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Parabéns, Bloco

Hoje o Bloco de Esquerda faz 10 anos. Se há coisa que gosto de ver no meu CV é ter participado na sua fundação. Mas isso pouco importa, é pessoal. Importante mesmo é que o nascimento do BE mudou a política em Portugal. Basta ver o que está a acontecer no PS - independentemente da avaliação que se faça disso - para o perceber. O BE apostou, mais do que no jogo de poder normal, em introduzir temas, ideias e modos de fazer que pudessem progressivamente tornar-se hegemónicos na esquerda. Apesar de há uns anos ter decidido sair da vida partidária (do BE ou qualquer outro), hoje não quero deixar de ir ao almoço de aniversário (antes de ir à TVI24 discutir os já-não posso-mais-com-isto "casamentos homossexuais", como dizem nos media).

hoje, à hora dos noticiários, na TVI

ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...que graças a D(d?)eus não conheço [VCG]...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele... ele...ele...

ele...

Jornalismo à seria

 

"Manuela Guedes - ... as próprias câmaras de televisão só podem apanhar de frente as pessoas ... ahhh ... foi tudo estudado não se pode fazer lá dentro os planos que nós queremos...

Correia Guedes - ... que era habitual fazer ... eu reparei ... eu reparei na ausência desses planos ...  ahhh ... não sei se são proibidos.

Manuela Guedes - não não, estamos proibidos de fazer de fazer muitas coisas lá dentro...

Correia Guedes - mas dantes havia planos da assistência, planos do que as pessoas estavam a fazer.

Manuela Guedes - é uma coisa um pouco estranha, mas estamos proibidos!

Correia Guedes - planos da mesa e contra-campos, ou seja, planos na direcção da sala e não na direcção do orador e hoje não vi nada disso ... ehhh ... não sei se...

Manuela Guedes - ó Vasco [é o Correia Guedes], houve um ... houve um dos temas...

Correia Guedes - pra já aquilo está eficientezinho, não é? ehhh ... ehhh ...

Manuela Guedes - Não, não, este Governo é muito eficiente nessa matéria.

Correia Guedes - o produto ...  ehhh ... ehhh ... está muito bem embalado, etcetera."

E já que um tema na moda tem sido a moral e bons costumes versus pornografia

vale a pena ler um artigo de hoje na New Scientist intitulado «Porn in the USA: Conservatives are biggest consumers», em particular o ponto que trata da correlação entre consumo privado de pornografia e defesa pública da tal «moral»  e  dos «bons costumes»:

 

Residents of 27 states that passed laws banning gay marriages boasted 11% more porn subscribers than states that don't explicitly restrict gay marriage.

To get a better handle on other associations between social attitudes and pornography consumption, Edelman melded his data with a previous study on public attitudes toward religion.

States where a majority of residents agreed with the statement "I have old-fashioned values about family and marriage," bought 3.6 more subscriptions per thousand people than states where a majority disagreed. A similar difference emerged for the statement "AIDS might be God's punishment for immoral sexual behaviour."

"One natural hypothesis is something like repression: if you're told you can't have this, then you want it more," Edelman says.

kuku e courbet

Agentes da PSP resolveram apreender, no dia 23, exemplares de um livro exposto numa feira do livro em Braga, por o mesmo ostentar, na capa, uma reprodução de um quadro que por sua vez reproduz, de forma assaz realista (naturalista, até), as coxas e o sexo de uma mulher. O pretexto foi, segundo os agentes, a queixa de alguns adultos que se haviam deslocado à feira com a respectiva prole e consideraram a ilustração "ofensiva" e "pornográfica". A acção policial, amplamente noticiada no próprio dia, foi coberta de ridículo, taxada de censora, bacoca e até de ilegal . Ao Público, um juiz chegou a sublinhar que para se ser comandante de polícia hoje em dia é necessária uma licenciatura e que por isso os responsáveis da PSP de Braga não teriam desculpa por não conhecer (reconhecer será a expressão apropriada) o quadro de 1866 do pintor francês Gustave Courbet (A Origem do Mundo) que o livro exibe.

Por partes: de acordo com a lei 254/76, ainda em vigor (e cujo hilariante preâmbulo se recomenda), as autoridades policiais podem apreender "objectos de conteúdo pornográfico ou obsceno" quando "expostos na via pública". A lei exime-se de explicar o que é "o pornográfico e o obsceno", de modo que a apreciação e distinção, referida no tal preâmbulo, entre o que pode (e deve?) ser apreendido e "o erótico e o nu artístico" depende dos olhos (e mundividência, e bom senso, e falta dele) de quem pode apreender. Quanto ao argumento de que a imagem em causa é uma reprodução de uma obra de arte e portanto vê-la como obscena e/ou pornográfica é um sinal de falta de cultura só pode ser invocado por quem esteja muito pouco familiarizado quer com a arte em geral (contemporânea e não só) quer com as polémicas e escândalos associados à sua natureza transgressora (incluindo, em 1998, a apreensão, pela polícia britânica, de um álbum do fotógrafo Robert Mapplethorpe, propriedade de uma universidade de Birmingham, por ter sido, precisamente, considerado pornográfico/obsceno).

Concluindo: os polícias de Braga fizeram um disparate (e a lei que para tal os mandata é outro e deve ser alterada - assim as prioridades o permitam, claro). Mas apodar o seu acto de gravíssimo atentado à liberdade de expressão e democracia e por aí fora só pode ser falta de assunto. Ou isso ou a vontade descabelada de ver fascismo em tudo o que mexe - e como la hay. Sucede que todo o barulho que se fez a este propósito contrasta com todo o barulho que se não fez quando, a 5 de Janeiro, um rapaz de 14 anos foi morto com um tiro na cabeça - ao que parece, segundo a perícia da Polícia Judiciária, à queima-roupa - por um agente da mesmíssima PSP. O rapaz, Elson Sanches - ou Kuku - era negro, vivia num dos últimos "bairros de lata" do País e, afiançou-se (com base na informação policial), um delinquente. Foi quanto bastou para que a sua morte passasse sem escândalo - quase sem perguntas, até. Não, a vida apreendida de um Kuku não vale a "censura" de um Courbet. Decerto porque o Kuku é que era pornográfico.

 

(publicado hoje no dn)

A distinção entre erotismo e porno é pequeno-burguesa.

"Toma!". Assim, com linguagem seventies. E porque já vou andando para velho, as coisas que me ocorre dizer sobre porno já foram ditas e/ou mostradas há 432 anos atrás.

 

(Ah, e a tod@s @s polícias e magistrad@s engasgad@s ou sec@s desejo bons orgasmos. Assim tipo terminar uma carta formal e escrever "com os mais sinceros votos de excelentes orgasmos, ... fulano de tal".)

Outros moralismos e a defesa da pornografia

Há cerca de dois anos a Biblioteca Nacional Francesa organizou uma exposição sobre "L'enfer de la Bibliotéque", sendo que este "Inferno" é um mítico acervo de obras pouco, hum, decentes, chamemos-lhe assim (" l'Enfer de la Bibliothèque s'entend comme une légende, un fantasme, le territoire majeur de l'interdit qui alimente en retour toutes les curiosités. Mais l'écart est grand entre ce mythe et la réalité. Aussi l'ambition de l'exposition que la BnF consacre à cette part obscure de ses collections consiste-t-elle à lever le voile sur la vérité de l'Enfer. Il convient d'abord de retracer l'histoire, pleine de surprises, de la constitution de ce lieu abstrait, mental – une « cote », un numéro de classement qui le désigne à la consultation « réservée » – où sont rassemblés textes et images réputés contraires aux bonnes mœurs."). A censura pelos correios japoneses do catálogo dessa exposição suscitou, naturalmente, surpresa e fez com que o Rue89 contasse, não só essa história como uma outra, ainda mais delirante, acontecida com a polícia aduaneira inglesa no Eurostar, que confiscou os manga eróticos (que, julgo, serem de venda livre em tudo o que é país ocidental) que um viajante levava na bagagem.

