Sábado, 19 de Junho de 2010
Palmira F. Silva

Em finais de 2009, Saramago lançou mais uma polémica acesa,  ou antes, outro livro blasfemo. Há pouco mais de 6 meses, muitos que agora tecem rasgadas elegias ao único escritor em língua portuguesa nobelizado, desdobravam-se em ataques viperinos sortidos ao autor de Caim (e friso o autor e não a obra, passível, como todas as obras, de todas as críticas).  Os argumentos contra Saramago foram na mesma ordem, quiçá mais virulentos ainda, que os reproduzidos neste vídeo, em que se vê Sousa Lara num debate na Assembleia da República em  Abril de 1992. O subsecretário de Estado de Cavaco Silva explicou que cortou o romance de José Saramago Evangelho segundo Jesus Cristo da lista dos concorrentes ao Prémio Literário Europeu, porque o autor não representava Portugal já que «atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os».

 

Sempre achei curioso este fenómeno que se manifesta na alteração drástica da apreciação de alguém (importante) depois desse alguém morrer. Uma vítima da coisa é Cavaco Silva, que apoiou em 1992 a decisão do seu subsecretário de Estado e que agora declara Saramago «uma referência da cultura portuguesa» «cuja vasta obra literária deve ser lida e conhecida pelas gerações futuras».

 

No último post no seu blog oficial, Saramago diz-nos que «Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma». Em compensação, se ideias são falhas e pensar arredado dos neurónios,  continua a não faltar, coerentemente, o excesso de presunção e água benta de que estas declarações são exemplo ...

tags:
13 comentários:
De im a 19 de Junho de 2010 às 16:24

Estes homens e estas mulheres nasceram para trabalhar, são gado inteiro ou gado rachado, saem ou tiram-nos das barrigas das mães, põem-nos a crescer de qualquer maneira, tanto faz, preciso é que venham a ter força e destreza de mãos, mesmo que para um gesto só, que importância tem se em poucos anos ficarem pesados e hirtos, são cepos ambulantes que quando chegam ao trabalho a si próprios se sacodem e da rigidez do corpo fazem sair dois braços e duas pernas que vão e vêm, por aqui se vê a que ponto chegaram as bondades e a competência do Criador, obrando tão perfeitos instrumentos de cava e ceifa, de monda e serventia geral.

Tendo nascido para trabalhar, seria uma contradição abusarem do descanso. A melhor máquina é sempre a mais capaz de trabalho contínuo, lubrificada que baste para não emperrar, alimentada sem excesso, e se possível no limite económico da simples manutenção, mas sobretudo de substituição fácil, se avariada está, velha outra, os depósitos desta sucata chamam-se cemitérios, ou então senta-se a máquina nos portais, toda ela ferrujosa e gemente, a ver passar coisa nenhuma, olhando apenas as mãos tristíssimas, quem me viu e quem me vê. No geral do latifúndio, os homens e as mulheres têm seu tempo regateado de vida, espanta-se a gente de como alguns vão a velhos, e muito mais quando, passando, encontramos um que à vista é ancião e ouvimos dizer que tem quarenta anos, ou esta mulher murcha e com a face encorreada, ainda não fez trinta, afinal viver no campo não dá vida acrescentada, são invenções da cidade, é como aquele regradíssimo ditado, Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer, tinha graça vê-los aqui com a mão no cabo da enxada e os olhos no horizonte à espera do sol ou derreados das cruzes ansiando por um anoitecer que nunca mais chega, o sol é um desgraçado, cheio de pressa de sair e com tão pouca de se apagar. Como os homens.



José Saramago in "Levantado do Chão"


De fgcosta1954@gmail.com a 19 de Junho de 2010 às 16:49
Ainda me lembro quando o defunto foi indicado para o prémio nobel e não o recebeu, ter desdenhado a coisa com a afirmação de que era um prémio definido por lobbies. Claro que ninguém hoje lembra esse pequeno detalhe
Em relação ao seu propalado carácter, humanitarismo, coerência, espírito de justiça e demais elogios ao alegado incondicional apego à justiça e combate ao mal dos poderosos, é interessante notar que a UNICA vez na vida em que deteve poder (quando foi sub-director do DN), logo procedeu como o mais reles tirano e insensível ditador. Hipocrisia só igualada pela lavagem da comunicação social e bajuladores do costume.


De Miguel Marujo a 20 de Junho de 2010 às 02:58
Palmira, eu bati no autor de Caim por ser tão fundamentalista e literalista como os fundamentalistas e literalistas cristãos. O que não me retira todo o prazer, todo o questionamento, toda a a genialidade da sua escrita e obra, de Memorial do Convento ao Evangelho segundo Jesus Cristo, passando por In Nomine Dei (cito obras, com crítica "religiosa" propositadamente). É que muitos crentes, ao contrário de Saramago, conseguiram sempre olhar a sua obra para lá de uma certa espuma dos dias que o próprio alimentava num sentido ideológico-propagandístico (há quem lhe chame marketing nos dias de hoje). Dizer isto é dizer que posso vituperar afirmações suas há seis meses e aplaudi-lo na hora da morte pela sua vida.


