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jugular

a liberdade de expressão no seu melhor de honestidade e rigor -- não esquecendo, naturalmente, a aut

A manchete de hoje do Público, que garante que "Custo de aborto na Madeira ronda os 230 mil euros por ano", é muito boa. Mesmo muito boa. E sobretudo inédita. De facto, não sei como é que ninguém, a começar por mim e pelo jornal onde trabalho, ainda não se tinha lembrado de fazer as contas aos custos da aplicação da nova lei na região autónoma -- os tais custos aos quais o governo regional afirma não ter meios para fazer face, sem no entanto até agora ter esclarecido a quanto orçam. Claro que é pena que na notícia toda esteja ausente a explicação do valor apresentado ou o fundamento da estimativa de "cerca de 600 abortos por ano" ou sequer da percentagem de 0,07% sobre o valor do orçamento regional de saúde. Mas faz sentido: afinal, parte-se do princípio de que toda a gente leu a fonte da inédita notícia. Pena é não terem tido o cuidado, já agora, de por um link na edição da net do prestigiado diário ou de fazer referencia, na edição de papel, ao lugar de onde veio a informação. Em nome da informação livre, isenta e, sobretudo, rigorosa e honesta e transparente, sem manipulações nem 'agendas escondidas'. Sem a qual não ha, dizem, democracia. Enfim, nada de substancialmente novo. (naturalmente, por estúpido lapso, a percentagem apresentada no artigo do DN está erradíssima, como o jornal admitiu logo no dia seguinte ao da publicação. O diferendo entre o DN e Público a que se faz referencia no último link, iniciado em 2004, está por dirimir ainda, seguindo nos tribunais)

perfect day

Just a perfect day, Drink Sangria in the park, And then later, when it gets dark, We go home. Just a perfect day, Feed animals in the zoo Then later, a movie, too, And then home. Oh it's such a perfect day, I'm glad I spent it with you. Oh such a perfect day, You just keep me hanging on, You just keep me hanging on.

Just a perfect day, Problems all left alone, Weekenders on our own. It's such fun. Just a perfect day, You made me forget myself. I thought I was someone else, Someone good. Oh it's such a perfect day, I'm glad I spent it with you. Oh such a perfect day, You just keep me hanging on, You just keep me hanging on. You're going to reap just what you sow, You're going to reap just what you sow, You're going to reap just what you sow, You're going to reap just what you sow... Lou Reed Transformer (1972) More from album : Transformer

o abel e o caim das internetas

"Pode ter sido ciúmes, mas também pode ser outras coisas que vêm para aí pelas internetas. Parece que ele andava muito lá pelas internetas." Idoso de Leiria, a comentar homicídio de miúdo de 11 anos (que, obviamente, a jornalista da TVI trata por 'o pequeno Sérgio') atribuído a irmão de 17, alegadamente por 'ciúmes dos pais'.

a nova aventura dos cinco

Não sei se os miúdos ainda lêem os Cinco, ou “Os famosos cinco”, como lhes chamou a sua criadora, a britânica Enid Blyton. Eu devorei todos e cada um dos livros da série, e mais de uma vez. Quando comecei a ler a sua obra, Blyton, desaparecida em 1968, aos 72 anos, já não estava entre nós. Nada sabia dela e presumo que os meus pais, que tinham comprado os Cinco e os Sete para a minha irmã mais velha, também não. De modo que quando se aperceberam de que me estava a tornar aquilo a que à época se dava o nome de “maria rapaz”, ou seja, uma menina que queria fazer o que era suposto só os rapazes fazerem – jogar à bola, subir às árvores, andar à bulha, brincar com carrinhos – e odiava “coisas de menina”, como saias e sapatos de verniz e totós, talvez não tenham logo responsabilizado a dona Enid e a sua mais notória personagem dos Cinco, a “Zé” (ou George, na versão inglesa – a Georgina, de 12 anos, que exige que a tratem por nome de rapaz, só usa roupa masculina e cabelo curto e tem como melhor amigo o seu cão Tim), por tais, digamos, tendências. Que incluiam, para completar o figurino, um amor desmesurado por cães e uma enorme vontade de aventura.