 

Mas voltemos ao que me trouxe aqui, o fim do post da Fernanda, em que escreveu «sobretudo, não se esqueçam de sonhar com a tal da distinção certinha entre 'erotismo', a coisa boa e nobre, e 'pornografia', a coisa má e nojenta.». É o mote perfeito para voltar a trazer para aqui uma "desdiabolização" da pornografia, usando para esse efeito um manifesto anarquista sobre o tema. Normalmente cito-o quando há conversas de sexismo e se tenta passar a mensagem de que pornografia é sempre sinónimo de exploração da mulher logo deve ser proibida/censurada, mas também se adequa noutros contextos.

 

"Pornography, like any other form of entertainment can be good or  bad, based on the individual merits of any particular work. However, as a genre of literature or film, it is no better or worse or good or evil than any other. If porn is bad or sexist, the best strategy is to criticize it and discuss it with others, and/or make good, non-sexist porn, not suppress it. Sex and its depiction are a source of pleasure for many and our freedom to indulge in both should be defended, or at least tolerated, by anarchists. Censors, including those who claim to be anarchists, are the enemies of freedom, and anarchists who support them call into question their commitment to a free society."


Essas "tretas" que só interessam a alguns...

"E andava a gente, cá em baixo com os pés na terra, a pensar que os problemas que afectam todos eram mais importantes do que aqueles que só afectam um dos lados da fractura...". É sempre bom saber que essa treta da igualdade de direitos não passa disso mesmo, de uma treta.

 

A bem dizer, uma das hipóteses explicativas para tal postura é ela vir de um XY que, diz a voz popular, não conseguem funcionar em multifunção - felizmente estão aí os Miguéis (de diferentes orientações sexuias) para contrariar a generalização.

e depois os polícias de braga é que são parolos

no episódio caricato da psp, courbet e quê, e nos milhares (bom, pelo menos centenas) de posts e comentários que originou, mais os artigos de jornal e, calculo (não vi), peças televisivas, há algo muito mais provinciano e bacoco que o gesto (e entendimento das funções e da lei) dos polícias que apreenderam os livros: a forma como toda a gente se refere reverencialmente à 'obra de arte' (ainda por cima do século xix e exposta num 'museu de paris') e à 'claríssima' e 'óbvia' e tudo e tudo distinção entre erotismo e pornografia.

 

claro que toda a gente sabe, ou pelo menos toda a gente veio a saber, que o quadro de courbet em causa causou escândalo quando este o quis expor. mas foi há mais de um século e nós somos todos -- todos, claro, à excepção dos senhores da psp e dos pais das criancinhas que fizeram a queixa -- gente muito sofisticada. de tal modo que de certeza que toda a gente reagiria da mesma forma se em vez da peluda origem do mundo o livro em causa tivesse na capa 'jim and tom, sausalito 1977', uma foto de robert mapplethorpe na qual um homem urina na boca de outro. ou aquela, creio que chamada 'homem em fato de terylene', em que só se vê o fato e o falo, enorme e negro, que sai da braguilha. por exemplo. para não falar da imagem que eu teria colocado aqui se soubesse como. (socorro, shyza)*

 

 

claro que houve museus -- museus, leram bem -- dos eua que recusaram exibir as obras de mapplethorpe (tão recentemente quanto em 1989, o ano da morte do artista). houve escândalos vários, alguns devido a fotos de crianças nuas. e em 1998 aconteceu esta coisa extraordinária: um álbum com as fotografias de mapplethorpe (mapplethorpe, 1992), propriedade de uma universidade de birmingham, foi apreendido pela policia inglesa enquanto na posse de uma estudante que estava a fazer um trabalho sobre o artista americano. o livro acabaria por ser devolvido, mas um dos responsáveis da universidade chegou a ser questionado pela polícia.

 

claro que em vez de falar de sexualidade explícita poderia falar de algo verdadeiramente obsceno: a morte. podia falar de wegee e das suas fotos de homicídios ou de witkin e das suas bem mortas naturezas. mas acho que já me expliquei (e dá muito trabalho procurar as imagens na net). boa noite e bons sonhos -- sobretudo, não se esqueçam de sonhar com a tal da distinção certinha entre 'erotismo', a coisa boa e nobre, e 'pornografia', a coisa má e nojenta.

 

adenda: reparei agora que eduardo pitta já tinha escrito mais ou menos o mesmo, e também lembrando mapplethorpe.

 

*done (ass. shyz)

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