Gosto muito desta palavra. Pelo que implica de responsabilidade mútua, confiança e também pela contida sugestão de paz. Tem sido repetida vezes sem conta nos últimos dias, incluída numa sigla que, como alguém já disse, repentinamente se tornou do domínio comum - o PEC, ou Pacto de Estabilidade e Crescimento, vertido na sua versão nacional, o Programa de Estabilidade e Crescimento. Sabemos que, devido à crise mundial, o PEC apresentado por Portugal para o triénio 2010/13 tem de ser particularmente severo do ponto de vista da contenção da despesa e do aumento da receita. Até aqui tudo bem - ou melhor, tudo necessário. A coisa muda de figura quando se verifica que entre as medidas propostas se inclui um limite para a despesa das prestações sociais anunciado sobretudo como um "plafonamento" do rendimento social de inserção (RSI) e uma diminuição dramática das deduções fiscais. Como vários outros críticos desta medida, entre os quais Paulo Pedroso, já apontaram, a necessidade de controlo e fiscalização do RSI no sentido de detectar fraudes e atribuições indevidas é uma coisa, aliás fundamental e premente, outra muito diferente é decidir que a partir de um certo valor de despesa não há mais RSI para ninguém - havendo ou não mais pessoas em situação desesperada (aquelas, pessoas e situações, para as quais o RSI foi, precisamente, desenhado). Num contexto de crise e de previsão do aumento do desemprego, esta medida parece-me incompreensível e mais: muito pouco socialista. E tanto mais incompreensível e tanto menos socialista quanto a tributação das mais-valias bolsistas, anunciadas também no PEC, terá sido adiada - sem que se explique por que raio se vai avançar já com medidas que penalizam os mais pobres e os "remediados" (caso da diminuição dos benefícios fiscais) e não com as que por definição atingem os mais abastados e que deveriam também incluir um aumento dos impostos sobre os lucros da banca (que nem sequer foi aventado) e uma racionalização nos salários e bónus dementes auferidos por gestores do sector empresarial do Estado. Sei o que me responderão muitos economistas e o que pensarão (mesmo que o não digam) os responsáveis governamentais: reduzir as prestações sociais e os benefícios fiscais são medidas fáceis de executar e com eficácia garantida: sabe-se exactamente quanto se ganha e controla-se exactamente o ganho, ao passo que outras medidas poderão ter o chamado "efeito perverso" da "fuga de capitais" ou são muito difíceis de aplicar - como um combate decidido e sem tréguas à evasão fiscal, estimada em cerca de 20% do PIB (ou seja, aplicando-se a carga fiscal média, algo como 10 mil milhões de euros a menos nos cofres do Estado este ano). Por mais pragmática e até proveitosa que seja no imediato, a lógica deste PEC tem, no entanto, um problema: contradiz o pacto essencial de uma sociedade democrática - o de criar justiça social. adenda: o joão galamba, que percebe destas coisas económicas um bocadito mais que eu, chamou-me a atenção para o erro que cometi ao escrever que não foi aventado um aumento dos impostos sobre os lucros da banca: subiu para 18,75%, cerca de 3%. as minhas desculpas a todos menos à banca, que devia pagar mais.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
