Sábado, 26 de Junho de 2010
Rogério da Costa Pereira

Não havia de ser nada. Afinal, já se ia habituando. Há mas é que dormir – fechar os olhos em faz-de-conta, que esta raça não dorme. Amanhã, as chaves haviam de voltar-lhe ao bolso. Já não era a primeira vez que os maus lhe faziam dói-doi. Aqueles aplausos mudos – mas se ele os via? – faziam-lhe salto alto. Andas (daquelas que permitem caminhar acima do solo) no espírito de um anão. Havia de lhe voltar tudo; a ele, que havia estudado na terra-do-nunca (tinha fotos que provavam a sua proximidade material aos irmãos iluminados, daqueles que não há cá).

Torpor, próximo das horas em que os homens dormem.

Canta o galo.

Ergue as pálpebras com alívio por mais aquelas horas que se tinham ido e esfrega os olhos. Sentia-se como novo. Arrastou-se (a coluna fazia-lhe falta) até à casa de banho e, com o piaçaba, esfregou os dentes na água da sanita, como sempre fazia desde a identificação plena que naquele sabor podre o seu permanecer havia encontrado.

Olhou-se e viu azulejo. No espelho da mamã – presente de aniversário – viu apenas a parede fronteira. Papel de parede a fingir azulejo. Virou à direita. À esquerda, depois. Enganava-se muitas vezes e se havia alguém a quem o admitia era ao seu amigo espelho-da-mamã. Procurou. Esfregou-se – e aos olhos. Viu de viés a moldura do espelho. Estava no primeiro sítio onde se havia olhado. Inspirou fundo e expirou de encontro à palma da mão para saborear o bafo – aquele som a merda que o mantinha vivo e lhe dava fomes. Ergueu-se do chão de alcatifa, onde repousavam minúsculos os seus contumazes irmãos acarídeos, e tentou de novo. Nada! Mais daquele amarelo eterno.

Estás estragado, marrano, viraste-te contra mim. Também tu. Dá-me as minhas cores pálidas de volta ou arrisco os sete anos de má-fortuna. À mamã digo que te encontrei assim.

Foi tomar os comprimidos, esperou pela moca, e voltou. Devolveu-lhe mais amarelo, o amigo da onça. Traidor.

Queixo-me à mamã, espécie de vidro mal parido, que este ser e não-ser não é razão para me negares. São cá coisas entre mim e deus-nosso-senhor-virgem-santíssima.

(Foi pedir conselhos aos inimigos dos seus inimigos, que amigos era coisa que não tinha)

Voltou cheio de unhas.

Devolve-me o meu reflexo!, ordenou.

(mais amarelo)

Arrancou-o da parede (contigo posso eu) e arremessou-o contra o linóleo roto atrás do bidé onde de noite se abluía e por donde já se erguiam ervas-daninhas (era o seu jardim possível); aquele chão que a moderna alcatifa não tinha conquistado (a mamã havia consentido, ordenando àquele homem, belo e hábil de mãos, para ali não chegar – atrás do bidé).

Antes de morrer, cortados os pulsos num estilhaço rombo do judas que imaginou partido, ouviu o espelho (continuava integro na parede) dizer: teve de ser. Tive que ser, fazer por mim, que um espelho é feito para mudar o reflexo que oferece à velocidade mansa dos anos que passam. E anos não são dias, como tu me fazias crer. Passavas demasiado depressa. Dou imagem a homens, lamento; um ser como tu que um dia é lusco (ao menos) outro dia é fusco não me devia ter violado dessa forma.

Devias ter-te limitado aos deleites que te davam o teúdo e manteúdo buraco de tijolo que guardas debaixo da almofada. Arriscaste-me a essência.

Lamento. Pela tua mamã.

(também aqui)

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13 comentários:
De Marco a 26 de Junho de 2010 às 04:23
Muito bom, como é habitual. À hora do costume. Obrigado!


De Rogério da Costa Pereira a 26 de Junho de 2010 às 15:27
Obrigado. E digo-lhe o mesmo: à hora do costume, o seu comentário. Isto começa a ter piada.


De Marco a 26 de Junho de 2010 às 16:36
Serei eu mais um alter-ego de RCP? Também sou sportinguista, vivo em região montanhosa...

Temos que fazer aí uma jantarada dos alter-ego todos, se bem que, a acreditar nas teorias, seria um jantar bem solitário... ;)


De Rogério da Costa Pereira a 27 de Junho de 2010 às 00:29
Quando quiseres esse jantar solitário nas montanhas, avisa. Levo mulher, puto, papagaio e gata (desculpa, mas não me trato por você). Já  agora, estive a dar uma vista de olhos no DreamsInCode (areia a mais para a minha camioneta): as coisas que eu sei fazer. ;)


De Isabel Moreira a 26 de Junho de 2010 às 18:28
nada a acrescentar, querido. porra..


De Alexandra Tavares Teles a 26 de Junho de 2010 às 22:04
faço meu o comentário da Isabel.


De Rogério da Costa Pereira a 26 de Junho de 2010 às 23:35
Obrigado, meus amores.


De José Dias a 26 de Junho de 2010 às 11:26
Não tenho pontos de apoio para uma interpretação segura deste texto. Se calhar também não era importante. Segura é a sensação de murro no estômago, angústia de que esta ficção corresponda a muitas realidades, desespero de chocar, um dia destes, com uma situação limite que não nos deixe alternativas. Parabéns.


De Rogério da Costa Pereira a 26 de Junho de 2010 às 15:30
Isso de interpretar textos não é coisa que se faça. Murro no estômago levei eu, que escrevi metade do texto, no telemóvel, durante um espectáculo de ballet. Cheguei a casa e népias. Foi-se. O outro espelho era diferente. Obrigado.


De maloud a 26 de Junho de 2010 às 12:14
Lamente também por mim que vivo no Porto. Não há ETAR que aguente aquela viscosidade fétida.


De Rogério da Costa Pereira a 26 de Junho de 2010 às 15:31
Não veja aqui ninguém, que está aqui demasida gente. Até eu.


De José Viegas a 26 de Junho de 2010 às 13:40
Uma confissão tudo lavará. Haja fé posto que já houve santos piores. Santa Madre Igreja. Todo teu.


De Rogério da Costa Pereira a 26 de Junho de 2010 às 15:32
Anjos com trombones?


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