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post de verão

Lembra o Algarve de antes das invasões bárbaras Come-se divinamente e barato Tem praias magníficas, cidadezinhas barrocas, gelados deliciosos Volta e meia estamos no meio de um filme de Coppola  A primeira vez foi por acaso. Queria ir para a Croácia mas não arranjei avião (no ano seguinte fui lá, mas não me pediram para escrever sobre isso, de modo que...). Também já não havia lugares para Palermo, mas Nápoles ainda tinha umas abertas. De Nápoles para a Sicília, explicou-me o Lonely Planet , há barcos. Acreditei e fiz bem. Há barcos, sim senhor. Óptimos barcos e cabinas confortáveis com casa de banho a pouco mais de cem euros (preço de 2001). Parte-se às onze da noite e chega-se lá, a Palermo, às seis e tal da manhã. Pode-se ficar um dia ou dois em Palermo, mas talvez não mereça muito a pena. Melhor seguir directo para o Sul, para a bela Siracusa (onde degustei o melhor gelado de figo de toda a minha vida, mnham ), e daí para uma vila chamada Noto . Notem bem, isto é uma informação privilegiada. Noto é uma pequena povoação a sul de Siracusa, na costa, descrita como "a capital do barroco da Sicília". Ao contrário de Taormina, de que toda a gente já ouviu falar e que toda a gente considera um ponto obrigatório de passagem - e é, mesmo se sempre cheia e muito mais cara que o resto da ilha -, Noto é uma vilória com ruas estreitas onde passa um ou dois carros de vez em quando e velhos de negro sentados no passeio encenam diariamente O Padrinho enquanto dizem uma buona sera lenta, sentida, aos turistas. Em Noto , em pleno Agosto, havia lugar nas duas residenciais (hotéis ainda não tinham chegado há cinco anos) e apenas dois grupos de estrangeiros: uma família alemã e os portugueses. Ao fim de dois dias, toda a gente nos conhecia na rua principal. Nos restaurantes, os donos demoravam-se a aconselhar pratos, davam a provar vinhos. Quando procurávamos um táxi no largo da catedral, um local oferecia, respeitosamente, boleia para a praia. Em Noto , no Ristorante Neas, comi o melhor spaghetti com ovas de atum que me foi dado até hoje provar e conheci a ricotta ensalata , que como o parmesão se rala sobre a pasta (e é bem melhor). Em Noto conheci aquela que é decerto uma das praias mais bonitas e menos frequentadas de Itália, uma pequena baía de areia fina num parque natural (de Vendicari), com pé a perder de vista e água azul límpido de temperatura apropriada a banhos de duas horas. Em Noto , na luz coada de uma manhã muito cedo, a rua deserta ofereceu- -me o coro dos varredores numa balada sicilianamente soluçada. Voltei de novo lá, à Sicília. Mas não a Noto . Voltei por Roma, desci pela bota abaixo, pela Basilicata e pela Calábria, rumo às ilhas Eólicas. Mergulhei no mar negro de Stromboli, torci o nariz ao enxofre de Vulcano, calcorreei as ruelas da jet-sética Panareia, bebi malvasia em Lipari. Mas no meu mapa-múndi a Sicília é Noto . Não as ilhas, não a sofisticada Taormina do teatro greco-romano e das multidões Prada e Gucci, mas a pequena vila da catedral rosada, dos velhos de negro e da matinal cantata dos varredores. Às vezes, acho que a imaginei. Alguém que vá lá e me diga que é de verdade - porque eu, como é sabido, não posso voltar. ( Publicado no DN em 27/08/2006)

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