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jugular

Pois se mete bastonário, objecção de consciência e assim eu podia lá deixar passar

Atrasada, é certo, porque a disponibilidade tem sido pouca, mas ainda muito a tempo para um apontamento sobre uma notícia do DN de dia 27, até porque se não o fizesse ficava embuchada.

Há alguns meses atrás – seis, penso eu – a Ordem dos Médicos enviou 6440 inquéritos a outros tantos médicos da especialidade de Clínica Geral e Ginecologia e Obstetrícia, tendo sido recebidos até ao momento “dois mil e picos”.

Com base nos números fornecidos pelo bastonário e assumindo que o “picos” é igual a zero, podemos concluir que responderam ao inquérito 31.06% dos clínicos a quem ele foi enviado, que os objectores de consciência são 21.27% e que - tendo em conta que a objecção de consciência pode ser definida como uma posição subjectiva que determina o não-cumprimento de obrigações e a não-prática de actos legalmente previstos por convicções próprias do sujeito, sem que daí resulte qualquer penalização - só 12. 42% do total dos inquiridos são “verdadeiros” objectores de consciência, pois só esses objectam ao “acto de fazer abortar”. Dos resultados conclui-se também que, de entre os 1370 objectores, 41.61% (570) "objectam à escolha" e não ao “acto”.

Retomemos a (baixa) adesão ao inquérito. Existem, seguramente, várias razões para a alta abstenção – 69% dos inquiridos não responderam – sendo uma delas, com toda a certeza, a referida à Fernanda Câncio por Maria José Alves «a obstetra que deu a cara pelo "Sim" no referendo diz … "ter tido dúvidas sobre o objectivo do inquérito”». Pois, percebo a Zé Alves. Relembro, a propósito, as razões invocadas por Pedro Nunes para o supra citado inquérito: «A Ordem dos Médicos anunciou que vai criar uma lista dos obstetras que invoquem objecção de consciência perante uma mulher grávida que queira abortar (…) porque "à mulher de César não basta ser séria, tem que parecer, a maioria do Conselho Nacional Executivo decidiu proceder a este registo ligado aos médicos que praticam obstetrícia e ginecologia, para que haja transparência"». Mal estaria a OM se vestisse a pele da mulher de César sempre que para tal é empurrada – ah, e não deixa de ser irónico a escolha do chavão utilizado, tinha que falar de mulher séria, pois então. Curioso é não ter havido a mesma preocupação no que diz respeito à inseminação artificial que, recordo, juntamente com o aborto e o serviço militar obrigatório, é das poucas situações face às quais a legislação ordinária nacional concretiza o direito à objecção de consciência.

Já aqui expressei a minha opinião relativamente à objecção de consciência e à necessidade de se saber quantos são os objectores de consciência, mas não me parece que compita à OM, nem ao seu bastonário, policiar a aplicabilidade de uma lei, por maioria de razão quando essa lei é deontologicamente condenável pelo actual Código Deontológico e defendendo o bastonário, de modo muito determinado, a não modificação desse preceito deontológico “a reboque” da dita lei.

 

Ps: Parece-me muito importante saber a divisão das respostas por cada uma das duas especialidades. Porque raio essa informação não terá sido dada?

Mal-estar confuso

Grande lição de história nos oferece Vasco Pulido Valente no Público de hoje:
"No meio desta persistente desgraça, Portugal julgou três vezes que se aproximava da Europa: durante os primeiros tempos da "Regeneração", durante o "fontismo" e durante o "cavaquismo". Ao todo, trinta e tal anos de uma ordem política "civilizada" e de um crescimento económico razoável. Mesmo assim, os fundamentos destes raríssimos milagres não eram sólidos. Nos três casos (embora com um ligeiro atraso), uma crise financeira pôs fim à festa (...)."

E, noutro passo:
"A sociedade ia, como é óbvio, mudando: devagar, aos sacões. Só que a distância que nos separava da Europa não diminuía."

