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Prós e Contras

Estou francamente impressionado com as capacidades comunicativas do Professor José Manuel Moreira. Já as ideias, não são outra coisa senão a cartilha liberal mais básica. Este homem vai longe.

É muito curioso que...

...Gertrude Himmelfarb só fale de três iluminismos (Francês, Americano e Britânico), pois isso revela não só uma leitura parcial e enviesada da tradição de pensamento político e filosófico, mas sobretudo todos os equívocos e distorções que a direita em geral exibe quando fala desses temas. O dualismo mundo anglo-saxónico vs. tradição continental francesa, em que os 'bons' são os empiristas moderados, cultores de uma abordagem céptica, conservadora e respeitadora dos limites da razão, e os 'maus' são os extravagantes dos franceses, com todos os seus excessos revolucionários que levam necessariamente ao Terror, são extremamente úteis quando queremos defender esquematizações simplistas do mundo em que vivemos. O que Himmelfarb (e o Henrique Raposo) esquece é o iluminismo do idealismo e do romantismo Alemão—que, pelo menos no início, tentou mediar entre os dois extremos, entre a revolução e o conservadorismo— que constitui o elemento fundador do pensamento crítico moderno, influenciando autores tão diversos como Schoppenhauer, Kierkgaard, Marx, Nietzsche e grande parte daqueles que no séc xx se dedicaram a estes temas. O dualismo defendido por Himmelfarb é falso porque é parcial, e é desonesto (suponho que ela não seja ignorante) porque empurra todos aqueles que não se identificam com a sua posição para um campo que não é necessariamente o seu. Se há algo que esta tradição (num sentido lato) fez foi questionar os dualismos que Himmelfarb pressupõe e que sustentam a sua posição. A diversidade dos autores que ela esquece não são mais do que o espelho da pobreza e distorção da superioridade (acrítica) da sua posição.

Zizek: eu não acredito em ferraduras enquanto amuletos, mas dizem-me que funcionam mesmo quando não

Sábado, na esplanada da cinemateca, o Elvis da teoria crítica deu um recital de mais de duas horas; e foi igual a si mesmo: brilhante e divertidíssimo. Recorrendo a todo o seu arsenal filosófico e cultural, falou-nos de Hegel e Steven Spilberg, de São Paulo (o santo) e de pornografia, de Marx e Leonardo di Caprio. A estratégia de Zizek é conhecida: ele subverte o senso comum, expondo o elemento ideológico que, contra tudo o que se diz, continua a permear toda a nossa interpretação da realidade. Com o marxismo vulgar desacreditado (ao contrário do PCP, Zizek continua a pensar), e sem uma classe universal que resolva as contradições da sociedade, Zizek limita-se a expôr, muitas vezes de forma absolutamente brilhante, as contradições das fantasias que, segundo ele, estruturam a nossa percepção (constitutiva) da sociedade moderna. O forte do Zizek não passa propriamente por uma crítica da economia política sofisticada (aí ele, acho eu, é um Marxista 'vulgar'), mas por uma subversão psicanalítica provocadora de determinadas categorias políticas e culturais que nos habituamos a considerar auto-evidentes.

Não sendo um especialista no pensamento de Zizek, parece-me que o contributo principal do seu pensamento nos estudos sobre ideologia é a sua critica (mais concretamente: uma superação de tipo Hegeliano com uma forte componente de Lacan) da noção Marxista de "falsa-consciência", sobretudo questionando o seu tradicional potencial emancipador. Para Zizek, e ao contrário do que Marx defendia, a sociedade capitalista não é sustentada por uma 'mentira' que, ao ser conhecida e exposta como mentira, continha em si mesma a possibilidade (revolucionária) da sua superação; a teoria de Zizek propõe uma inverção da noção marxista de 'falsa-consciência', defendendo que a razão moderna é uma razão essencialmente cínica: todos sabemos que a mentira existe, mas agimos 'como se' ela fosse verdadeira. Por outras palavras: a mentira não é uma arma de uma classe contra outra, mas a própria forma 'ilusória' como todos vivemos a realidade. Deste modo, a ideologia deixa de ser uma categoria política propriamente dita, passando a ser uma espécie de fantasia colectiva que se torna matéria-prima para o brilhantismo interpretativo de um pensador como Zizek. Na minha opinião, o problema fundamental de Zizek é que a razão do seu próprio sucesso (aquilo que o torna um pensador de uma criatividade inigualável) acaba por subverter e frustrar todas as suas tentativas tentativas de ser um pensador político verdadeiramente crítico—alguém que, através da denúncia expõe e revela um potencial de transformação da realidade. É aqui também que Zizek se afasta definitivamente de Hegel e Marx, e é nesse ponto que o seu pensamento se torna mais frágil. Podemos dividir a obra de Zizek em duas partes: por um lado é uma crítica (que podemos chamar de psicanalítica) da sociedade contemporânea; por outro, defende um voluntarismo político abstracto e a-histórico sem qualquer ligação aparente com a componente anterior. Ora é esta separação que viola tudo o que Marx e Hegel defenderam, pois abandona aquilo a que tradicionalmente se convencionou chamar de 'crítica imanente'. Assim, a separação entre momento crítico e momento emancipatório transforma o seu lado pretensamente revolucionário naquilo a que Hegel chamou 'liberdade absoluta', algo sem qualquer conteúdo que não uma afirmação destruídora de uma vontade cega, e que constituiu o cerne da crítica Hegeliana dos excessos da revolução francesa e do período de Terror. Ora, o 'Acto' de Zizek parece-me ser um exemplo perfeito disso mesmo: é uma categoria apenas pretensamente revolucionária, pois não passa de algo abstracto e formal, sem qualquer conteúdo que não a afirmação pura e simples do 'desejo' de uma realidade alternativa. As críticas do próprio Marx em relação ao socialismo utópico do seu tempo, aplicam-se de forma perfeita a Zizek. Sobra o seu lado crítico, pois esse, com uma ou outra excepção, é de facto muito bom...e divertidíssimo. A ironia mordaz e provocadora de Zizek diverte, e é esse o seu principal problema. Ele pode ser um génio filosófico e psicanalítico, mas não deixa de ser sobretudo um entertainer. Enquanto Zizek não for capaz de juntar os dois elementos do seu pensamento que referi anteriormente, não deixará de ser mais um que, pretendendo criticar, acaba por alimentar a 'mentira' que ele tanto gosta de parodiar. O problema de Zizek é que Épater la bourgeoisie não chega, pois ela gosta e pede mais.

Jorge Sampaio que se cuide...

...porque há quem ande a fundir religiões sem consultar o Alto Responsável para o Diálogo de Civilizações. Ontem à noite, um jornalista da SIC notícias, cheio de optimismo ecuménico, relatou mais um caso de violência na trágica Caxemira 'Indiana', referindo-se à fúria dos manifestantes como tendo sido motivada pela concessão de um terreno para a construção de uma mesquita hindu. Isso mesmo: mesquita hindu. Não fazendo caso de séculos de ódio entre as duas comunidades, o informadíssimo assalariado do canal de carnaxide (cujo nome não fixei) achou por bem inventar uma nova religião. Atenção: isto não foi um directo mas uma peça jornalística, algo que, supostamente, é feito com tempo e requer alguma investigação.

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