Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

por causa do jornalismo, parte milionésima sexagésima sétima

há uma semana, escrevi no dn duas páginas sobre aborto, com uma tentativa de balanço em relação aos tres meses de aplicação da nova lei. resolvi faze-lo sobretudo na perspectiva 'não oficial', já que os números disponíveis tem sido divulgados todos os meses e, para além das idades, ainda não existe o prometido 'perfil' da utilizadora do serviço, nem tão pouco percentagens de desistencias após a primeira consulta. fiz, assim, algo que já planeava fazer antes de a lei entrar em vigor: aquilatar, junto do circuito clandestino que conhecia de reportagens anteriores, da continuação de abortos fora da legalidade, quer por opção (dentro das 10 semanas), quer por se ter excedido o tempo admissível.

esperava que houvesse ainda mulheres a abortar clandestinamente e, de acordo com os testemunhos que recolhi, há. surpreendente mesmo para mim foi saber, junto de uma técnica de saúde, que não só ainda há mulheres que vão as farmácias comprar misoprostol (sob a forma de cytotec e arthotec, medicamentos para o estomago) para abortar como agora algumas dizem, no acto da compra, aos farmaceuticos para que querem o medicamento -- e em dois casos, os ditos venderam-no. também fiquei surpreendida por perceber, mais uma vez atendendo aos testemunhos recolhidos, que há mulheres que julgam que ainda não é possível abortar legalmenmte (esta custou-me mesmo muito a perceber, depois da chinfrineira que se fez por causa disto, mas enfim). não me surpreendeu nada que haja mulheres que deixam passar o tempo, embora a percentagem que yolanda hernandez, a directora da clínica dos arcos, afirma aparecer na clínica -- 22% -- me tenha parecido ainda assim excessiva. para alguém que, como eu, se bateu pela aprovação desta lei, é desagradável reconhecer que existem mulheres que ou não prestaram a mínima atenção ao que se esteve a discutir ou são incapazes de obter informação ou optam por um aborto clandestino (mais caro e sempre mais perigoso, por melhores que sejam as condições, já que não só correm o risco de ser apanhadas e punidas como, se algo correr mal, nunca sabem como as coisas acabarão), mesmo tendo clínicas privadas legais (e portanto, em princípio, mais 'reservadas') ao dispor. é talvez expectável que tudo isto ocorra no início da entrada em vigor de uma lei, e sobretudo de uma lei como esta, mas não é de todo simpático que assim seja. e sabia -- ou antecipava -- que estas informações iriam agradar sobremaneira a quem passou uma campanha inteira a tentar provar a 'proverbial irresponsabilidade' das mulheres. o certo é que, tirando uma menção aqui e ali na blogosfera anti-escolha, a recepção foi mansa. houve, é certo, quem lesse no texto que escrevi um apelo ao alargamento dos prazos (o que é verdadeiramente extraordinário). mas de um modo geral ninguém pegou naqueles dados para esgrimir contra a lei. e isto porquê? porque os dados foram apresentados por mim. o raciocínio, portanto, foi o seguinte: se esta abortista militante (como eles dizem) escreveu isto, deve ter alguma fisgada, melhor não pegar no assunto. também podem achar que tudo o que escrevo é mentira -- podia inventar mentiras que me agradassem mais, porém, mas isso não interessa nada -- ou podem, como no exemplo citado, ler no que escrevi -- como não? -- uma intenção perversa ('ela, essa grandessíssima assassina e tudo e tudo e tudo, quer é que se possa abortar até aos 15 anos de gestação). esta fascinante descoberta é particularmente bem ilustrada num post de um blogue que creio recente e que conheci por intermédio de uma das comentadoras mais incansáveis do cinco dias, a cruzada maria joão marques. infelizmente, a pessoa que assina o post em causa é mais tímida, usa um pseudónimozito, mas tem nela o mesmo vigor na luta pelo bem que a maria joão extravasa por aqui (e ainda bem, anima as caixas de comentários que é um gosto). o que este post tem de fantástico é que usa toda a informação sobre a manutenção do aborto clandestino e o passar do prazo gestacional que eu forneço no texto e reconhece-a como boa (ou seja, não a põe em causa), embandeirando até um bom bocado em arco com ela -- então, isto vem confirmar o que os do não diziam, 'as gajas são todas umas irresponsáveis, etc' -- mas chama-lhe 'preciosidade "jornalística"'. os dados são bons -- e novos, imagine-se -- mas o jornalismo não presta. isto porque, explica a tal pessoa, eu atribuo uma parte dos casos a má informação (que o faça com base nos testemunhos recolhidos é irrelevante, aquilo é tudo inventado, certo?) e 'só' falo das 'outras hipóteses' muito mais à frente (deve ter-lhe passado, acontece, o final do primeiro parágrafo da notícia principal: '"Umas talvez não saibam de quanto tempo estão, outras sabem mas querem ver se passa. E haverá aquelas que nem conhecem bem a lei'). mas o melhor de tudo, neste post, é a reminiscência de uma entrevista que publiquei em 1998 e repostei num blogue onde escrevi de 2005 a 2007 (o glória fácil). esta entrevista ('nada do outro mundo'), feita a uma enfermeira que fazia abortos, causou grande comoção na blogosfera pela sua linguagem crua e pelo contexto de pré-campanha referendária. houve quem, na altura, tivesse escrito que a entrevista era 'um tiro no pé' (sobre isso, escrevi isto). a absoluta incapacidade de certas -- talvez muitas -- pessoas de distinguirem a perspectiva jornalística da perspectiva ideológica ou emocional nunca cessa de me maravilhar. a explicaçao mais óbvia para isto é que quem assim ve (não posso dizer pensa) não concebe a hipótese de, estando no meu lugar, ou seja, sendo jornalista, não torcer a realidade para melhor lhe servir. a não ser que se opte pela explicação mais simples: há pessoas burras. muito burras ( ó, deus, se há). e quanto a isso, batatas.

53 comentários

Comentar post

Pág. 1/6

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Pode dar mais detalhes?

  • Paulo Pinto

    por acaso, a expressão do "saber só de experiência...

  • Luís Lavoura

    o melhor método que temos à nossa disposição para ...

  • Luís Lavoura

    É preciso um certo cuidado, pois o facto de algo n...

  • Filipe Gomes

    O problema das medicinas alternativas é o facto de...

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Links

blogs

media