De im a 19 de Junho de 2010 às 16:24
Estes homens e estas mulheres nasceram para trabalhar, são gado inteiro ou gado rachado, saem ou tiram-nos das barrigas das mães, põem-nos a crescer de qualquer maneira, tanto faz, preciso é que venham a ter força e destreza de mãos, mesmo que para um gesto só, que importância tem se em poucos anos ficarem pesados e hirtos, são cepos ambulantes que quando chegam ao trabalho a si próprios se sacodem e da rigidez do corpo fazem sair dois braços e duas pernas que vão e vêm, por aqui se vê a que ponto chegaram as bondades e a competência do Criador, obrando tão perfeitos instrumentos de cava e ceifa, de monda e serventia geral.
Tendo nascido para trabalhar, seria uma contradição abusarem do descanso. A melhor máquina é sempre a mais capaz de trabalho contínuo, lubrificada que baste para não emperrar, alimentada sem excesso, e se possível no limite económico da simples manutenção, mas sobretudo de substituição fácil, se avariada está, velha outra, os depósitos desta sucata chamam-se cemitérios, ou então senta-se a máquina nos portais, toda ela ferrujosa e gemente, a ver passar coisa nenhuma, olhando apenas as mãos tristíssimas, quem me viu e quem me vê. No geral do latifúndio, os homens e as mulheres têm seu tempo regateado de vida, espanta-se a gente de como alguns vão a velhos, e muito mais quando, passando, encontramos um que à vista é ancião e ouvimos dizer que tem quarenta anos, ou esta mulher murcha e com a face encorreada, ainda não fez trinta, afinal viver no campo não dá vida acrescentada, são invenções da cidade, é como aquele regradíssimo ditado, Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer, tinha graça vê-los aqui com a mão no cabo da enxada e os olhos no horizonte à espera do sol ou derreados das cruzes ansiando por um anoitecer que nunca mais chega, o sol é um desgraçado, cheio de pressa de sair e com tão pouca de se apagar. Como os homens.
José Saramago in "Levantado do Chão"
De fgcosta1954@gmail.com a 19 de Junho de 2010 às 16:49
Ainda me lembro quando o defunto foi indicado para o prémio nobel e não o recebeu, ter desdenhado a coisa com a afirmação de que era um prémio definido por lobbies. Claro que ninguém hoje lembra esse pequeno detalhe
Em relação ao seu propalado carácter, humanitarismo, coerência, espírito de justiça e demais elogios ao alegado incondicional apego à justiça e combate ao mal dos poderosos, é interessante notar que a UNICA vez na vida em que deteve poder (quando foi sub-director do DN), logo procedeu como o mais reles tirano e insensível ditador. Hipocrisia só igualada pela lavagem da comunicação social e bajuladores do costume.
Palmira, eu bati no autor de Caim por ser tão fundamentalista e literalista como os fundamentalistas e literalistas cristãos. O que não me retira todo o prazer, todo o questionamento, toda a a genialidade da sua escrita e obra, de Memorial do Convento ao Evangelho segundo Jesus Cristo, passando por In Nomine Dei (cito obras, com crítica "religiosa" propositadamente). É que muitos crentes, ao contrário de Saramago, conseguiram sempre olhar a sua obra para lá de uma certa espuma dos dias que o próprio alimentava num sentido ideológico-propagandístico (há quem lhe chame marketing nos dias de hoje). Dizer isto é dizer que posso vituperar afirmações suas há seis meses e aplaudi-lo na hora da morte pela sua vida.
Tem piada, mas ainda não te vi (nem nenhum destes cristãos não fundamentalistas e não literalistas ) escrever algo sobre a forma vergonhosa como a igreja rejubilou com a morte de saramago, em forma de editorial no seu último jornal oficial. muito louvado em alguns sectores católicos, cujo ódio e fundamentalismo nunca vi sequer criticado, quanto mais com o mesmo ardor que foi devotado a bater em saramago (não na sua obra, repito)
esquecimento, sem dúvida.
