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jugular

habituar o hábito

Não sei quando reparei nisso a primeira vez. Ou a que propósito. Se naqueles impressos que todos os anos se tem de preencher na escola, aquando da nova matrícula, se num pedido de bilhete de identidade. Foi decerto num documento qualquer oficial. No lugar da filiação, aparecia sempre o nome do pai antes do da mãe. Não que estivesse disposto assim, não porque estivesse lá escrito que assim era, mas porque toda a gente partia do princípio de que assim devia ser.

O homem antes da mulher. Dir-se-á: por causa do nome que passa para o filhos. Porque é o nome dele “que conta”. Tantas vezes ouvi isso: o nome do pai é que é “o nome verdadeiro”. Ou “esse naõ é o teu verdadeiro nome”. Porque, precisamente, uso o apelido da minha mãe. Ou seja, na verdade o nome do meu avô materno – e portanto, afinal, o nome do homem. Uma ironia, pois. Mas não, não foi uma escolha feminista: aconteceu. Era o nome mais incomum e fiquei “a Câncio”. É possível que esse acaso tenha tido um papel na consciência que em mim se desenvolveu, desde relativamente cedo, da estranheza dessa preponderância do nome do homem, do lugar do homem, do papel do homem. Dessa hierarquia aparentemente tão clara para todos que se repete, sem um sobressalto ou interrogação, a cada vez que se diz, se lê, se ouve “homens, mulheres e crianças”. Homens, mulheres e crianças. Assim, nesta ordem. Uma ordem aparentemente “natural”a que corresponde, na representação estilizada do grupo, digamos, familiar, uma escala de importância decrescente, simbolizada em tamanhos, alturas. Nunca, nunca se viu – e, pergunto, alguma vez se verá? – uma família de catálogo, daquelas da publicidade ou das fotos padrão, em que a mulher é mais alta – portanto maior -- que o homem. Não: a coisa é sempre figurada em escadinha: ele, ela, os miúdos. Há países, culturas, sociedades, em que essa ordem das coisas é encenada de formas que chocam a nossa percepção ocidental. O homem sempre uns passos à frente da mulher nos países muçulmanos. Nos automóveis, eles sempre nos lugares da frente, elas sempre nos de trás. Eles comem numa sala, elas noutra. Eles recebem os convidados, elas escondem-se. Estranho, inaceitável, horrível, etc, dizemos nós, a sociedade igualitária, liberta. A que escreve na Constituição que todos são iguais em dignidade e repete, em estribilho: “homens, mulheres, crianças”. Nunca “mulheres, homens, crianças”. Nunca o nome da mãe antes do nome do pai -- para quê criar confusões? Para quê questionar o óbvio? Porquê dar importância ao que é apenas tradição, hábito, símbolo? Para quê, de facto. Só mesmo alguém que faz questão de questionar mesmo as coisas mais “normais” e “naturais” e “óbvias” – alguém que, precisamente, tem a mania de colocar aspas em palavras tão indiscutíveis como natureza e normalidade –, de complicar e implicar, acharia alguma coisa de estranho, de significativo, nesta lei da escadinha e faria questão de subverter a normalíssima norma, passando a escrever sempre o nome da mãe antes do nome do pai. Honra seja feita à burocracia, nunca o zelo de uma funcionária ou um funcionário me repreendeu a “inversão”. Nunca me mandaram repreencher o impresso. Limitaram-se a renormalizar a coisa. No BI e no passaporte, seja qual for a ordem pela qual apresento os factores na papelada, há-de aparecer sempre, sem excepção nem explicação, o nome do homem antes do da mulher, o pai antes da mãe. Até um dia, digo eu, que de vez em quando, muito raramente, decido ter fé. Ou é isso ou é esta ideia de que não se deve desistir. Nunca. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 21 de Outubro)

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