Sexta-feira, 2 de Abril de 2010
Rogério da Costa Pereira

É uma palavra feia. Rancor. Tem som de ódio, cor de desadoração. Cheira a aversão, o toque reage-lhe com repulsa, às vezes com (mera) embirração. Tem sabor de orgulho que cega. É uma palavra feia, pois. Ai de quem, coagido pelos sentidos reféns — dizem que são cinco nos homens, seis nas mulheres (o que as desculpa ainda menos) —, se aconselha por ela. O cheiro da sobranceria, o barulho do tijolo cru, a imagem do berro que ninguém compreende, a sensação da razão em fuligem. E tudo assim preferir, alimentando-se da altivez de quem prefere cair a agarrar-se.

Com rancor se faz e se desfaz. Países e paixões. Não sendo o rancor, o mapa dos homens seria talvez diferente, conceda-se. Estaríamos a falar inglês, alemão, castelhano. Latim? O rancor é também nosso, português e mais, e ai de quem nunca por ele se alumiou. Alucinou. Porque fomos rancor, somos (usem a desculpa com moderação).

Ao nascer, berramos raivosos. Ao morrer, gritamos vingativos. A causa é a mesma: rancor. A puta da luz que nos ensombra. Assombra?

Há, porém, quem pareça decidir viver assim, respirando só esse estar — certo da certeza de que a culpa não lhe pertence. Ainda que não haja culpa, ainda que as coisas sejam mesmo assim. Ainda que o delito seja das coisas que são. Só por serem.

Às vezes (quase sempre), o rancor serve apenas para roer a alma (a nossa e a dos outros), que os países já se inventaram e as paixões repousam na serenidade do que é ou do que foi. É também isto, o rancor: exculpação, projecção no outro do que correu menos bem.

Em suma, e do rancor: às vezes sim, outras vezes não.

(também neste arquivo de coisas)

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4 comentários:
De Isabel Moreira a 2 de Abril de 2010 às 18:18
maravilhoso.


De Rogério da Costa Pereira a 2 de Abril de 2010 às 20:39
Obrigado, maravilhosa.


De besugo a 2 de Abril de 2010 às 19:03
"Ao nascer, berramos raivosos. Ao morrer, gritamos vingativos. A causa é a mesma: rancor. A puta da luz que nos ensombra. Assombra?

Há, porém, quem pareça decidir viver assim, respirando só esse estar — certo da certeza de que a culpa não lhe pertence. Ainda que não haja culpa, ainda que as coisas sejam mesmo assim. Ainda que o delito seja das coisas que são. Só por serem."


Considere isto uma coisa que eu sei mesmo (tanto quanto quem não sabe de saber reconhecido) e ceite 3 perguntas:
1 - Já reparou no ritmo do seu texto?
2 - Já reparou que não sacrificou o conteúdo ao ritmo (apesar de ser tentador, como na frase que decalquei)?
3 - Já leu muitas vezes textos assim de tipos que publicam coisas encadernadas.

Você é um escritor e não deixe que lhe digam o contrário sem se iluminar com um sorriso de perdão.
Se já sabia que é um escritor, desculpe lá. Reforce-se nisto, ou o caralho.


De Rogério da Costa Pereira a 2 de Abril de 2010 às 20:39
Não sacrifiquei o conteúdo ao ritmo porque nem pensei nisso. Aliás, o ritmo faz parte do conteúdo ou, se quiser, é o conteúdo que dá música à coisa. Quanto a ser ou não escritor: já deixei de tentar classificar estes meus textos. Uma coisa é certa: não têm encadernação possível porque o jumbo não vende disto. Mas claro que agradeço o comentário, besugo, e claro que me sirvo dele.


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