Sexta-feira, 19 de Março de 2010

Gosto muito desta palavra. Pelo que implica de responsabilidade mútua, confiança e também pela contida sugestão de paz. Tem sido repetida vezes sem conta nos últimos dias, incluída numa sigla que, como alguém já disse, repentinamente se tornou do domínio comum - o PEC, ou Pacto de Estabilidade e Crescimento, vertido na sua versão nacional, o Programa de Estabilidade e Crescimento.

 

Sabemos que, devido à crise mundial, o PEC apresentado por Portugal para o triénio 2010/13 tem de ser particularmente severo do ponto de vista da contenção da despesa e do aumento da receita. Até aqui tudo bem - ou melhor, tudo necessário. A coisa muda de figura quando se verifica que entre as medidas propostas se inclui um limite para a despesa das prestações sociais anunciado sobretudo como um "plafonamento" do rendimento social de inserção (RSI) e uma diminuição dramática das deduções fiscais. Como vários outros críticos desta medida, entre os quais Paulo Pedroso, já apontaram, a necessidade de controlo e fiscalização do RSI no sentido de detectar fraudes e atribuições indevidas é uma coisa, aliás fundamental e premente, outra muito diferente é decidir que a partir de um certo valor de despesa não há mais RSI para ninguém - havendo ou não mais pessoas em situação desesperada (aquelas, pessoas e situações, para as quais o RSI foi, precisamente, desenhado). Num contexto de crise e de previsão do aumento do desemprego, esta medida parece-me incompreensível e mais: muito pouco socialista. E tanto mais incompreensível e tanto menos socialista quanto a tributação das mais-valias bolsistas, anunciadas também no PEC, terá sido adiada - sem que se explique por que raio se vai avançar já com medidas que penalizam os mais pobres e os "remediados" (caso da diminuição dos benefícios fiscais) e não com as que por definição atingem os mais abastados e que deveriam também incluir um aumento dos impostos sobre os lucros da banca (que nem sequer foi aventado) e uma racionalização nos salários e bónus dementes auferidos por gestores do sector empresarial do Estado.

 

Sei o que me responderão muitos economistas e o que pensarão (mesmo que o não digam) os responsáveis governamentais: reduzir as prestações sociais e os benefícios fiscais são medidas fáceis de executar e com eficácia garantida: sabe-se exactamente quanto se ganha e controla-se exactamente o ganho, ao passo que outras medidas poderão ter o chamado "efeito perverso" da "fuga de capitais" ou são muito difíceis de aplicar - como um combate decidido e sem tréguas à evasão fiscal, estimada em cerca de 20% do PIB (ou seja, aplicando-se a carga fiscal média, algo como 10 mil milhões de euros a menos nos cofres do Estado este ano). Por mais pragmática e até proveitosa que seja no imediato, a lógica deste PEC tem, no entanto, um problema: contradiz o pacto essencial de uma sociedade democrática - o de criar justiça social.

 

(publicado hoje no dn)

 

adenda: o joão galamba, que percebe destas coisas económicas um bocadito mais que eu, chamou-me a atenção para o erro que cometi ao escrever que não foi aventado um aumento dos impostos sobre os lucros da banca: subiu para 18,75%, cerca de 3%. as minhas desculpas a todos menos à banca, que devia pagar mais.


10 comentários:
De fernando antolin a 19 de Março de 2010 às 12:35
Já sem falar nos perdões a conceder a quem tenha desviado uns dinheiritos para off-shores. Enfim tudo muito do mesmo,muito socialista...ou melhor,muito PS.


De fernando f a 19 de Março de 2010 às 13:11
Pois, há de facto um pacto mas é de não agressão/hostilização ao grande capital sediado em bolsa e na banca (18,5% outras empresas pagam 25%) e etc. E depois só lhe ocorreu um socialista, bem, parece que há mais, mas contam-se pelos dedos de uuma mão, a haver mais estão com medo/vergonha, bem se têm vergonha não são socialistas.


De PGVF a 19 de Março de 2010 às 13:30
subscrevo inteiramente este post.