Eu seria pois o chamado caso exemplar da influência (má ou boa, segundo a perspectiva) das leituras na formação da personalidade. Sucede, para estragar a teoria, que a minha irmã leu os mesmos livros e para ela a personagem de identificação era a Ana, a mais nova dos Cinco, a irmã de Júlio e David e prima da Zé. Timorata e “feminina”, a Ana gosta de saias, usa cabelo comprido, adora cozinhar e arrumar, é protegida por todos e debulha-se em lágrimas à menor contrariedade. Não, o mistério da formação da personalidade e dos mecanismos de identificação não se esgota decerto em receitas de leitura ou em sermões de qualquer espécie. Confrontando o estereótipo da menina-muito-menina com a maria rapaz que nas releituras actuais é vista quer como “uma referência feminista” quer como “transgénero” (termo cunhado nos anos 70 do século XX para alguém que assume, na forma de vestir, na atitude e nos “maneirismos”, uma identidade de género que não coincide com o seu género biológico), Blyton dava a imaginar. E as crianças imaginavam-se, de acordo com a sua intuição e desejo. Recentemente, a personagem da Zé surgiu-me como tema de reflexão a propósito das elucubrações da direita cristã fundamentalista polaca (repescando uma obsessão dos primos americanos) sobre uma das personagens da série infantil Teletubbies, o Tinky Winky, que, por ser lilás e “usar uma malinha”, poderia estar a “promover a homossexualidade”. Há qualquer coisa de comovente na crença inabalável que todos os sistemas totalitários demonstram no poder das criações artísticas para conformar as mentes e até, parece, as sexualidades. Venho pois por este meio apelar às autoridades polacas (e a todos os que como elas pensam) para, após acabarem de discutir se proíbem ou não os Teletubbies, dirigirem o sumamente esclarecido olhar para a mui subversiva Enid Blyton e para a sua mais tenebrosa criação, a Zé. Ao fim de 50 anos de sossego, os Cinco já merecem uma nova aventura. E a boa da Enid, a quem já chamaram “sexista”, “racista” e “classista”, uma segunda vida, como papisa do “lobby gay”. (texto publicado na coluna 'Sermões impossíveis' da Notícias Magazine de 22 de Julho)

o presidente que se declara 'instância não própria'

Gostava muito de saber com exactidão o que foi perguntado pela TSF a Cavaco Silva sobre o incumprimento da nova lei do aborto pelo Governo Regional da Madeira. Recordemos as declarações em causa. Disse Cavaco: "Quando a legislação não é aplicada, os cidadãos podem recorrer a instâncias próprias, ao sistema de justiça";"[É] às instâncias próprias, judiciais, que compete analisar se há ou não cumprimento da lei e, se não há, aquilo que deve ser feito". Assim, à partida, fica-se com a ideia de que o que terá sido perguntado a Cavaco é que opções tem uma madeirense que queira interromper a gravidez nas primeiras dez semanas, de acordo com a lei que ele próprio promulgou. Se foi essa a pergunta, ficamos então a saber que para o presidente a opção será colocar um processo (a quem? Ao hospital que nega a interrupção? Ao governo regional? Ao Estado? Ao destino?) -- e, naturalmente, esperar pelo resultado. Umas semanas, uns meses, uns anos -- não há pressa e, de caminho, terá nascido mais uma criança, que tanta falta faz a um país com tão mísera natalidade (isto se a mulher não abortar clandestinamente, o que a colocará, então, em condições de ser ela a processada, para além de lhe pôr em risco a saúde, mas isto são minudências). Claro que a pergunta também pode (e deveria) ter sido: 'Senhor presidente, o que acha da recusa do governo regional da Madeira em aplicar a lei?' Não sabemos. Mas sabemos, sem sombra de dúvida, que Cavaco decidiu não condenar a posição do Governo Regional. E declarar-se como 'instância não própria' para a sua resolução.

