Em quase todo o reino animal, é a fêmea que assegura a reprodução das espécies, mas nos cavalos-marinhos, dragões do mar e peixes-cachimbo, o macho tem uma bolsa incubadora com uma estrutura semelhante à placenta que lhe permite ser ele a assumir a maternidade. E, nestas espécies, as fêmeas cortejam e competem pelos machos, com a barbatana dorsal erecta e o corpo em forma de S exibindo proeminentemente o ovopositor com que engravidará o macho que consiga conquistar.
A tarefa não é fácil porque os machos não se deixam engravidar com muita facilidade e só as fêmeas mais atraentes têm hipóteses de sucesso. Em particular os peixes-cachimbo evoluiram comportamentos um tanto inesperados como nos conta o último número da Nature. No artigo, Kimberly A. Paczolt Adam e G. Jones, do Departamento de Biologia da Universidade do Texas, mostram que os machos deste peixe agulha abortam frequente e selectivamente os embriões, absorvendo os seus nutrientes, especialmente se a fêmea que os depositou não for suficientemente atraente.
Este «Post-copulatory sexual selection and sexual conflict in the evolution of male pregnancy» está prenhe de metáforas prontinhas a serem utilizadas, em particular uma que ouvi inúmeras vezes há uns anos: se os homens engravidassem, o aborto seria um sacramento. Sacramento não sei, mas comportamento rotineiro certamente, pelo menos para os membros da família Syngnathidae.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
