Sexta-feira, 19 de Março de 2010
Eu já estou habituado aos excessos retóricos do Tiago Mota Saraiva. Mas ele podia ao menos tentar criticar sem rotular o adversário de "popular direitista" e, já agora - e espero não estar a pedir de mais -, que evite o enxovalho de dizer que eu tenho um "discurso de ódio" em relação aos desempregados. Isto é pouco sério e não lhe fica bem. Se o Tiago quer desqualificar gratuitamente, que o faça, mas sem arremedos de racionalidade, por favor.
Em relação aos sindicatos, limito-me a seguir a opinião de muita gente à esquerda: o nosso movimento sindical representa mais a linha ideológica de certos partidos do que os interesses dos trabalhadores e é um dos movimentos mais reaccionários da Europa. Se isto significa ser de direita, então o António Chora, o Pedro Adão e Silva e o Paulo Pedroso que se cuidem. É por acreditar no movimento sindical que critico estes sindicatos. Se o Tiago acha esta é a mesma posição do CDS, o problema é dele, não meu.
Em relação aos desempregados, limitei-me a dizer uma coisa que me parece óbvia: não há direitos garantidos porque não há direitos independentes da condição de possibilidade desses mesmos direitos; isto é, todas as prestações sociais dependem da sustentabilidade financeira do sistema que os garante, que os torna possíveis. Onde o Tiago vê ódio, eu vejo realismo: numa altura em que o desemprego é elevadíssimo, não mexer no regime do subsídio de desemprego pode pôr em causa a sustentabilidade do sistema. É óbvio que eu posso estar enganado. Mas se o Tiago discorda de mim, que tal abandonar o insulto primário e avançar com propostas que, primeiro, reduzam o défice até 2,8% em 2013 e, segundo, que não mexam com o regime do subsídio de desemprego.
Já agora, convém não propor disparates a la Louçã, como o de não comprar os submarinos e acabar com o offshore da Madeira - se o primeiro não é possível por razões que não carecem de explicação, o segundo não aumentaria as receitas fiscais, pois quem já está no offshore da madeira muda-se sem qualquer custo para outro offshore qualquer. E também não vale dizer que se proibe os offshores, nem que se taxa em 25% todas as transferências para os ditos, uma vez que é sempre possível realizar transferências indirectas, escapando a essa taxação. Em suma: convém que sejam propostas com alguma adequação a algo que se assemelhe à realidade em que vivemos. Talvez seja pedir de mais, eu sei. Mas eu - chamem-me louco - ainda acredito na sanidade e na boa-fé do Tiago.
De António Carlos a 19 de Março de 2010 às 16:48
Caro João Galamba,
acho que tem razão quanto à substância do seu post. Mas também há-de reconhecer que esta sua frase
"não há direitos garantidos porque não há direitos independentes da condição de possibilidade desses mesmos direitos; isto é, todas as prestações sociais dependem da sustentabilidade financeira do sistema que os garante, que os torna possíveis"
nunca seria (nem foi) pronunciada na campanha eleitoral. Mais, se alguém (da oposição) a proferisse tenho a certeza que seria veementemente criticado pelo PS: no mínimo pela "ala esquerda do PS", que em nada influencia a governação, mas que é muito útil em campanhas eleitorais.
É esta postura, que classifico como desonesta intelectualmente, que acho merecer crítica.
Caro António,
Essa minha frase não tem nada de escandaloso; é um truísmo, é uma verdade quase axiomática: um direito garantido tem de ser garantido por algo, ou não? logo, não é a vontade de os garantir, mas sim a possibilidade de tal acontecer que deve ser assegurada. Isto é, tem de haver dinheiro para pagar esses direitos.
De António Carlos a 19 de Março de 2010 às 17:24
Caro João Galamba,
concordo que não tem nada de escandaloso mas por isso mesmo não compreendo que não seja afirmado em campanha eleitoral.
Por outro lado, porque não alargar o âmbito de aplicação do truísmo a outras áreas. Por exemplo:
- Serviços públicos estatais (saúde)
"não há serviços públicos garantidos porque não há serviços públicos independentes da condição de possibilidade desses mesmos serviços públicos; isto é, todas os serviços públicos dependem da sustentabilidade financeira do sistema que os garante, que os torna possíveis"
- Investimentos públicos (auto-estradas, tgv, aeroporto, por exemplo)
- Ou, mais importante, pensões de reforma
"não há pensões de reforma garantidas porque não há pensões de reforma independentes da condição de possibilidade dessas mesmas pensões de reforma; isto é, todas as pensões de reforma dependem da sustentabilidade financeira do sistema que os garante, que os torna possíveis"
Pode parecer um truísmo, mas a verdade é que as sucessivas reformulações do sistema público de pensões termina sempre com uma promessa: com esta reforma o a sustentabilidade do sistema está garantida. Será, ou será apenas que ninguém tem coragem, particularmente em períodos eleitorais, de afirmar truísmos?
A verdade é o post de Tiago Mota Saraiva prova que se o PS afirmasse esses truísmos em campanha eleitoral perdia uma larga faixa do seu eleitorado mais à esquerda. Por isso classifiquei essa atitude como de "desonestidade intelectual e política".
Não é preciso dizer nada disso, pois tratam-se de pressupostos de toda a pollítica do PS. Para Bloco e PCP defender o Estado Social é manter e reforçar o que existe, independentemente do seu custo. O PS preocupa-se com a sustentabilidade de todas as coisas que refere, daí ser apelidado de direitista e neoliberal pelos irresponsáveis do costume
De burns a 20 de Março de 2010 às 21:16
não é por repetir isso até a exaustão que isso passa a ser verdade
toda a campanha eleitoral do ps foi sustentada em promessas que são rigorosamente o contrario daquilo que estão a fazer
não faça ,por favor , dos portugueses parvos
De fernando antolin a 19 de Março de 2010 às 18:01
"...Não é preciso dizer nada disso, pois tratam-se de pressupostos de toda a pollítica do PS..." "...O PS preocupa-se com a sustentabilidade de todas as coisas que refere..."
Bela profissão de fé, já agora os nºs do Euromilhões, pode ser,sr. deputado ?? Obrigado !!
De Miguel Braga a 20 de Março de 2010 às 00:52
Como andam os discurso políticos de esquerda!!!... Sócrates, qual filósofo, alterou as concepções políticas de esquerda de muita boa gente...
De Xico a 20 de Março de 2010 às 16:17
Na 1ª vez que aqui "caí"... fiquei esclarecido. O cheiro a mofo é tal que, acredito, só poderá vir dos barracões da defunta União Nacional!!!
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