É talvez muito insolência minha recordar ao presidente da República quais os seus deveres, mas a Ana Matos Pires já o fez e eu reitero: ele é o mais alto magistrado da nação, eleito para garantir a qualidade da democracia e o normal funcionamento das instituições, tendo jurado sobre a Constituição. Num caso como este, em que pela primeira vez uma parte do território nacional recusa cumprir uma lei por si promulgada, o presidente da República só pode ter uma posição: exigir que seja respeitada a democracia, garantidos os princípios constitucionais e reposta a legalidade. Ou seja, condenar vigorosamente (de forma substantiva, sem se refugiar no formalismo de passar a bola que não tem por que ser passada aos tribunais) a atitude do governo regional. Ao não o fazer, o presidente demonstra ou não conhecer as suas funções ou não ter vontade de as cumprir. O que nos leva a levantar um incidente de suspeição. Dever-se-á esta atitude às suas convicções pessoais sobre o aborto por vontade da mulher ou a uma qualquer incapacidade de fazer frente a um líder regional do partido do qual foi dirigente (que, recorde-se, já o tratou respeitosamente por 'Sr Silva')? Qualquer que seja a sua motivação, porém, Cavaco Silva acaba de demonstrar, na primeira grande prova à sua presidência, que não está à altura do cargo. Que, de facto, é instância 'não própria'. Aliás, se um presidente remete para os tribunais as funções que são suas e só suas temos de concluir que o que nos está a dizer é que não precisamos dele. Ficamos com os tribunais e ainda poupamos uns trocos -- para aplicar, por exemplo, em incentivos à natalidade. A bem da nação. (recorde-se que Marcelo Rebelo de Sousa, ontem, na RTP 1, considerou inaceitável a posição do Governo Regional, insistindo, como o já fizeram outros juristas, em que este não tem legitimidade para não cumprir a lei. Esta asserção, porém, não o impediu de dizer que Cavaco 'disse o que havia a dizer'. Ou seja: Marcelo não precisa de perguntar aos tribunais se é ou não ilegal e ilegítimo o que o governo regional está a fazer, mas acha bem que o problema seja por eles dirimido, sem porém explicar como e por que tipo de tribunal e a pedido de quem. 'Imprecisões' que terão passado despercebidas à dialogante de serviço a quem, pelos vistos, também não terá ocorrido questionar Marcelo -- que foi nomeado por Cavaco para o Conselho de Estado -- sobre quais serão, finalmente, as obrigações de um presidente da República e de que fórmulas dispõe a democracia para impedir que um governo regional lhe cuspa em cima)

a 'excepção' madeirense

texto de Ana Matos Pires, médica e membro da Associação Médicos Pela Escolha O Governo Regional anunciou que a lei do aborto não será aplicada na Madeira enquanto o Tribunal Constitucional não se pronunciar sobre ela. Burrice, má-fé ou ambas? Em nenhum momento, e tanto quanto é público, foi feito um pedido de fiscalização ao referido Tribunal pelo Governo Regional da Madeira. Além disso, e do meu ponto de vista mais importante, há aqui uma incompreensível inversão de princípios: em caso de dúvida sobre a constitucionalidade de uma lei já promulgada, ela tem de ser aplicada até decisão em contrário, ou estou enganada?

