se de desgraçadinhos.
Uma lástima.
Cumprimentos


De Dolores Cabral a 18 de Março de 2010 às 22:59
Concordo com o que escreve. Mas o PEC penaliza em demasia a classe media. As privitizacoes anunciadas não são aceitáveis. Os CTT? A EDP? A REN? Empresas que dão imensos lucros ao estado. Mesmo a TAP? Sei que tem problemas de capitalização e o governo parece que não pode intervir. Já agora pq não privatizar a RTP1? O que a distingue dos outros canais privados? Mas eu discordo das privatizações. As pessoas não aceitam que num pais em que a maioria paga a crise uma minoria tenha ordenados e bônus escandalosos em particular, em institutos e empresas publicas. Que os bancos paguem taxas de IRC muito mais baixas que as outras empresas enquanto os seus gestores de topo ganham fortunas e quem sabe se não usam os paraísos fiscais. Precisamos tanto de ética e de justiça na nossa sociedade!
Eu sei que o governo tem de respeitar a ortodoxia de Bruxelas (em 2008 parecia que todos eram keynesianos- mas era a fingir) mas talvez pudesse fazer um bocadinho melhor, ou seja mais justo. Assim o risco de matar o doente com a cura e grande demais.


De Pedro Sá a 19 de Março de 2010 às 09:03
O subsídio de desemprego deveria ser indexado ao salário mínimo. É absolutamente injusto que alguém receba essa prestação social recebendo mais do que quem está a trabalhar.

Isto é Estado Social. O Estado não tem qualquer obrigação de fazer as pessoas manter um determinado nível de vida.


De Carlos Novais a 19 de Março de 2010 às 09:45
O salário mínimo devia desaparecer, ou então fixar-se salários mínimos regionais proporcionais a diferenças de salário médio.


As pessoas menos habilitadas e a viver no interior, assim como potenciais empresários aí localizados são imensamente prejudicados pelo salário mínimo fixado nos padrões da capital.


De Pedro Sá a 19 de Março de 2010 às 10:02
Aqui bem se vê pelo CN como o liberalismo é profundamente anarquista...ou, mais propriamente, anti Estado central.

Tal medida levaria a que se vivesse na mais completa miséria no interior. E isso é mais que óbvio.


De Anónimo a 19 de Março de 2010 às 13:23
Que uso injusto foi dar à palavra "anarquista". Capitalismo de mercado livre não tem nada a ver com "anarquismo".


De weber a 19 de Março de 2010 às 10:37
Caro João Galamba,
Não concordo consigo.
"Volta Marx, estás perdoado", nem um micro segundo, nem um bocadinho.
Marx borregou completamente.
A história, a experiência dos países comunistas, os que implodiram e os que estão em vias disso (Cuba, China, Coreia do Norte, etc ) demonstraram à saciedade que Marx não teve razão e que foi o responsável "teórico" por um dos maiores embustes da sociedade.
Os seus comentadores, que urram pelos trabalhadores, pelos seus direitos, pelos subsídios de desemprego, pelos apoios sociais, pelos...o que sabem da URSS, da RDA , da Polónia, da Bulgária, da Roménia (só para citar estes...) socialistas?
Nada
[Error: Irreparable invalid markup ('<p [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

Caro João Galamba,
Não concordo consigo.
"Volta Marx, estás perdoado", nem um micro segundo, nem um bocadinho.
Marx borregou completamente.
A história, a experiência dos países comunistas, os que implodiram e os que estão em vias disso (Cuba, China, Coreia do Norte, etc ) demonstraram à saciedade que Marx não teve razão e que foi o responsável "teórico" por um dos maiores embustes da sociedade.
Os seus comentadores, que urram pelos trabalhadores, pelos seus direitos, pelos subsídios de desemprego, pelos apoios sociais, pelos...o que sabem da URSS, da RDA , da Polónia, da Bulgária, da Roménia (só para citar estes...) socialistas?
Nada
<P class=incorrect name="incorrect" <a>Niente</A> .</P>
<P class=incorrect name="incorrect" <a>Rien</A> .</P>
Falam do que não sabem e dizem barbaridades. Porquê? Por que são, aparentemente, inimputáveis .
Naqueles países "solares" do socialismo real havia sindicatos, da treta, mas não havia direito à greve. Havia "desemprego" (nunca registado nas estatísticas), mas não havia subsidio de desemprego.
Os trabalhadores obrigavam-se a ritmos, a horários e a salários NUNCA discutidos, sempre, impostos.
Não quero "ocupar" em excesso o seu espaço editorial, mas sempre lhe digo: - Os comentadores da treta, que defendem os "trabalhadores" o que fazem na vida? Ganham o salário mínimo ou são clientes do RSI ? Estão desempregados? Ou participam nalgum curso de formação profissional?
Para mim, caro João Galamba, Marx...JAMAIS!
Abraço,
J. Albergaria
PS - Prontuário ortográfico dixit : privilégio e não privelégio ".


De CC a 19 de Março de 2010 às 10:38
Retirado do blog Portugal Contemporaneo:


"Portugal é um dos países com os salários mais baixos da UE-15. Por esse motivo, os subsídios de desemprego não podem ser muito inferiores aos salários, que já são de sobrevivência. Os argumentos do PS, nesta matéria, são moralmente degradantes."



Caro Joao Galamba,
Tenha vergonha, ficava-lhe bem.


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9


22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


artigos recentes

História(estória) de F***...

bem-vindos ao maravilhoso...

E agora, completamente a ...

ligar os pontos

Frase Pró Infinito e Mais...

frase Twilight Zone do di...

frase Twilight Zone do di...

errar outra vez, outra ve...

vamos por partes

O que é isto?

Do twitter para aqui: cor...

Sim sim, o gajo só ligou ...

O que parece é?

têm medo de quê?

pobreza estrutural

últimos comentários
Revelador o autor ou amigas deixarem passar este c...
bom dia, pode meter o socrates antes da MMG ou dps...
Bom dia, nao andou longe do que eu sinto pelos def...
Que nunca o erro seja mera mentira, é quanto se po...
A cegueira e a estupidez fazem um conjunto explosi...
Perdi a ligação a partir de Sócrates. Mas cada um ...
bom dia , é a unica coisa que ainda tenho...e a ve...
Não , nós aqui só cortamos cabeças não sabia? Pode...
Ainda ontem estive à conversa com o Pai Natal!&nbs...
Peido Frederico?!
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds