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jugular

variações sobre a nostalgia e pavese e assim

nunca devemos voltar às alheiras que nos fizeram felizes  (disclaimer: isto é mesmo sobre alheiras. mesmo alheiras, verdadeiras, e de caça. mais exactamente uma alheira grelhada comida como entrada por cerca de quatro pessoas na noite de 22 de novembro e que ainda nos assombra -- às quatro -- porque quisemos mais e a cozinha fechou e era tão tão divinal que agora temos medo de lá voltar, ao restaurante, e não nos parecer tão boa. ok?)

a racista em mim

Apetecia-me escrever: não compreendo o racismo, nunca compreendi. Mas será? Se fizer uma arqueologia dos meus sentimentos, dos meus sentidos, das minhas perspectivas e preconceitos, nada encontrarei que se pareça com um julgamento apriorístico dos outros baseado em características étnicas?

Vejamos: nasci nos anos 60, nos arredores de Lisboa. Os primeiros elementos que identifiquei disso a que se convencionou chamar outra “raça” – ou, melhor dizendo, isso que é percepcionado como “outra raça” – eram ciganos. Mais exactamente um grupo de ciganos, elas de cabelos e saias longas, eles de chapéu e botas bicudas de quem vai dançar o flamenco. Por causa deles ou da ideia que algum livro me fizera deles, achei-os extraordinários, romanescos, quase épicos na sua passada orgulhosa e na sua lenda nómada. As crianças ciganas sujas e desgrenhadas mas quase sempre lindas que fui vendo em acampamentos sucessivos num descampado perto da minha casa misturadas com tendas e fogueiras surgiam-me invejáveis no seu estreito convívio com cães e cavalos, os meus animais favoritos, e numa vida que eu imaginava aventurosa e trepidante. Longe estava das estritas regras impostas às mulheres e de tudo o resto que no modo de vida cigano (se é que se pode dizer isto) me foi criando, ao longo dos anos, desagrado e estranheza. São racismo, essa estranheza e desagrado, esse julgamento desfavorável? Não creio: não é em características ditas “inatas” de um grupo de indivíduos que baseio esse julgamento, mas em comportamentos. Comportamentos que, de resto, identifico em muitos outros grupos étnicos – incluindo esse a que pertenço e que não sei bem qual é (nada como uma volta pelo mundo para perceber que a forma como nos vemos, por exemplo, a forma como aprendi a definir-me, europeia branca, pode ser transmutada noutras paragens em para mim improváveis e quase chocantes definições – na China já me tomaram por indiana, em França por argelina, em Israel por judia, e nos EUA poderei ser mil coisas, de judia a latina, passando por árabe, na Alemanha fui turca… enfim). Não me lembro da primeira vez que vi um asiático. Mas recordo o meu primeiro encontro com um negro. É quase ridículo recordá-lo, mas na verdade havia muito poucos negros em Portugal quando eu era criança, e menos ainda nos meus trajectos. Lembro-me pois que foi no metro, em Lisboa, e que fiquei fascinada. Teria uns sete anos e ia pela mão da minha mãe quando o vi. Era um homem novo e muito escuro – ou pareceu-me assim, a mim que nunca tinha visto um em pessoa e só os conhecia da TV --, cor de chocolate preto. Fiquei a olhá-lo fixamente toda a viagem, primeiro um pouco envergonhada e depois determinada a fazê-lo entender que o meu olhar era benigno, o olhar de uma criança “branca”, sim, mas sem malícia nem isso que os meus pais me haviam explicado ser o racismo. Apliquei-me nisso, em fazê-lo perceber que não lhe queria mal – que sabia como os negros eram maltratados e perseguidos pelos brancos por serem negros e queria dizer-lhe que eu, apesar de branca, não era assim , ao contrário, estava pronta a gostar de todos os negros só por serem negros. Não faço ideia do que poderá ter pensado o homem do insistente (e sim, mal educado de tão intrusivo) olhar daquela menina que ele retribuiu durante toda a curta viagem. Talvez tenha achado que era o que também ou sobretudo era: a curiosidade e o fascínio da “diferença”. Mas também uma espécie particularmente insidiosa de racismo, aquela que permitiu até a uma criança colocar-se no lugar de superioridade que diz “eu aceito-te, vês?”. E desse racismo, o mais difícil de identificar e sacudir de nós, o que disfarça o desrespeito com supostos bons sentimentos e a desigualdade com uma teoria geral da compensação, não estou certa de estar livre. (publicado na coluna 'sormões impossíveis' da notícias magazine de 18 de novembro)

variação socrática sobre mais uma divisão do mundo

ainda te lembras de quando sabiamos exactamente quem éramos? yep. e depois, de quando de repente percebemos que não sabiamos? é tão estranho, dares-te conta de que não sabes, de que não te conheces. acho que o mundo se divide entre as pessoas que acham que sabem quem são e as que sabem que não sabem. ainda há uma terceira categoria: as que nem sequer pensam nisso. não sei se não pensam ou não lhes interessa perder tempo com isso -- há quem só se interesse com resultados. ah, os pragmáticos, pois é. esses. nós é que temos a mania de andar a procura da essencia. da verdade, da alma. e perdemos o tempo todo nisso.

...

tinha posto um lembrete no telemóvel. pensei nisso no início da semana, no início do mes. pensei nisso outra vez quando voltou a acontecer. depois esqueci -- esqueci-te? estava numa festa, na inauguração de uma exposição de um amigo, entre amigos, quando, depois da meia noite, li, no telefone, a lembrança. faz hoje um ano, um ano inteiro, dia a dia. não sei que diga, que te diga, que mais diga de ti. passei a noite a manter-te a distancia. a noite toda, até agora. o alexandre, no dia de anos dele -- também é neste mes, o dia de anos dele -- explicou a teoria dele sobre os mortos: devemos pensar neles como pessoas que por uma razão ou por outra não puderam vir. comparecer, aparecer, estar. que não voltaram da patagónia. ou de cochim. ou de tuvalu. gosto de pensar assim em ti. gosto de me lembrar tão bem de ti -- dos gestos, das expressões, das entoações, da pose direita, quase rígida, frágil de tão rígida, rígida de tão frágil, das roupas, dos sapatos, dos óculos, dos sorrisos. gosto de saber que sou capaz de te reproduzir fielmente na minha memória. que não te apaguei. gosto de sentir a tua falta, de sentir tanto o teu lugar e o vazio dele. e a injustiça, a merda da injustiça e a raiva desse vazio. tantas vidas te faltavam, tantas. perdoa-me que chore por ti -- não tenho como não chorar. por ti, por mim -- não tenho como distinguir.

a justiça do cozinheiro

Esta segunda-feira, ficou a saber-se que o Tribunal da Relação de Lisboa, num acórdão de Maio, havia confirmado a sentença do Tribunal de Trabalho que em Março avalizara a justeza da cessação do contrato de trabalho de um cozinheiro com HIV. Para o Tribunal do Trabalho "ficou provado que [o cozinheiro] é portador de HIV e que este vírus existe no sangue, saliva, suor e lágrimas, podendo ser transmitido no caso de haver derrame de alguns destes fluídos sobre alimentos servidos ou consumidos por quem tenha na boca uma ferida" e portanto constitui "um perigo para a saúde pública, nomeadamente dos utentes do restaurante do hotel". Sendo certo que para uma parte substancial dos portugueses inquiridos sobre as vias de infecção do HIV os tampos das sanitas e apertos de mão estão no top - por que não então o suor, sangue e lágrimas aspergidos na comida por quem a cozinha, coisa que pelos vistos deve ser normal e corrente na restauração (onde está a ASAE quando mais precisamos dela?)- esperar-se-ia de juízes um pouco mais de informação. Que, por exemplo, atendessem ao Direito Comparado - nos anos 90, dois casos idênticos no Canadá e nos EUA foram considerados pelos tribunais "discriminatórios", "inaceitáveis" e "sem qualquer fundamento científico". Que conhecessem e atendessem às recomendações da Provedoria de Justiça - em 1999, a propósito de um militar seropositivo cuja função era, precisamente, cozinhar, o então provedor Menéres Pimentel escreveu: "O militar em causa, portador do HIV, nunca poderia ser considerado uma ameaça para a saúde pública no exercício das suas funções, que à altura eram de reforço na cozinha." Que ouvissem os especialistas (a negar, em bloco, a existência de perigo). Por fim e em suma, esperar-se-ia que os juízes conhecessem a lei e a Constituição e o fulcro da sua função: ser justos, pacificar. Mas estes juízes fizeram o contrário. Entrincheirados na sua ignorância e preconceito, certificaram que, afinal, todas as campanhas antidiscriminação de seropositivos, incluindo as que incidem sobre casos de crianças expulsas de escolas, estavam erradas. Que os seropositivos devem ser despedidos, marginalizados, perseguidos, expulsos. Que as pessoas devem recusar o teste de HIV e, caso estejam infectadas, devem escondê-lo de toda a gente - a começar pelos médicos do trabalho . O cozinheiro despedido percebeu-os muito bem: no restaurante onde entretanto arranjou emprego, ninguém sabe que ele é seropositivo. E, com um bocado de sorte, se um dos juízes em causa por lá aparecer, há-de cuspir-lhe na sopa. (publicado hoje no dn)

airwave robbery

9 anúncios: whisky, bailey, mais whisky, gin, mais whisky, cgd, sapo, playstation portátil, um filme nos cinemas. isto em 4 minutos, entre duas partes de uma série... no axn, um canal que faz parte dos pacotes clássico e funtastic da tv cabo, ambos pagos. pagar para ver séries, e acabar a pagar para ver publicidade: a tv cabo acha isto uma coisa decente. começou a faze-lo de mansinho, nos últimos meses: um anúncio aqui, outro ali. onde antes só existiam promoções a séries e filmes do canal que estávamos a ver e de outros canais do cabo, em intervalos minúsculos, temos agora 'normalíssimos' blocos publicitários, daqueles que sustentam as tvs de sinal aberto. tudo, naturalmente, para bem dos assinantes. e tudo sem que se levante um dedo. não faço ideia se isto configura algum ilícito, mas é certo que é uma monstra falta de respeito e de vergonha -- e não me digam que posso mandá-los as ortigas quando me apetecer, estou bem ciente disso. chateia-me é que essa seja a única forma de resolver o problema.

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