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Da família

A família é dos “fenómenos” mais complexos que nos persegue. Se é certo que há sociedades e sociedade, pode fazer-se um desenho de traços mais ou menos comuns que encontramos nos diálogos que temos pela vida fora acerca da “família”, mesmo havendo famílias e famílias, tal como há sociedades e sociedades dentro de uma só.

Cada um tem ou teve a vida que lhe calha, mas há muita coisa que é retirada da força das memórias familiares. A família, quando é coesa, e para mais numerosa, faz da nossa infância um “lugar”, uma ilha de afectos sem diferenças. Não se sente qualquer prisão, e ainda bem que não, uma criança nasce a escutar, só mais tarde lhe dá para ditar, e quando percorre os primeiros passos, se tem a sorte de encontrar todos os dias um colo, um beijo, a sua estrutura, essa ilha, o seu lugar onde não há divergências nem lutas, pensa que a vida será sempre assim, pelo menos com aquela gente, que funciona como uma extensão do seu corpo.

É quase religioso: na verdade, as palavras “mãe”, “pai”, irmão”, “irmã”, “primos”, “tios”, “avós”, estão carregadas não só de sangue, como de uma cultura cristã, não só de amor como de obediência, de temor reverencial e de tipos de exemplo a seguir.

Na infância, vive-se a olhar o mundo a partir de uma varanda, de costas voltadas para a nossa casa, e as diferenças, os problemas, os pecados, as mentiras, as desilusões, as promiscuidades vêm-se lá em baixo, na rua, fora da nossa família.

Há um dia em que nos viramos de costas e descobrimos que a rua lá em baixo também é habitada pelas pessoas da nossa casa. A nossa família não é perfeita, e nesse dia começamos a crescer e descobrimos, também, que crescer dói.

Crescer é como amar, dói, ou não seria crescer. A dor que mais me interessa é a dor maravilhosa da descoberta da identidade individual. Passo a passo, acontece-nos, ou pode acontecer-nos, viajar para outras paragens, encontrar outras famílias, sentir fora de casa, ler uns livros que com essa caminhada iniciam uma palavra que se chama distância.

De repente, pode ser numa mesa de Natal, verbalizamos uma opinião que pela primeira vez deixa de encaixar no “nós” e passa a consubstanciar um “eu”.  Se formos os únicos num universo uniforme que diz branco a dizermos preto, gera-se o silêncio, que dá pelo nome de estranheza: quem é este?; quem é esta? Não tens o direito de dizer isso!

Nesse dia inicia-se uma batalha. A batalha da construção da família de eus. Há quem pense que pais e filhos nunca devem ser vistos como iguais, mas como é impossível atingir a idade dos nossos pais, temos mesmo de ser iguais no respeito pela identidade de cada um, porque os filhos não são propriedade dos pais, dos tios, dos avós, ou, melhor dizendo, da ideologia que une aquela gente.

Tenho por certo que a nossa cultura familiar é altamente opressiva, pelas influências evidentes. Não há uma educação para a identidade individual, para cada um ser, com autenticidade e coragem, aquilo que venha a ser. Sob a capa do respeito, fala-se em traição aos valores da família, traição ao que te ensinaram, sem se perceber que não se ser aquilo que se é dá pelo nome de suicídio, devidamente assistido pelo conforto de não haver vozes discordantes.

Amar de novo a nossa família, depois de sermos castigados por existirmos, não é ter por benevolência quem nela nos apoia incondicionalmente – não é isso, o amor?. Amar de uma nova forma nossa família, depois de cuspidos por sermos um “eu”, passa por não ceder um milímetro na nossa autenticidade, respeitando também a deles, mas por criar uma distância, para que nos vejam de longe, com menos emoção, e possam, enfim, fazer isto: reconhecerem-nos.

Crescer dói, pois é.

Na distância que criamos, encontramos uma outra família, a nossa família de afectos, que não tem o nosso sangue, mas que nos é mais próxima nas lutas, nas emoções e nas razões do que a primeira. Mas mesmo nesta nova família, não podemos dizer, sem mais, acerca da outra: “hoje aconteceu-me isto”, porque não se transmite um referente de anos e anos a uma pessoa que nunca vai entender numa frase de que raio estará o amigo ou a amiga a falar.

É por isso que gosto tanto do título de um livro, assim: “ouve-se sempre a distância numa voz”. Porque se ouve sempre. Tentamos convencer o familiar, o amigo, dizemos: "foi assim,  vê por este lado, não estás a perceber", mas, então para o amigo, há sempre essa distância,  que tem uma consistência diferente da outra distância a que me referia mais atrás.

As palavras então, não servem para nada. Como se explica nesse livro, as palavras estão também cheias de distâncias, "há palavras que são sempre murmúrios como outras são sempre imprecações", numa escrita insubordinada, a luta que se sente contra a opressão desta pátria de gramática, porque o que ele (o escritor) quererá, e consegue, é isto: perder as palavras, desorientá-las, destruí-las, desentendê-las, para recomeçar uma palavra que inicie a sua história nos meus lábios”.

Não seria óptimo? Mas não é possível. Nunca se vê verdadeiramente o outro: o homem, no quarto, não vê a mulher, a mulher não vê o homem, vê-se sempre o outro perdido noutro qualquer, sem acesso a esse outro, sem acesso a toda uma história.

É bom, portanto, não despejar a nossa família de sangue na nossa família de afectos.

Há uma série que se chama Brothers and Sisters, na qual uma família descobre que o falecido pai tinha uma vida paralela. Vi alguns episódios. De repente, aquele monte de irmãos descobre mais irmãos, integra-os, há uma irmã republicana, uma irmã democrata, um irmão gay, um irmão drogado. Amam-se todos loucamente à volta de uma mãe, e todos se aceitam. É ficção, claro. Menos nisto: há um mistério no sangue e nas memórias que nos faz correr sem hesitações para ajudar o familiar em sofrimento, independentemente de esse mesmo familiar nos ter esbofeteado na véspera.

Conheci tantas famílias, tantos alunos chorosos porque os pais, os irmãos ou os avós os tinham por anormais. Mas há o dia em que param de chorar. Há o dia em que se percebe que na vida se fazem escolhas.

Paga-se um preço? Sim. Mas de educados também passamos a educadores, pelo exemplo, como outros foram exemplo para nós. Esse exemplo só é visível criando a tal distância.

Vendo-nos de longe, a família, um dia, talvez nos diga uma das palavras mais fortes que se encontra no dicionário: talvez nos diga “tu”. Sem benevolência.

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