Terça-feira, 15 de Junho de 2010
Miguel Vale de Almeida

1. Detesto teorias da conspiração, mas não resisto. Pois, então, connect the dots: 1) foi lançada uma guerra contra o euro; 2) o ataque fez-se pelos elos mais fracos - Grécia, Portugal, Espanha; 3) estes países são governados por partidos socialistas; 4) os grandes países e economias da Europa são governados pela Direita; 5) a União Europeia não sabe reagir de forma firme e unida à “guerra”; 6) em vez disso tudo indica que aproveitará a situação para destruir o estado social como se de uma fatalidade se tratasse; 7) das reacções egocêntricas alemãs ao reforço dos nacionalismos de Direita em vários países, o clima é anti-europeu; 8)nem mais democraticidade no processo de construção europeu, nem mais integração ou reforço do governo económico estão à vista.

 

2. O mundo mudou mesmo. Mas aqui na paróquia quase ninguém discute a política e a situação em termos europeus. Nem as oposições, nem o governo, nem a comunicação social, nem os opinadores. Quando todo o discurso político deveria agora ser primeiro europeu e só depois nacional. Assim, nem as análises, nem as queixas, nem as propostas de solução têm uma base realista - acabam por ser comunicações de estados de alma, o que geralmente conduz à frustração; alimentando o círculo infernal acima descrito. Pelo caminho, há sempre os bons alunos a levantarem-se com o dedo no ar, ansiosos por serem mais papistas que o papa: Passos Coelho e a proposta de prolongamento dos contratos a prazo. Os tempos estão de Direita. Watch out.

 

3. E os tempos estão tanto mais de Direita quanto a Direita faz a propaganda de que os tempos são de Esquerda. Explico-me. De há uns anos para cá que o grosso da comunicação social portuguesa se especializa em criar uma representação da realidade assente em duas estratégias: tornar o pensamento de Direita em algo de fashion e pra-frentex, através do anti-politicamente correcto; e ao mesmo tempo denunciar o espaço público como estando dominado pela Esquerda. A estratégia resulta, apesar de parecer contraditória. Demasiado parecido com a propaganda, é o que é. Na realidade as notícias e o opinion making são esmagadoramente dominados por este direitismo fresco (ou pela frescura de direita, no sentido brasileiro da expressão). E ela dedica-se a quê? Bem, a dizer que tudo é dominado pela Esquerda, quando não há um único órgão da imprensa ou da TV que possa ser remotamente conotado com a Esquerda… Ao início, há uns anos atrás, o assalto da Direita fez-se através de algumas figuras com suposta autoridade académica; ao longo dos anos a recuperação da Direita tem sido apoiada por alguns directores de jornais e cronistas, a que se juntaram mais alguns académicos; mais recentemente (desde o aborto, mas sobretudo na discussão do casamento) surgiu um fundamentalismo que não conhecíamos e que foi beber técnicas e guiões aos evangélicos americanos. Pelo caminho, apuraram-se técnicas mais caceteiras, na tradição da aliança entre as elites reaccionárias e o lumpen: coscuvilhice, insulto, calúnia - na versão mais grosseira, através de blogs e comentários e pasquins de terceira categoria; na versão mais armada em séria, através da política do inquérito ou da fuga de informação judicial. Objectivo central? Tornar “indesmentível” a velha ideia de que os políticos são todos uma cambada (estando implícito que “a política” é uma coisa de esquerda; pois se ela é “porca”, de que outro matiz poderia ser?).

 

4. Alguém ainda se admira que “na boca do povo” surja cada vez mais a tentação totalitária? Ou que a Esquerda se deixe levar por toda esta (i)lógica - ora participando dela, nalguns casos mais radicais (desbaratando de vez a promessa criada nos finais dos anos noventa de uma Esquerda inteligente e moderna), ora limitando-se à reacção aos ataques, na área da governação, tal o fogo de barragem de que é alvo?

 

5. Precisamos de duas coisas, desde logo: de desmontar e recusar a estratégia de propaganda anti-sistema da Direita; e de inflectir o discurso político da Esquerda para o nível Europeu, assumindo a pouquíssima margem de manobra da governação nacional num país como o nosso. Caso contrário a Direita ocupa o vazio -o vazio criado pelo medo.