Palmira, não tenho por hábito comentar tudo. Não sou o Pacheco nem o Medina Carreira. Mas lamento que então não cites o meu texto no meu blogue, as declarações do frei Ventura, na SIC, sobre a obra fulgurante de Saramago, do padre Carreira das Neves no DN, ou - mais institucional ainda! - o texto do Secretariado da Pastoral da Cultura, que depende da Conferência Episcopal, e que diz logo a abrir: "O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura expressa o seu pesar na morte de José Saramago, grande criador da língua portuguesa e expoente da nossa cultura. José Saramago ampliou o inestimável património que a literatura representa, capaz de espelhar profundamente a condição humana nas suas buscas, incertezas e vislumbres. Como é público, o cristianismo e o texto bíblico interessaram muito ao autor como objecto para a sua livre recriação literária. Há uma exigência e beleza nessa aproximação que gostaríamos de sublinhar." E sim, logo de seguida, lamenta-se, como eu lamento em Saramago: "O único lamento é que ela nem sempre fosse levada mais longe, e de forma mais desprendida de balizamentos ideológicos." Para se rematar: "Mas a vivacidade do debate que a sua importante obra instaura, em nada diminui o dever da cordialidade de um encontro cultural que, acreditamos, só pode ser gerado na abertura e na diferença."
Esta opinião é tão válida como a dos senhores que escreveream no jornal sediado no Vaticano, ou porventura mais. Por isso, é mentira que a Igreja tenha rejubilado. Alguma igreja, porque a igreja são muitas igrejas, não terá ficado consternada, como os senhores do tal jornal, mas dessa igreja tenho pena, que não apreendem a palavra de Jesus até às suas últimas consequências e se comportam como um qualquer Álvaro Cunhal que, na hora da morte de Spínola, atacou o homem.
okay, prontus. não merecem crítica porque a igreja, para ti, são muitas igrejas e a tua igreja só é a de bento XVI quando ele cá vem e comentas supostas azias alheias.
fico muito baralhada com esta esquizofrenia icariana: parece que para todos os crentes qualquer crítica é sempre inapropriada ou porque se critica algo que não merece a aprovação da hierarquia da igreja ou , se foi debitado por essa mesma hierarquia, porque há pelo menos um católico que não concorda com a coisa.
Mais ainda, quando convém é una e uma "afronta" a um dos seus representantes é uma "afronta" a todos; noutras alturas, quando convém também, são muitas em que basta haver uma parte, por muito ínfima que seja, para, qed, mostrar que quem critica está errado. Decidam-se, bolas!
Bento XVI é o meu Papa de todos os dias, nas coisas boas e más... são assim as famílias, sem esquizofrenias.
De Anónimo a 20 de Junho de 2010 às 13:32
Grande Miguel Marujo, belíssima resposta!
okay, prontus, já percebi que é mais um mistério da fé, mais dos que tornam algo e o seu oposto equivalentes
não tem nenhum mistério, ou por acaso entendes-te e concordas em tudo na tua família?! - sim, nós os católicos temos a mania de nos acharmos uma família, enorme, onde há muita gente com quem não concordo, outros que mais valia não serem nossos primos, mas acabamos por nos encontrar e festejar as datas da família...
quanto à esquizofrenia "icariana" (imagino que te refiras a católicos, que de ícaro não tenho muito): todas as críticas são apropriadas, mas posso devolver-te calmamente o dito: a ti só te interessam determinadas opiniões que é para poderes malhar à vontade; estás à vontade: mas não me "hierarquizes" o Osservatore Romano" - não existe tal coisa; e se houvesse, o Secretariado da Cultura seria muito mais importante...
e insisto: a Igreja são muitas, só é una no que é essencial: Deus e Jesus.
De nuvens de fumo a 20 de Junho de 2010 às 13:27
Quando é para impor aos outros as ideias deles, a hierarquia funciona e tem de ser respeitadas.
