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jugular

"the crise for dummies"*

Há gente simpática, com pachorra e com muita qualidade pedagógica. Muito obrigada a..

 

"É muito simples, Ana Matos Pires: o Estado tem de receitas 70 e de despesas 100 (por exemplo). Precisa de 30 para equilibrar despesas e receitas. Para o fazer, vai junto dos investidores e pede emprestado os 30.  No ano seguinte faz a mesma coisa e assim sucessivamente. A dívida vai acumulando e os juros a pagar também. os investidores que emprestam dinheiro ficam inquietos e começam a perguntar-se se o Estado consegue pagar a dívida ou se algures no tempo diz "desculpem mas agora não posso mais". É aí que surge a agência de ratings. Diz aos investidores "estejam tranquilos porque este Estado tem uma economia a funcionar bem - o que gera pagamento de impostos -  e por isso os impostos vão crescer, além disso eles não esbanjam dinheiro, são cuidadosos com as despesas". E dá-lhes uma classificação como na escola: A. O "A" significa que aquele devedor consegue pagar as dívidas contraídas

Entretanto as coisas correm mal. A economia não cresce, as empresas vendem menos, os consumidores não gastam, etc, e as receitas dos impostos não aumentam e até descem. Quem emprestou dinheiro fica inquieto. O devedor deve cada vez mais, as despesas crescem, pede mais emprestado e começam a gerar-se dúvidas sobre a sua capacidade de pagar as dívidas. 

Então surgem uns maduros que dizem uma coisa a quem tem dívidas dos Estados: "eh pá, eu faço um contrato contigo em que te garanto o pagamento da dívida que tu tens do Estado se tu me pagares x euros". Parece um bom contrato para quem tem dívida do Estado e aceita. Outros também querem e o vendedor, rapaz esperto, começa a fazer subir os preços e os jornais dizem que está tudo aflito e que o mercado de protecção da dívida está a ter preços muito altos, que os "mercados" estão inquietos, etc. A bolsa desce porque há preferência por cash (se a bolsa desce é porque alguém comprou, muitas vezes as pessoas esquecem-se disso...), etc, etc.

Aí entra novamente o analista da classificação da dívida. Olha para o mercado, vê tudo muito agitado, lê os jornais, vê o primeiro-ministro desse Estado muito caladinho e começa a pensar "se eu não digo que estes gajos podem falhar e eles falham fico muito mal visto e até perco o emprego". Então manda um comunicado para os jonais e diz: "olhem este Estado já não está classificado como A mas agora como B porque a economia não cresce e os gajos são uns esbanjadores e precisam de poupar, etc, etc". Os investidores ficam mais preocupados e começam a tentar desfazer-se da dívida desse país. Os contratos de protecção ficam mais caros e quando esse Estado vai pedir mais dinheiro o pessoal cobra juros mais altos.

No meio disto tudo há muita gente a ganhar dinheiro: os que negoceiam contractos de protecção que nunca serão executados, os que cobrem juros muito altos, os que compram a dívida barata e esperam que ela se valorize.

Depois vem o primeiro-ministro do Estado dizer que paga tudo e tira da cartola meia dúzia de notícias com impacto para mostrar que é sério e que domina a situação. Se tiver sorte acreditam nele e consegue convencer os "mercados" que domina a situação e paga tudo, se não tiver chega a um ponto em que ninguém lhe empresta dinheiro e ele fica sem capacidade para pagar as despesas do seu estado e pagar os empréstimos passados. É a chamada bancarrota. Entretanto, os vários interesses em jogo vão puxando a brasa à sua sardinha.

Claro que se no meio disto tudo surgir uma tia rica de Berlim que disser "se eles não pagarem, pago eu" então os investidores ficam aliviados e então o Estado recomeça a gastar alegremente, os investidores ficam felizes e adiam-se os problemas das dívidas por mais uns anos. Pelo meio fazem-se umas coisas chamadas "reformas estruturais" que costumam beneficiar alguns e prejudicar muitos. Tudo em nome da "economia". Geralmente os que dizem "tem mesmo de ser assim, não há alternativas" são sempre os que não são prejudicados."

 

* outra vez roubado à Jonas

 

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