31 comentários:
De nuvens de fumo a 15 de Junho de 2010 às 10:54
Houve um tempo parecido com este, foram os anos 20. Tivemos alegria, prosperidade, mentalidades mais abertas e depois

É preciso todo o cuidado para evitar que os trolls voltem e eles andem de facto por aí.


De Marcelo do Souto Alves a 15 de Junho de 2010 às 11:22
Muitos Parabéns por este texto lúcido e desassombrado. Tudo isto dito em letra de tablóide e repetido muitas vezes nas televisões e nas rádios seria muito mais formativo do que a presente alucinação colectiva que a comunicação social conseguiu criar em Portugal, com o perverso objectivo de alienar a ignorância bruta, impotente e desesperançada. Se o Mundo parece estar a escurecer, pois que resistam algumas luzes, que nos mantenham a crença numa viragem redentora.


De pedro frederico a 15 de Junho de 2010 às 12:03
Bom dia, sim Sr Deputado, a sua esquerda é fenomenal e o seu partido o grande arauto da verdade e da justiça contra os papões da direita...lembre-se: é conivente com a a pobreza e a fome, e vá dizer que a crise internacional é a (unica) culpada a outros, como os apaniguados sem cérebro de cima, porque a mim o Senhor e  o seu partido não enganam, o Sr é um Boy? ou ´é um deputado da nação??? se é o segundo porte-se como tal...


De Basico a 15 de Junho de 2010 às 12:19
eu faco uma leitura diferente das coisas, baseada na realidade, e nao em apreciacoes enviesadas da realidade.

os ultimos 15 anos em portugal foram dominados pela esquerda com um pequeno interregono de 2 anos de um partido de centro esquerda.

durante esses tempo foi criado, com base na acumulacao de divida, um "estado social" insustentavel (uma vez que nao se baseou em aumentos de productividade, mas simplesmente em dívida)

o mercado acordou para o risco de crédito e comecou a dificultar a concessao de crédito para os países perifericos.

os socialistas gritam agora que ha um complot contra eles, que o mundo mudou.

por favor, a unica coisa que mudou foi simplesmente a atitude daqueles que emprestam dinheiro para com economias de base insustentavel.


De nuvens de fumo a 15 de Junho de 2010 às 13:02

E já agora a solução é qual ?


De Rxc a 17 de Junho de 2010 às 09:53
Viver dentro das nossas possibilidades e não julgar que podemos "comprar" nível de vida sem o pagar. Com juros! Mas rapidamente a esquerdalhada vai perceber que há um limite para o saque...Eu por mim estou farto de sustentar chulos e ladrões que nada fazem!


De LM r a 15 de Junho de 2010 às 12:42
Então  os outros PIIGS? Ah, pois é; logo se estragava a teoria.


De jac a 15 de Junho de 2010 às 13:26
"coscuvilhice, insulto, calúnia", justamente, é o que mais tem feito este governo, correcção, este primeiro ministro, que, dizem, um 'parlamentar experiente' mas que nos lega nada menos que a acelarada degradação do estado da coisa democrática. (o miguel, como deputado, estará certamente familiarizado com a má-educação do pm que confunde debate político com ataque pessoal - sendo que passa justamente por aí a estratégia tribal da esquerda como arma de combate de uma governação que tem sido nada menos que catastrófica.)
os bárbaros não nos invadem, estão cá dentro. essa diabolização da direita porquê?
sobre as técnicas caceteiras, vamos lá ver, diz que os exemplos vêm de cima, e se em pleno parlamento temos um pm que usa com leveza a ambiguidade das palavras - no mínimo - que usa com vigor o insulto pessoal, que se assume como cacique de um bando de gente sem outra preocupação que o self-interest e sem a mínima noção de bem público - e de espaço público - basta ler os blogs dos 'assessores'.

quanto à relevância da europa e do debate europeu, de acordo.

j


De Joao Firmino a 15 de Junho de 2010 às 14:21
Os tempos estão de Direita????!!!!
Na realidade o que se vê em Portugal e Espanha e na Europa em geral é claramente o "domínio" e o ressurgimento de movimentos de direita! lol
A saber:
Lei da "liberdade religiosa" a ser aprovada em Espanha - uma lei claramente vinda de uma direita forte!
Aprovação da Lei do aborto em Portugal e Espanha (umas das mais radicais da europa) – uma lei que só a direita podia fazer aprovar
Aprovação do casamento gay e adopção por casais homossexuais – de facto é um tema muito caro a partidos da direita. Sem uma direita forte nunca se poderia ter aprovado uma lei destas. Aliás até se ignorou uma exigência democrática vinda da esquerda – a realização de um referendo.
A alteração do sexo para os transexuais apenas no registo sem aval de um médico – quem senão uma direita em tempos que estão de Direita para pedir uma lei como esta?
E que dizer da futura lei da Eutanásia? Decerto a direita prepara já este diploma com urgência.
Nenhum destes 2 países, já para não falar de outros, se os tempos não estivessem de Direita poderia conseguir os resultados “fantásticos” que mostram o progresso na educação ( e falo da educação na família e na escola) e cito um excerto da "Revista Iberoamericana sobre educacion" “a destruição das identidades pessoais e a multiplicação dos borderlines; a dimensão das perversões e a consagração da transgressão como o modo de ascensão social; a perda da relação com o “mundo” e o incremento das psicoses; o mito individual do neurótico e a difusão do sofrimento psíquico; a infantilização do adulto e a precoce conversão em objecto sexual da criança; o narcisismo generalizado e a multiplicação das relações de espelhamento nos outros; a fadiga sexual generalizada e a difusão da permissividade como contrapartida; a delegação da autoridade dos pais aos grupos etários dos filhos e a morte dos modelos adultos na formação da identidade pessoal; a perda da substância ética e o avanço da estetificação das relações pessoais; o esgarçamento da relevância social do trabalho e a perda do valor biográfico do trabalho; o desaparecimento do valor verdade e a consagração de um pensamento estratégico; o fim da justiça como princípio político fundamental e a justificação pelo procedimento correcto; o fim de referências absolutas e a fragmentação das histórias de vida”.

São estes os objectivos para atingir uma sociedade melhor e que de facto só em tempos que estão de Direita é que tal é possível.

Caro Dr. Miguel Vale de Almeida
Sejam honestos quando escrevem estes posts. Infelizmente, e vocês sabem-no, os tempos não estão da Direita. Infelizmente os tempos estão de uma Esquerda radical e anárquica que conduz o mundo e o ser humano para o caos.

Hoje, gere-se e dirige-se o fluxo de informação em torno da economia, do consumo, da moeda forte ou fraca, das bolsas, das OPAS, etc. enfim o tema que hoje nos entra a toda a hora nas nossas casas através da media em geral, isto é, o tema dominante é o dinheiro, o consumo, as taxas de juro, a crise, as falências, o desemprego, etc. Mas, por detrás destes temas que servem para alienar as nossas mentes de tantas vezes que são repetidos sem nos apresentarem uma solução clara e credível, a par de outros temas como a alucinação geral com o futebol ou mesmo com programas de baixo nível cultural, está em marcha uma revolução silenciosa que é lavada a cabo por uma esquerda radical: a transformação do individuo e consequentemente a transformação da sociedade pondo em causa acima de tudo a Deus e a sua obra – uma agenda política que procura desconstruir a sociedade tradicional e suas instituições seculares.
A desmoralização da organização moral e ética da sociedade serve também para que a população aceite qualquer coisa, já que qualquer coisa passa a ser banalizada, comum, aceite e tolerada.

Portanto, lamento recordá-lo (não sei se precisaria pois sabe bem que assim é)mas os tempos são de Esquerda e com gravíssimas consequências para a grande maioria que só se aperceberá, talvez. quando já for tarde.

Os tempos estão realmente de Esquerda!



De António P. a 15 de Junho de 2010 às 14:44
Grande texto.
Parabéns Miguel Vale de Almeida.


De Vladimiro J. a 15 de Junho de 2010 às 17:21
Miguel,

Por este andar prepara-te, como já estavas à direita no BE, e estás à direita no PS, o caminho mesmo é o CDS/PSD.

http://tripalio.blogspot.com/ (http://tripalio.blogspot.com/)


De Deia a 15 de Junho de 2010 às 18:49
O medo que gera o esteriótipo; o esteriótipo que fundamenta o preconceito; esta (i)lógica de o meu preconceito é mais fundamentado que o teu - ismos;  populism vs liberal elitism; ismos, ismos e mais ismos a ocupar o vazio. Em Portugal a sardinha não é sazonal, mas nesta altura sai sempre mais - para quem gosta, claro.

A cambada - que não deveria - vem com o cargo. O my political point... and I do have one - que deveria - nem sempre vem com o cargo. Ainda assim, é sempre de salutar quando vem.


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