Quando é para sacudir água do capote vão buscar um papagaio falante qualquer em contra corrente e está demonstrado que a igreja tem imensas opiniões.
E assim, sem nunca mudarem de opinião vão dando música ao povo numa simulação de pluralismo.
Haja pachorra
o papagaio falante é o Secretariado da Pastoral da Cultura, que depende do episcopado, ou hierarquia como lhe chama nuvens de fumo... logo: é o episcopado a falar... e dos outros, se o nuvens não vivesse no meio do fumo saberia que são nomes importantes da teologia em Portugal; a ignorância faz caminho, mas esse não é o meu caminho nos debates.
De Zé do Telhado a 20 de Junho de 2010 às 23:26
Costumo dizer que um PR, seja qual for a sua cor política, é de todos os portugueses. Neste sentido, Cavaco Silva, com a declaração proferida faz justiça a esta representatividade, ainda que pessoalmente ele tenha o direito de não estar presente no funeral. Só fazem falta os que estão.
É um absurdo tudo quanto se diz a propósito de Saramago. Saramago, já o disse e escrevi aqui, era um homem de fé, que buscou Deus, mas que tinha, com alguma razão, gerado alguns anti-corpos em relação à religião e em particular às estruturas da icar.
Sem me querer alongar e fazer elogios, merecidos, a Saramago, há, porém, uma questão que gostaria de ver respondida:
Se os religiosos católicos (em que eu me enquadro) conhecem tão bem a Deus e o rosto de Deus, qual a razão porque têm tantas dificuldades em revelá-l´O?
As obras, "o evangelho segundo Jesus Cristo e Caím", reflectem essa busca de Deus, uma busca bem mais intensa do que aquela que conheço na grande maioria dos católicos, mesmo naqueles que se dizem consagrados.
Agora uma achega á pessoa que deu a entrevista à Antena 1: A grande virtude do homem não reside na ausência do pecado, mas na luta para combate-lo. Tão importante quanto acreditar em Deus é combater os falsos deuses ( e isto Saramago, à sua maneira, fez).
Por último, para que compreendam a visão de Jesus por Saramago, cito o evangelho de João na conversa de Jesus com Maria Madalena:
"Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus".
Todavia, com o que é também descrito no Evangelho, e com a análise contextual dos mesmos, eu posso afirmar: JESUS, COM SUA VIDA E MORTE, REVELA-NOS A DIVINDADE DA VIDA E DA MORTE EM TODO O SER HUMANO.
Saramago, não sendo um religioso, nunca negou o instinto religioso, que até nele residia. Gostaria de ver o mesmo respeito pelo homem Saramago e pela obra do homem que foi Saramago.
Não tenho dúvidas em afirmar, porque o bem que o coração do Homem produz aninha-se e reproduz-se no coração de Deus: Neste momento Saramago é a uma estrela junto à Estrela. Sim, numa linguagem cósmica, Jesus é a Estrela e Deus o Céu.
O caminho do Homem não se determina pelo erro, mas pela vontade de acertar.
"TIRAI ANTES A TRAVE DE VOSSOS OLHOS".
Se existir por aqui, ou por aí, um sacerdote, bispo, cardeal... que queira fazer um debate, elevado e educado, sobre algumas matérias religiosas e pensamentos teológicos, baseadas nos evangelhos canónicos (já não falo nos outros), por favor, aceite o meu repto e venha aqui negar, corrigir e/ou contrariar o que reproduzo.
Claro está, com o consentimento da Palmira.
Já vai sendo altura para fazermos o que dizemos: "O cristão tem a missão de anunciar Jesus no espaço público". Sim, a visão cristã também nasceu no espaço público, é este o seu elemento.
"Quem quiser salvar a vida, perdê-la-á, quem a perder salvar-se-á". É hora de renunciarmos ao nosso falso "eu", libertando-nos de nós mesmos, e soltar Deus e Jesus que estão prisioneiros no templo e na lei e do autoritarismo dos religiosos.
Fico à espera.
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