"1.* *A soberania, una e indivisível, reside no povo, que a exerce segundo as formas previstas na Constituição. 2.* *O Estado subordina-se à Constituição e funda-se na legalidade democrática. 3.* *A validade das leis e dos demais actos do Estado, das regiões autónomas, do poder local e de quaisquer outras entidades públicas depende da sua conformidade com a Constituição." *Artigo 3º da Constituição da República Portuguesa* Ainda a propósito da Constituição, deixo aqui uma outra pergunta. Será que o Senhor Presidente da República, perante um caso similar no continente, também - e apenas - recordaria aos cidadãos os seus direitos, em vez de tomar a posição devida face ao assumido incumprimento de uma lei já por si promulgada? "O Presidente da República representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas (…)." *Artigo 120º da Constituição da República Portuguesa* Anotadas estas "minudências", detenhamo-nos nalguns aspectos mais práticos e técnicos da questão. Se é certo que as Regiões Autónomas têm um estatuto próprio relativamente à organização dos serviços públicos de saúde, não deixa de ser verdade que se regem pelas leis gerais. É assim no que diz respeito, por exemplo, aos concursos de acesso às carreiras médicas, cujo articulado legal aplicável é comum às regiões autónomas e ao continente. A excepcionalidade madeirense levanta algumas questões. Como se aplicava, efectivamente e no terreno, a anterior legislação nesta região autónoma? Que acréscimo de meios técnicos implica a nova lei? De que necessidades, em termos de recursos humanos, estamos a falar? Quantos médicos objectores de consciência existem na Madeira? E se, de repente, existirem médicos do SNS disponíveis para, digamos que uma vez por semana, se deslocarem à Madeira e aí efectuarem interrupções de gravidez dentro do actual enquadramento legal? Poderão fazê-lo? Em que espaço físico? Já agora, e para não me alongar mais, o que se passa com as outras situações previstas na actual lei do aborto? Quem vai decidir sobre a instalação de um serviço privado que ofereça este acto médico na Madeira? E o licenciamento desse (eventual) serviço privado beneficiará também de um estatuto de excepção, ou será aplicada a lei nacional? Bem sei que o problema é "menor", afinal o que está em causa é, *apenas*, retirar direitos e cuidados de saúde a umas quantas mulheres portuguesas (que, por opção, decidam interromper uma gravidez) porque… vivem na Madeira. Mas uma coisa é inegável: estamos perante um desrespeito à lei e um abuso de > poder que não dignifica a democracia – o que nos deveria envergonhar a todos, independentemente da forma como votámos a 11 de Fevereiro. Ps: Alguma vez foi requerida a fiscalização constitucional das leis 6/84, de 11 de Maio, e 90/97, de 30 de Julho, entretanto revogadas pela lei 16/2007, de 17 de Abril, ou da portaria 189/98, de 21 de Março, aplicada no Hospital Distrital do Funchal, de resto?

coitados dos coitadinhos

Uma pessoa não se cansa de encontrar verdades básicas sobre a natureza humana – tantas e tão variegadas e ao gosto do freguês que são. Uma das minhas favoritas é a que divide as gentes entre as vítimas e os outros – que não sendo vítimas só podem ser os maus. Esta divisão, ao contrário do que possa parecer, nada tem a ver com actos, suas consequências e a quem podem ser imputadas. Não. Tem a ver com a forma como as pessoas se vêem. Há quem se considere sempre incapaz de fazer mal, e que, seja em que circunstância for, o que quer que tenha feito ou dito, pergunte sempre, de preferência com a voz e os olhinhos já tremeluzentes, “mas o que é que eu fiz?”.

De lágrima, queixume e beicinho fácil, estas pessoas, que afectam uma estonteante e dolorosa fragilidade, só não serão passíveis de diagnóstico patológico – pela sua total incapacidade de se avaliarem com o mínimo de justeza e realismo -- por serem tantas. Não vamos decretar que o mundo está cheio de parapsicóticos, é chato. O melhor, porém, não é a espantosa capacidade que tantas gentes têm de se considerar sempre do lado do bem. Nem sequer o facto de levarem a mal que quem se sinta por elas ofendido tenha o despautério de lhes não perdoar, ou a insistência com que mostram considerar-se no direito, não necessariamente ao perdão – para exigir perdão teriam de assumir ter feito alguma coisa pela qual teriam de ser perdoados – mas à manutenção de uma relação “normal” (e por normal amiúde implica-se afecto, amizade às vezes até amor) com quem magoaram ou prejudicaram ou traíram. Não, o melhor não é isso – e tudo isso já é, convenhamos, muito bom. O melhor é que mais tarde ou mais cedo quem não perdoa as ofensas que lhe foram objectiva e efectivamente feitas passa a ser o mau da fita. Não perdoar é uma espécie de interdito social. Poderia ser de tanto ouvir, no Pai Nosso, “como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Só que o problema não está tanto (não está de todo) em não perdoar, mas em dizer e mostrar que se não perdoa. Há na recusa aparatosa do perdão uma dureza que a faz aparecer como mal maior – sobretudo para quem não sofreu o mal pelo qual o perdão seria devido. Quem não perdoa tem “mau feitio” ou é “implacável” ou (estas são geniais) “tem falta de grandeza” ou até “espírito persecutório” – ao contrário de quem, decerto por distracção, lhe enfiou uma daquelas facas de lâmina comprida e serrilha ali no meínho das costas e agora chora baba e ranho e torce as mãos e rasga as vestes porque quer que tudo fique “como era dantes”. Quer dizer, antes da acidentalíssima facada que o outro, por azar e grande falta de bondade natural, entendeu não relevar. Mais vale, como no outro dito popular, parecer vítima que ser vítima. E, sobretudo, nunca dizer, nas palavras imortais de Rhett Butler em Gone With The Wind, ‘frankly, my dear, I don’t give a damn’ (em tradução livre, “chora para aí a ver se eu me ralo”). Isso é que é imperdoável. Onde é que iríamos parar, se de cada vez que alguém pede desculpa não fosse desculpado? Em que mundo viveríamos se quando se diz “não queria magoar-te, não sei o que me passou pela cabeça”, ou “foi só uma brincadeira, não te queria prejudicar”, não viesse de lá um abracinho compreensivo? Demos graças por viver rodeados por tão doces almas, tão incapazes de rancor ou maldade – excepto às vezes, ou dia sim dia não, mas apontar, toda a gente sabe, é feio. (texto publicado na coluna 'Sermões impossíveis' da Notícias Magazine de 15 de Julho)

salgados, insossos e picantes

Então parece que agora a família da Carolina Salgado, a ex-noiva daquele senhor que preside há um ror de anos ao Futebol Clube do Porto, veio a público desmentir o que a Carolina escreveu naquele livro chamado Eu, Carolina que saiu há uns bons meses e que quando saiu foi lançado pela Carolina em grande confraternização com a família.

Vi ontem na TV a irmã da Carolina, que parece até que é gémea, embora não exactamente igual, a dizer que desaconselhou a irmã de escrever o livro, que o livro era só para a irmã se vingar do ex-noivo e o pôr a ridículo, que a primeira versão do dito (que ela tem lá em casa muito bem guardada) não tinha aquela narrativa do enxerto que a Carolina diz que mandou dar em não sei quem a pedido do senhor do Futebol Clube do Porto e que entre outras coisas fez da Carolina uma testemunha apresentada como fundamental no processo Apito Dourado. Mais: a irmã da Carolina, que se chama Ana (a propósito, não era esta irmã da Carolina que, grávida, teria sido pontapeada por um segurança do Porto?), acusa a equipa da Polícia Judiciária que está a investigar o processo de ter induzido depoimentos, insinuando a existência de uma cabala contra o presidente do Futebol Clube do Porto que incluíria interesse de outros clubes, nomeadamente o Benfica. Acusações às quais responderam não só a procuradora Maria José Morgado, que dirige a investigação (negando qualquer manipulação), como a própria Carolina, que ligou para a Sic afiançando que o dinheiro neste caso “fala mais alto que o sangue”. Tudo isto, que a gente até pode achar instrutivo (e é) e divertido (talvez) e sobretudo previsível (extremamente) é uma tão velha tragédia humana que dá vontade de muito elitisticamente lamentar que se leiam tão poucos clássicos em Portugal. Rapariga desprezada conta tudo para se vingar do ex-noivo, ridicularizando-o de forma obscena e denunciando histórias atrozes de desmandos e ilegalidades. Família apoia-a primeiro e ataca-a depois, acusando-a das piores aleivosidades. Rapariga acusa de volta. É tudo um nojo, é. Mas foi de matérias como estas – despeito, abandono, ciúme, raiva, ambição e vingança – que se construíram as mais sublimes tragédias da literatura. E muitas vezes é assim que as coisas se passam. Com salgados e com insossos, à vista ou mais escondido. No futebol como num banco comercial qualquer. (texto publicado na coluna Black Out do DN Sport de sábado)

a patrícia põe ordinarões e fufas no lugar e o dr pacheco pereira aplaude de pé

Afiançando nada saber da 'tempestade' que desencadeou na blogosfera, a Patrícia Lança -- a mesma que a 1 de Julho afiançava 'não voltar ao assunto' devido a uma tal de 'tempestade de imundície verbal' que teria ocorrido -- diz ter, finalmente, feito uma busca pelo seu nome no google e descoberto as reacções as suas afirmações. Reagindo então (pela enésima vez, mas pronto, há coisas que merecem ajustamentos), às reacções. Manifestando-se desagradada com 'os idiotas e malcriados' de 'linguagem ordinária' que a comentaram, a Patrícia, que garante não ser 'dondoca', faz contas ao tempo que nos falta a todos para ter o mesmo tempo que ela. E afiança mesmo que andou a pesquisar piolhos e outras maleitas da promiscuidade e da falta de higiene aos 19 anos, enquanto membro do esforço de guerra e resistência dos britânicos contra os nazis, tendo tido até, também, de dar conselhos sobre os perigos de contactos sexuais 'promíscuos'.

Percebe-se do contexto que a Patrícia está a usar aquilo que considera serem argumentos de autoridade: é muito mais velha que as pessoas que a criticaram e já se preocupava com a promiscuidade sexual muitos anos antes de nós existirmos, tendo até tido que, nessa época, inspeccionar corpos, talvez até, homessa, quase despidos, de gente desconhecida, o que deverá ser lido como sinal indesmentível de grande desempoeiramento e sofisticação. Ao mesmo tempo, a Patrícia faz questão de responder ao Miguel Vale de Almeida. Com altivez, garante que não há motivo algum para o Miguel se congratular com o facto de ela, na sua idade, ser tão activa a escrever na blogosfera. Nada há de extraordinário nisso -- só em Portugal, diz a Patrícia, é que tal seria alvo de espanto. Porque somos irremediavelmente provincianos e atrasados e não nascemos, como a Patrícia, no estrangeiro de fora. Nada há então, garante a Patrícia, de admirável no facto de, na sua idade, ter blogues. Quem se admirar com isso é parolo (naturalmente, 'lá fora' é só octogenários na bloga). Temos é de a admirar por ter 82 anos e vivido muito mais que nós. E por já estar alerta há tanto tempo para os perigos da sexualidade 'promíscua' e para a problemática dos piolhos. Tão alerta tão alerta está a Patrícia e tanta experiência tem da vida, que não tem dúvidas sobre a natureza dos seus detractores. Parolos e ordinarões, como já vimos. Mas há mais: 'Uma nota especial para as senhoras com gostos exóticos que também se manifestaram na recente polémica: naturalmente havia também dessas na tropa feminina e eu, pela forçada convivência com elas, aprendi a ter alguma pena da sua deficiência. Isto é, pena, enquanto não tentassem aliciar as mais desprotegidas' Trememos só de pensar como reagiria a brava Patrícia perante esses tenebrosos aliciamentos. Metia alcatrão e penas, Patrícia? Ou era só chicoteamento público? Afinal, nessa época, Patrícia, os comportamentos homossexuais ainda eram crime -- na Grã-Bretanha como em Portugal como na generalidade do mundo. Admite-se então que tenha podido chamar a polícia de costumes e dado às exóticas deficientes o tratamento que mereciam. Bons tempos, Patrícia, antes de o mundo ter relegado essa criminalização para os países onde se lapidam pessoas pelas suas escolhas sexuais e amorosas -- os mesmos países que a Patrícia tão justamente ataca pela sua intolerância noutras matérias. Mas, cara Patrícia, nada disto em si me surpreende, lamento dizer. Não pela idade que tem -- afinal, conheço muita gente da sua idade com ideias muito menos anquilosadas -- mas porque já se tinha percebido como funciona a sua cabeça. Agradece-se mais esta tão eloquente e elevada clarificação, claro. Mas mais mas muito mais o facto de esta sua 'resposta' ter permitido ao Dr Pacheco Pereira abandonar a sua reserva majestática e entrar na polémica aos bravos por si, ramo de rosas rubras (ou, pensando melhor, talvez de outra cor) ao alto. Isso sim, é verdadeiramente surpreendente -- mas deve ser para mim, que não tendo nem 82 nem sequer cinquenta anos e, confesso, nenhum passado revolucionário adolescente (ou tardo-adolescente) para decantar e redimir, de vez em quando ainda dou comigo a surpreender-me com os 'lados' que as pessoas escolhem. Numa coisa, pelo menos nessa, temos de dar razão (e agradecer) à Patrícia: não há como remexer um bocado as águas para ver o lixo vir à superfície. Ah, e já quase me esquecia, Patrícia. Não tem que agradecer a publicidade aos seus blogues. Garanto-lhe que foi um prazer (acreditava já o ter tornado claro), embora decerto parco se comparado com o exótico prazer que seria conhecê-la.

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