De Tiago a 19 de Março de 2010 às 14:19
Chamo apenas a atencao no primeiro paragrafo que Pacto de Estabilidade e Crescimento e Programa de Estabilidade e Crescimento sao documentos diferentes. O PEC e' um conjunto de medidas acordadas entre os membros da Uniao de estabilidade macroeconomica enquanto o PEC e' um documento com projeccoes economicas a 4 anos.


De Marcelo do Souto Alves a 19 de Março de 2010 às 14:29

Quero acreditar que este Governo de José Sócrates só não é mais socialista, no sentido lato atribuído neste texto, porque de todo não pode. E prefiro estas medidas tomadas por um Governo de Esquerda, do que as mesmas tomadas pela Direita. No entanto, é bom que José Sócrates demonstre que assim é quanto antes, ou seja, logo que possível tome medidas sustentáveis conducentes a uma maior justiça social. Que, todavia, não consiste apenas em roubar aos ricos para dar aos pobres, como muito boa gente ainda pensa, mas sim em dar a quem merece o que lhe é devido (e uns merecerão sempre mais do que outros), no respeito escrupuloso pelas regras do jogo. Políticas, económicas e, sobretudo, FISCAIS.


De Helder a 19 de Março de 2010 às 15:29
"Quero acreditar que este Governo de José Sócrates só
não é mais socialista, no sentido lato atribuído neste texto, porque de
todo não pode.
"
Tens que querer meeesmo com muita força, olhos fechados, a fazer figas, e pelo sim pelo não, morde a almofada.


De Marcelo do Souto Alves a 23 de Março de 2010 às 16:45

E tu, ainda votas no camarada Jerónimo? E mordes muito na almofada à espera da ressurreição do comunismo (talvez agora na Páscoa)? Boa sorte...


De j a 19 de Março de 2010 às 14:31
estou espantado. muito bem. do melhor que já escreveu nos últimos tempos.

à excepção das desculpas a «o João Galamba», que, se é a mesma pessoa que escreve por aqui umas coisas muito alinhadas, não acho que as mereça.

de facto, duvido que «o João Galamba» perceba mais do que você, ou do que eu, de economia, mesmo tendo tido alta classificação na sua licenciatura, o que não duvido que com todo o mérito.

só que, em sentido genérico e não em relação a nenhum economista em particular, há muito que aprendi a desconfiar dos bons e mesmo dos excelentes economistas, particularmente dos «bons alunos» que se especializam a argumentar os erros das análises que fazem.


De delargo a 19 de Março de 2010 às 14:52

"o joão galamba, que percebe destas coisas económicas um bocadito mais que eu"
 
A f.não percebe nada, o joão galamba percebe "um bocadinho mais". Sim, de acordo. além de que essa é uma boa maneira de qualificar os conhecimentos de economia do joão galamba.


De Helder a 19 de Março de 2010 às 15:25
Que socialistas são estes que encaram o subsidio de desemprego como uma esmola?
Esse galamba concorreu ao parlamento com que programa?


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Fevereiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29


artigos recentes

joão duque,

Populus in res publica su...

Os Cinco Pecados Mortais ...

Os Cinco Pecados Mortais ...

AT/DT

Todos os dias há uma nova

Hum, como falar do assunt...

Leituras: History Will Te...

João Fernandes no Reina S...

O tempora! O mores!

...

Antoni Tàpies (1923- 2012...

A bem da minha úlcera vou...

"Estúpido e irracional"?

International Day of Zero...

últimos comentários
Nuno: parece que o «acordo» fez disparar a leitura...
Uma explicação para escrever os nomes dos meses co...
Esta do reaccionarismo da ortografia tem graça A g...
Eu li! Eu li! Mas é mais um 'especialista' da bola...
bem explicado! e irrita sobremaneira a sanha contr...
Eu ate estava a gostar de o ler, mas depois chegue...
Não sou especialista nem tenho opinião inabalável ...
Não sou especialista nem tenho opinião inabalável ...
E o quinto "Reaccionarismo" : Portanto, depois de ...
Li até «direcões»...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds