Sábado, 3 de Abril de 2010

Que Deus não existe, dizem. Parvoíce. Deus existe e eu conto-lhe uma história todas as noites — ando agora a ler-lhe o Pinóquio (antes foram os Maias para crianças — noto que ele estranha a mudança, vejo-o nos cocós, que andam menos consistentes). Há dois anos e meio, Deus escrevia-se com minúscula. Era o deus das guerras, o deus da barbárie, o deus redutor dos massacres em nome de, o deus das mortes nas gémeas. deus e o petróleo, a urina de deus. O diabo; deus era o diabo. O diabo dos homens e da puta que os pariu. Nunca me servi dele, com excepção de uma revolta intestinal sem casa de banho à vista. Nem ele de mim. Nasceu o Francisco e tudo mudou. deus cortou as barbas e passou a Deus. Era uma vez um puto. Este meu Deus tem um feitio tramado, porque aos 30 meses ainda se julga um deus. Eu sou o braço esquerdo, a mãe é o direito. Julga ele. Neste Deus, que está no sorriso e no choro, já assentei umas belas dumas palmadas. Já mandei Deus de castigo para o quarto. Este Deus usa fraldas, duas de pano para dormir e uma descartável para fazer as coisas que só Deus pode fazer por ele (vamos acabar com isso no Verão, introduzindo-lhe a tirania do pitó — e ele a nós a prepotência da cama molhada). Este Deus, ao contrário do outro, dá-me sorrisos. Diz-me "papá, não vás trabalhar" (traduzo para os incréus, ignaros na língua Dele). Eu explico-lhe as coisas e ele entende. Deus magnânimo assimila. O problema é a sopa e a negociação que a coisa envolve. Digo-lhe para comer só uma colher, ele diz não, eu proponho três e ele decide-se por dez. Done!, e damos cinco. Quando Deus está presente, sinto-me um negociador do FBI num livro de Kafka. Deus não quer, eu quero. Acabo por convencer Deus que é ao contrário, que ele quer e eu não. Raras vezes a coisa não resulta, ó tirania dos homens.

Neste momento, passa da meia-noite, Deus está a dormir. Antes de dormir, disse-me, como faz todas as noites: àputo-puto (amo-te muito, na língua de Deus). E depois pregou-me um susto: “Bu!”.

Se o diabo está nos detalhes, Deus está ali ao lado, a dormir. Aquela tábua onde me agarro, onde ele se agarra, onde a minha mulher se agarra. Tudo o que nos une aos três. Isso é Deus. O outro, o do paga agora e livra-te do fogo dos infernos, nunca se mostrou e não o concebo. Não lastimo a minha falta de fé, porque a tenho. Fé no amanhã. No próximo passo do meu filho, o pontapé na bola, o dizer puta em vez de porta (que embaraços já me causou). Que mais se pode querer de Deus, para além da vontade de correr para casa para o ver? O meu pequeno grande Deus. Quinze quilos de matéria divina (com a fralda limpa pesa menos).

(também neste arquivo de coisas)

tags: ,
20 comentários:
De Marco a 3 de Abril de 2010 às 02:58
Antes que venham aqueles costumeiros das caixas de comentários gritar "blasfémia!", quero dizer-lhe, como crente, que é um texto magnífico.

Eu tinha mais coisas escritas, mas ia ser, provavelmente, mal interpretado, por crentes e não crentes em partes iguais, com excepção, talvez, dos que já foram tocados pela paternidade.

E como disse um comentador ali em baixo, não deixe que lhe digam que não é escritor!


De Rogério da Costa Pereira a 3 de Abril de 2010 às 15:23
Obrigado pelo comentário, mas não se preocupe com isso do ser ou não escritor.


De M.Coelho a 3 de Abril de 2010 às 10:28
Belíssimo!
Compartilho a perspectiva.
No meu caso sou "politeísta"; foram três os deuses que me alegraram a vida e nos quais ainda mantenho a fé.