Fascinante. Mas será verdade? Vejamos então como evoluíu ao longo do tempo a proporção entre o produto per capita português e o inglês:
1870 - 30,6%

1913 - 25,4%

1950 - 30,0%

1973 - 58,7%

2003 - 64,8%

A posição relativa de Portugal melhorou progressivamente e de forma muito acentuada na segunda metade do século XX. A evolução comparada com outros países desenvolvidos revela a mesma tendência, pelo que não vale a pena continuar. Vasco Pulido Valente está errado quando pretende que não tem diminuído a distância que nos separa da Europa.

Está também errado quando enumera os três períodos de alegada convergência. Nem a Regeneração nem o Fontismo produziram resultados notáveis, e foi nos anos 50 e 60 do século passado, não durante o consulado de Cavaco, que o país mais cresceu tanto em termos absolutos como relativos.

Os dados que utilizei foram retirados de Contours of the World Economy (1-2030 AD), um livro publicado em 2007 por Angus Maddison - provavelmente a maior autoridade mundial na matéria - na Oxford University Press.

É claro que a metodologia adoptada por Maddison para construir as suas séries estatísticas pode ser discutida, e que quanto mais se recua no tempo maior é a probabilidade de erro. Mas não só não se afastam muito do que os historiadores económicos já sabiam como, representando o estado da arte, ninguém tem o direito de ignorá-las.

Este é apenas mais um dos muitos casos em que, comprovadamente, Vasco Pulido Valente não sabe do que fala.

Português para não especialistas

Por que é que o plural de "qualquer" é "quaisquer" e não "qualqueres"? Por que é que, neste particular, a solução utilizada em português para o plural da palavra "qualquer" é completamente distinta das soluções espanhola e francesa? Haverá mais alguma palavra em português ou noutra língua latina que tenha o plural no meio?

Estou especialmente interessado na explicação dos filólogos.

Roth não esteve na FLAD

Um tédio. Uma desilusão. Confirma-se: um bom escritor nem sempre é um comunicador competente. Gonçalo M. Tavares não soube falar de Roth porque não foi capaz de apresentar algo que se aproximasse a uma leitura pessoal da obra do autor americano. Para além de uma série de afirmações disconexas e digressivas (que serviam sobretudo para falar de outros autores, sem contributo evidente para a interpretação de Roth), não se viu muito mais. Pensei que estava a assistir a um preâmbulo analítico sem grande fio condutor, aplicável a uma série de escritores—uma espécie de proto-enquadramento para uma conversa futura. Gonçalo M. Tavares terminou mostrando uma fotografia de uma instalação de um artista americano (não me recordo do nome): no meio de uma floresta, um abrigo com a porta soldada. Um abrigo inacessível (impossível?). Devia ter começado por aqui.

da liberdade e da censura, detalhes

O Metro de Londres decidiu não autorizar a afixação de um cartaz alusivo a uma exposição  de pintura na Royal Academy of Arts, alegando que o mesmo, uma reprodução de um quadro de Lucas Cranach (o Velho), de 1532, representando uma jovem mulher nua, era “demasiado sexual”.  O episódio deu origem a variegadas proclamações apaixonadas de defesa da liberdade “contra a censura”, incluindo em Portugal, onde se leram, em jornais e blogues, textos em que não só se arremetia contra a decisão “inacreditável” do Metro londrino como esta era relacionada com “o multiculturalismo” e, portanto (parece que não há conversa sobre multiculturalismo que não dê nisso) com os muçulmanos. A ideia era, então, que o Metro (que entretanto reviu a decisão) teria recusado o cartaz por temer chocar os seus clientes islâmicos. Presume-se pois que só os islâmicos são passíveis de ser chocados com imagens de carácter “abertamente sexual” ou com a nudez humana. O que nos leva à conclusão de que Portugal deve estar cheio de islâmicos, a ajuizar pelas escandaleiras que se fazem a propósito de coisas como educação sexual nas escolas ou filmes de animação para crianças, sobre o mesmo tema, passados na RTP. Este “islamismo”, aliás, vai de vento em popa.

Na mesma Londres, um casal de góticos, uma rapariga e um rapaz, foi impedido de viajar num autocarro por ela trazer uma coleira ao pescoço com uma trela que ele empunhava. Os jovens estavam vestidos dos pés à cabeça mas a trela foi considerada não aceitável, em nome, uma vez mais, da sensibilidade dos outros passageiros. A isto, porém, os ditos defensores lusos da liberdade de todas as exibições públicas do corpo disseram nada. Como ao facto de a empresa que gere a publicidade nos autocarros e metro parisienses ter recusado afixar um cartaz da revista Courrier International, por este trazer um título, “Sarkozy, le grand malade”, fazendo referência a um dos artigos nela contidos, uma coluna de opinião em que se diz que o presidente francês padece de uma incurável doença do ego. E igual indiferença dos bravos combatentes da liberdade mereceu a decisão do responsável de uma piscina holandesa, que, à imagem do que faz com os seus clientes nudistas, limitou as horas nas quais as muçulmanas que usam “burkini” (um fato de banho  que as tapa quase completamente, parecido com um fato de mergulhador) podem banhar-se. Enfim: a uns chateia gente nua, a outros gente “demasiado” vestida. Os mesmos que denunciam “o silenciamento das vozes independentes” em Portugal fazem vista grossa ao episódio do Courrier em França. É conforme – como são conformes aos objectivos e às necessidades de propaganda certas noções de liberdade e censura. Tudo pelo maniqueísmo, nada contra o maniqueísmo. (publicado hoje no dn)

YGP, Young Guinea Pigs

Facto: em 2006 havia 24 mil jovens com apoio ao arrendamento de casa; com as "reformas" introduzidas (neste país, quando se quer cortar orçamentos a 50%, diz-se que são "reformas"), o volume de candidaturas aceites este ano desceu para 3500. Ou seja, 14,5 % do anterior número. Houve coro de protestos e denúncia de várias incongruências, sendo uma das principais o tecto máximo das rendas (340 euros, na Grande Lisboa, para um T1 ou T0, é de morrer a rir). O Conselho de Ministros acaba de reconhecer a barraca e introduzir várias alterações ao Porta 65, nome pomposo e vagamente surrealista do programa de apoio ao arrendamento jovem (eu, em mood surreal propunha Stargate, em mood neo-realista acharia por bem baptizá-lo de No Olho da Rua). Ninguém sabe bem que alterações serão essas. Os jovens candidatos aguardam, expectantes, de trouxa às costas, o que o futuro lhes trará, mas ficam certamente agradecidos por terem sido úteis aos testes de implementação de políticas sociais.