De Palmira F. Silva a 20 de Junho de 2010 às 10:06
Tem piada, mas ainda não te vi (nem nenhum destes cristãos não fundamentalistas e não literalistas ) escrever algo sobre a forma vergonhosa como a igreja rejubilou com a morte de saramago, em forma de editorial no seu último jornal oficial. muito louvado em alguns sectores católicos, cujo ódio e fundamentalismo nunca vi sequer criticado, quanto mais com o mesmo ardor que foi devotado a bater em saramago (não na sua obra, repito)

esquecimento, sem dúvida.


De Miguel Marujo a 20 de Junho de 2010 às 11:19
Palmira, não tenho por hábito comentar tudo. Não sou o Pacheco nem o Medina Carreira. Mas lamento que então não cites o meu texto no meu blogue, as declarações do frei Ventura, na SIC, sobre a obra fulgurante de Saramago, do padre Carreira das Neves no DN, ou - mais institucional ainda! - o texto do Secretariado da Pastoral da Cultura, que depende da Conferência Episcopal, e que diz logo a abrir: "O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura expressa o seu pesar na morte de José Saramago, grande criador da língua portuguesa e expoente da nossa cultura. José Saramago ampliou o inestimável património que a literatura representa, capaz de espelhar profundamente a condição humana nas suas buscas, incertezas e vislumbres. Como é público, o cristianismo e o texto bíblico interessaram muito ao autor como objecto para a sua livre recriação literária. Há uma exigência e beleza nessa aproximação que gostaríamos de sublinhar." E sim, logo de seguida, lamenta-se, como eu lamento em Saramago: "O único lamento é que ela nem sempre fosse levada mais longe, e de forma mais desprendida de balizamentos ideológicos." Para se rematar: "Mas a vivacidade do debate que a sua importante obra instaura, em nada diminui o dever da cordialidade de um encontro cultural que, acreditamos, só pode ser gerado na abertura e na diferença."


Esta opinião é tão válida como a dos senhores que escreveream no jornal sediado no Vaticano, ou porventura mais. Por isso, é mentira que a Igreja tenha rejubilado. Alguma igreja, porque a igreja são muitas igrejas, não terá ficado consternada, como os senhores do tal jornal, mas dessa igreja tenho pena, que não apreendem a palavra de Jesus até às suas últimas consequências e se comportam como um qualquer Álvaro Cunhal que, na hora da morte de Spínola, atacou o homem.  


De Palmira F. Silva a 20 de Junho de 2010 às 11:41
okay, prontus. não merecem crítica porque a igreja, para ti, são muitas igrejas e a tua igreja só é a de bento XVI quando ele cá vem e comentas supostas azias alheias.

fico muito baralhada com esta esquizofrenia icariana: parece que para todos os crentes qualquer crítica é sempre inapropriada ou porque se critica algo que não merece a aprovação da hierarquia da igreja ou , se foi debitado por essa mesma hierarquia, porque há pelo menos um católico que não concorda com a coisa.

Mais ainda, quando convém é una e uma "afronta" a um dos seus representantes é uma "afronta" a todos; noutras alturas, quando convém também, são muitas em que basta haver uma parte, por muito ínfima que seja, para, qed, mostrar que quem critica está errado. Decidam-se, bolas!


De Miguel Marujo a 20 de Junho de 2010 às 12:06
Bento XVI é o meu Papa de todos os dias, nas coisas boas e más... são assim as famílias, sem esquizofrenias.


De Anónimo a 20 de Junho de 2010 às 13:32
Grande Miguel Marujo, belíssima resposta!


De Palmira F. Silva a 20 de Junho de 2010 às 13:55
okay, prontus, já percebi que é mais um mistério da fé, mais dos que tornam algo e o seu oposto equivalentes


De Miguel Marujo a 20 de Junho de 2010 às 16:33
não tem nenhum mistério, ou por acaso entendes-te e concordas em tudo na tua família?! - sim, nós os católicos temos a mania de nos acharmos uma família, enorme, onde há muita gente com quem não concordo, outros que mais valia não serem nossos primos, mas acabamos por nos encontrar e festejar as datas da família...

quanto à esquizofrenia "icariana" (imagino que te refiras a católicos, que de ícaro não tenho muito): todas as críticas são apropriadas, mas posso devolver-te calmamente o dito: a ti só te interessam determinadas opiniões que é para poderes malhar à vontade; estás à vontade: mas não me "hierarquizes" o Osservatore Romano" - não existe tal coisa; e se houvesse, o Secretariado da Cultura seria muito mais importante...

e insisto: a Igreja são muitas, só é una no que é essencial: Deus e Jesus.


De nuvens de fumo a 20 de Junho de 2010 às 13:27
Quando é para impor aos outros as ideias deles, a hierarquia funciona e tem de ser respeitadas.
Quando é para sacudir água do capote vão buscar um papagaio falante qualquer em contra corrente e está demonstrado que a igreja tem imensas opiniões.


E assim, sem nunca mudarem de opinião vão dando música ao povo numa simulação de pluralismo.


Haja pachorra


De Miguel Marujo a 20 de Junho de 2010 às 19:34
o papagaio falante é o Secretariado da Pastoral da Cultura, que depende do episcopado, ou hierarquia como lhe chama nuvens de fumo... logo: é o episcopado a falar... e dos outros, se o nuvens não vivesse no meio do fumo saberia que são nomes importantes da teologia em Portugal; a ignorância faz caminho, mas esse não é o meu caminho nos debates.


De Zé do Telhado a 20 de Junho de 2010 às 23:26
Costumo dizer que um PR, seja qual for a sua cor política, é de todos os portugueses. Neste sentido, Cavaco Silva, com a declaração proferida faz justiça a esta representatividade, ainda que pessoalmente ele tenha o direito de não estar presente no funeral. Só fazem falta os que estão.

É um absurdo tudo quanto se diz a propósito de Saramago. Saramago, já o disse e escrevi aqui, era um homem de fé, que buscou Deus, mas que tinha, com alguma razão, gerado alguns anti-corpos em relação à religião e em particular às estruturas da icar.
Sem me querer alongar e fazer elogios, merecidos, a Saramago, há, porém, uma questão que gostaria de ver respondida:
Se os religiosos católicos (em que eu me enquadro) conhecem tão bem a Deus e o rosto de Deus, qual a razão porque têm tantas dificuldades em revelá-l´O?
As obras, "o evangelho segundo Jesus Cristo e Caím", reflectem essa busca de Deus, uma busca bem mais intensa do que aquela que conheço na grande maioria dos católicos, mesmo naqueles que se dizem consagrados.
Agora uma achega á pessoa que deu a entrevista à Antena 1: A grande virtude do homem não reside na ausência do pecado, mas na luta para combate-lo. Tão importante quanto acreditar em Deus é combater os falsos deuses ( e isto Saramago, à sua maneira, fez).

Por último, para que compreendam a visão de Jesus por Saramago, cito o evangelho de João na conversa de Jesus com Maria Madalena:
"Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus".

Todavia, com o que é também descrito no Evangelho, e com a análise contextual dos mesmos, eu posso afirmar: JESUS, COM SUA VIDA E MORTE, REVELA-NOS A DIVINDADE DA VIDA E DA MORTE EM TODO O SER HUMANO.

Saramago, não sendo um religioso, nunca negou o instinto religioso, que até nele residia. Gostaria de ver o mesmo respeito pelo homem Saramago e pela obra do homem que foi Saramago.
Não tenho dúvidas em afirmar, porque o bem que o coração do Homem produz aninha-se e reproduz-se no coração de Deus: Neste momento Saramago é a uma estrela junto à Estrela. Sim, numa linguagem cósmica, Jesus é a Estrela e Deus o Céu. 

O caminho do Homem não se determina pelo erro, mas pela vontade de acertar.
"TIRAI ANTES A TRAVE DE VOSSOS OLHOS". 

Se existir por aqui, ou por aí, um sacerdote, bispo, cardeal... que queira fazer um debate, elevado e educado, sobre algumas matérias religiosas e pensamentos teológicos, baseadas nos evangelhos canónicos (já não falo nos outros), por favor, aceite o meu repto e venha aqui negar, corrigir e/ou contrariar o que reproduzo.

Claro está, com o consentimento da Palmira.

Já vai sendo altura para fazermos o que dizemos: "O cristão tem a missão de anunciar Jesus no espaço público". Sim, a visão cristã também nasceu no espaço público, é este o seu elemento.
"Quem quiser salvar a vida, perdê-la-á, quem a perder salvar-se-á". É hora de renunciarmos ao nosso falso "eu", libertando-nos de nós mesmos, e soltar Deus e Jesus que estão prisioneiros no templo e na lei e do autoritarismo dos religiosos.

Fico à espera.



 


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9


22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


artigos recentes

Com que então, é isto que...

História(estória) de F***...

bem-vindos ao maravilhoso...

E agora, completamente a ...

ligar os pontos

Frase Pró Infinito e Mais...

frase Twilight Zone do di...

frase Twilight Zone do di...

errar outra vez, outra ve...

vamos por partes

O que é isto?

Do twitter para aqui: cor...

Sim sim, o gajo só ligou ...

O que parece é?

têm medo de quê?

últimos comentários
always.
obrigada, valter. all my children, como diz o aust...
Eu, quando pago os meus impostos, é para pagar a s...
Uma frase com o selo oficial da ignorância e da ca...
A prova de que não delira são os coments excitadís...
só memo naquela da "verdade": falência? oi? se a r...
Revelador o autor ou amigas deixarem passar este c...
bom dia, pode meter o socrates antes da MMG ou dps...
Bom dia, nao andou longe do que eu sinto pelos def...
Que nunca o erro seja mera mentira, é quanto se po...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds