Domingo, 25 de Abril de 2010
Miguel Vale de Almeida

Onde estava? Tinha 13 anos e estava em casa dos meus pais. O meu pai ainda era vivo. A rua Sampaio e Pina, onde morávamos, foi fechada, por ser ali o Rádio Clube. Não pudemos sair de casa durante uns dois dias (três? não lembro já) e ficámos grudad@s à “telefonia” e à pouca televisão que havia. Lembro-me de sentir que qualquer coisa de promissor se passava. Porque via essa promessa na cara do meu pai, na cara da minha mãe. Se há relação entre uma coisa e outra, não sei (mas que as estórias pessoais e a História colectiva se ligam, lá desse “marxismo” não abdico), mas o que é certo é que a promessa se cumpriu: cresci livre e ainda me sinto livre. Hoje de manhã tenho a sessão solene no Parlamento; à tarde deixo a fatiota em casa e vou para a avenida. Para a avenida livre.

3 comentários:
De agent a 25 de Abril de 2010 às 10:11
O que significa o "25 de Abril" a quem, como eu, ainda não tem 36 anos e/ou não o presenciou? Não será muito diferente de um "5 de Outubro" ou do "1º de Maio": um encontro de simpáticos velhinhos que o Telejornal assinala como se fosse "fait-divers". Ou, ainda melhor, um feriado que dava mais jeito que calhasse durante a semana para a malta "fazer ponte" e ir para fora.
Como se explica a falta de liberdade a quem sempre a teve? Como se explica os "direitos do trabalhadores" a quem nasceu com eles adquiridos? Por mais que se tente, não é fácil conceber o Portugal de Salazar quem nasceu no Portugal de Soares. Por isso, só trará benefícios escolher outras formas de assinalar e evocar essa mudança, que foi, de facto, uma revolução mas podia ter sido uma guerra civil ou uma transição pacífica. Para os devidos efeitos de formar consciências é um pouco indiferente, o importante é provar que valeu e valerá sempre a pena "aquilo" de que os nossos avós, pais e tios ainda falam.


De maradona a 25 de Abril de 2010 às 12:59

eu estava a ler


De rui david a 25 de Abril de 2010 às 14:53
É notável a persistência do 25 de Abril como data de referência. Talvez que tal se deva à explosão da esperança média de vida, da liberdade de expressão, à multiplicação dos meios de comunicação, ao desenvolvimento económico e à regressão drástica da taxa de analfabetismo, e aumento do acesso à educação.
Tudo formas de perpetuar a memória.
Se não houvesse essa memória, se não houvessem as imagens, os filmes, as recordações das centenas de milhares de pessoas que andaram nas ruas e viveram intensamente a paixão, qualquer historiador revisionista nos poderia convencer, pode ser que o consigam daqui a umas dezenas de anos, de que foi "um golpe militar", ou "foram os comunistas", ou mesmo que foi "uma desgraça" que "destruiu o país".
Claro que nem tudo se deve aos méritos do 25A. O 25 A surgiu em simultâneo com uma revolução tecnológica e comunicacional que seria impossível, a menos que vivessemos na Coreia do Norte,  que Portugal ficasse imune.
Pensando bem, até é pena que essa revolução não tivesse chegado mais cedo para que houvessem mais testemunhos da miséria e opressão em que viviamos, tal como se pode observar num pálido reflexo da situação, o caderno que o expresso editou com as passagens censuradas durante o período de "abertura" do anterior regime, estertor agora incensado  por alguns como uma espécie de "golden era".
O risco que corre a memória do 25 de Abril é o de deixar de ser uma data inclusiva, um ponto de viragem decisivo que teve o apoio e afectou a esmagadora maioria da população portuguesa. Se o 25 de Abril se torna "propriedade" ou "marca registada" de um partido, ainda por cima minoritário na sociedade portuguesa, corremos esse risco, e isso sim, seria de lamentar.


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