Provoca-me um sorrisozinho agridoce (mais agri que doce, reconheço) ver a forma experimental como as autoridades lidam com estas situações, como se os jovens fossem uma espécie de guinea pigs que vão sendo testados e utilizados para "testes sociais". Como há muitos, e desempregados, e à rasca, nunca falta mão-de-obra no laboratório. Forçada ou voluntária. Um misto de ambas, por paradoxal que pareça. Experiência A, ora vamos lá a ver como é que a gandulagem reage a um programa de apoio às rendas. Experimenta-se. Há resultados. Depois o Tribunal de Contas faz sérias críticas ao programa e verifica-se que se gastou mais de 62 milhões de euros. Hmmm. Experiência B, vamos apertar a malha, toca de puxar o laço aos guinnys.  Está tudo a sufocar? Então pegue-se em mais uns quantos ratos de laboratório, perdão, jovens, e vamos à Experiência C, corrigindo alguma coisa e dando mais oxigénio, enfim, a ver se desta vez a coisa corre melhor. Eu, apesar de não ser jovem e, portanto, não sofrer na pele os efeitos destes testes sociais, até que poderia, enfim, conceder algum benefício da dúvida e mostrar algum alívio pela notícia. Afinal, reconhecer e corrigir erros é algo sempre bem-vindo. E um responsável reconhecer que o programa falhou e que teve que ser reformulado seria um sinal de humildade ("democrática" ou não) de honestidade e de clareza. Mas verifico que não. Não houve nenhum erro, nenhuma falha. Segundo o ministro do Ambiente, Nunes Correia, que só sabemos que existe quando profere disparates, nada disso se passou. Falhar, pensava eu na minha ingenuidade natural, era não atingir os objectivos traçados. O programa falhou, vamos fazer outro, com objectivos diferentes. Enganei-me. Falhar deve ser outra coisa, quiçá, quem sabe, who knows, fazer malabarismos de linguagem. No entender do ministro, "falhanço era não corrigir e não fazer ajustamentos depois de ter a informação actualizada". Ao que o ministro chama falhanço, chamaria eu estupidez. E já que se trata de malabarismos linguísticos, posso, portanto, sugerir que foi apenas "meter água". E, desta vez, não poderá dizer que a responsabilidade é das autarquias.

ah ok, prontus

luís filipe menezes quer 'desgovernamentalizar' a rtp e portanto propõe-se retirar-lhe a publicidade, ou seja, a única fonte de rendimento não estatal que a empresa tem. como é que nunca ninguém se tinha lembrado desta? este homem, digo-o com toda a frontalidade, este homem (repito) é um génio.

Português para não especialistas: tem a palavra a Academia

Recebemos um email de um indivíduo que afirma ser o Abel Barros Baptista. Eis a substância do que ele tem para dizer, uma vez expurgado o texto de algumas observações laterais havidas por menos convenientes:




Fui ver o assunto do melhor/ mais bem e encontrei mais alguma coisa que corrige um pouco a minha primeira reacção. Acontece que «melhor» também é advérbio e como advérbio é o comparativo de «bem»: corresponde, pois, a «mais bem». Tanto podemos dizer «no blogue ele escreve melhor» como «no blogue ele escreve mais bem», mas preferimos clara e espontaneamente a primeira possibilidade. Há casos de escritores que usaram «melhor» onde poderiam usar «mais bem», mas isso não significa que o usassem sempre ou que seja a forma preferível. Por exemplo, Machado de Assis: «Oxalá ande ele melhor avisado na organização de uma escola de teatro...» Ou Herculano: «composições análogas de mais largas dimensões e melhor delineadas e vestidas...» Ou ainda Aquilino: «Melhor armado e dominando os mares...» Estas abonações encontram-se no Dicionário Aurélio, que porém acrescenta que nos casos em que «melhor» modifica um particípio ou adjectivo participial prefere-se «mais bem» a «melhor»: mais bem vestido, mais bem mobilado, mais bem situado (a regra que o Ciberdúvidas apresentava e que não sei se é uma regra, trata-se mais de uma tendência ou de uma preferência). Reparem depois em expressões como «falou bem claramente» ou disse as coisas bem distintamente», que fazem comparativo em «falou bem mais claramente que na outra vez» e «disse as coisas mais distintamente do que ontem». Antes de advérbio de modo nunca se usa «melhor».



Quanto a ser «à última da hora» ou «à última hora», a questão é mais arqueológica do que gramatical ou estilística. Claramente falta ali qualquer elemento que tornaria a expressão inteligível. A hipótese de que provém de «à última badalada da hora» é plausível, porque a expressão significa fazer ou chegar no último momento possível para não ser tarde. Se combinas um encontro ao meio-dia e chegas no momento da décima segunda badalada, chegas no último momento para lá do qual já estarias atrasado, embora rigorosamente já não seja meio-dia. A verdade, parece-me, é que «à última hora» não tem qualquer força expressiva.


Abel Barros Baptista



Entendam-se entre si as luminárias que a minha vida não é isto.





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