De Miguel Braga a 3 de Abril de 2010 às 10:43
Se soubesses o quanto estás perto da Verdade... ou citando alguém «não estás longe do Reino de Deus».
Posso dizer mais, é de lamentar que não pensem todos desta forma, em relação a todos: ao filho, à esposa, ao marido, ao vizinho, ao amigo, ao «inimigo», etc...


De Rogério da Costa Pereira a 3 de Abril de 2010 às 15:22
Miguel: mudar a fralda ao inimigo? Não me parece, quero que ele se afogue em merda.


De Rogério da Costa Pereira a 3 de Abril de 2010 às 15:20
três deuses é muita fruta. Boa sorte. :)


De f. a 3 de Abril de 2010 às 12:53
puta em vez d porta? eheheheh, esse puto é d mais.


De Rogério da Costa Pereira a 3 de Abril de 2010 às 15:21
Giro giro é quando ele pede à mãe para abrir a porta. Sendo certo que ele usa poucos verbos, imagina o que dá.


De Alexandra Tavares Teles a 3 de Abril de 2010 às 14:43
Belo texto. Dá um beijo a Deus por mim.


De Rogério da Costa Pereira a 3 de Abril de 2010 às 15:21
Tem de ser no pezinho ou pode ser na bochecha? :)


De fernando antolin a 3 de Abril de 2010 às 15:13
Só espero que Deus possa vir a ser do Benfica...


De Rogério da Costa Pereira a 3 de Abril de 2010 às 15:21
Lamento. Sportinguista since day one.


De fernando antolin a 3 de Abril de 2010 às 16:05
Enfim, poderá ser então o Deus das pequenas coisas...


De Isabel Moreira a 3 de Abril de 2010 às 17:29
Achas que consegues explicar a Deus que tens aqui uma amiga que lhe quer dar um beijo do tamanho dele? Magnífico..


De Rogério da Costa Pereira a 3 de Abril de 2010 às 19:18
Vou tratar disso. Beijos


De besugo a 3 de Abril de 2010 às 17:45
É preciso dizer-lhe mais alguma coisa?


De Rogério da Costa Pereira a 3 de Abril de 2010 às 19:20
Sim, sim, diga. Adoro os seus comentários (e gosto deste tom de ralhete, mas a culpa não é minha).


De jv a 3 de Abril de 2010 às 19:40
Sportinguista? Como os Deues por vezes são tão injustos.
Belo texto.


De bom-dia a 5 de Abril de 2010 às 15:14
Deus devia de estar a dormir quando "aceitou" ser do Sporting.


De Marcelo do Souto Alves a 6 de Abril de 2010 às 12:13
Parabéns e felicidades! Para a questão sportinguística, digo eu (com compaixão verdadeira, sobretudo porque também padeço...). Se fosse crente dir-lhe-ia mais algumas coisas, por exemplo que também eu tenho dois que, embora não os vendo como meus deuses, em apenas poucos dias me deram a conhecer muito melhor o Deus que me obrigaram longos anos a adorar na credulidade na minha infância. Mas não posso dizer nada disto, porque infelizmente sou agnóstico...


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9


22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


artigos recentes

História(estória) de F***...

bem-vindos ao maravilhoso...

E agora, completamente a ...

ligar os pontos

Frase Pró Infinito e Mais...

frase Twilight Zone do di...

frase Twilight Zone do di...

errar outra vez, outra ve...

vamos por partes

O que é isto?

Do twitter para aqui: cor...

Sim sim, o gajo só ligou ...

O que parece é?

têm medo de quê?

pobreza estrutural

últimos comentários
always.
obrigada, valter. all my children, como diz o aust...
Eu, quando pago os meus impostos, é para pagar a s...
Uma frase com o selo oficial da ignorância e da ca...
A prova de que não delira são os coments excitadís...
só memo naquela da "verdade": falência? oi? se a r...
Revelador o autor ou amigas deixarem passar este c...
bom dia, pode meter o socrates antes da MMG ou dps...
Bom dia, nao andou longe do que eu sinto pelos def...
Que nunca o erro seja mera mentira, é quanto se po...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds